“Nossa abadia foi oficialmente qualificada como um ‘cluster’”. Entrevista com Jacques Audebert

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10 Abril 2020

Em Saint-Benoit-sur-Loire, a Abadia Beneditina de Fleury (Loiret) é severamente afetada pela epidemia do coronavírus. Entrevistado por La Vie, Jacques Audebert, atual prior-administrador, faz um balanço da situação da saúde dos monges.

A entrevista é de Pierre Jova, publicada por La Vie, 06-04-2020. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Quais são as últimas notícias da sua comunidade?

Nós lamentamos a morte de um dos nossos irmãos contaminados pelo coronavírus, que morreu no Domingo de Ramos: trata-se de dom Bernard Ducruet, que foi abade de 1973 a 1991. Ele tinha 92 anos. Nós o colocamos na cripta hoje de manhã, em uma capa impermeável trazida pela funerária. Meia dúzia de irmãos estava presente para acompanhá-lo. Dada a situação sanitária, não pudemos fazer a celebração. Esperamos poder fazê-lo em maio ou junho.

Como a abadia foi contaminada?

Nós tínhamos antecipado o confinamento: no dia 13 de março, a comunidade teve conselho. Um irmão voltou de Val-d’Oise, onde tinha visitado sua família, e apresentou os sintomas. Decidimos colocá-lo em quarentena solitária e fechar os ofícios aos fiéis, a partir do dia seguinte. Infelizmente, o lobo já havia entrado no redil... No total, 18 irmãos foram infectados um após o outro, sofrendo de febre, dores de cabeça e aperto no peito. Um irmão podia se sentir bem às 9h e, ao meio-dia, estar com 38° de febre!

Entramos em contato com o Samu, que não tinha testes suficientes para nós. Finalmente, nosso médico local conseguiu encontrar um laboratório privado para realizá-los. Um biólogo veio examinar três irmãos, todos considerados positivos. Portanto, nossa abadia foi oficialmente qualificada como um “cluster”! Desde então, nosso médico impôs a reclusão. Não cozinhamos mais e recorremos a um fornecedor, que nos envia bandejas individuais. Três irmãos saudáveis deixam as bandejas na frente das portas de cada cela. Interrompemos os ofícios comunitários, estamos todos em nossas células. Mas mantemos os sinos dos ofícios para dizer à população que ainda estamos aqui e que estamos rezando!

Como vocês vivem a provação da reclusão?

Um pouco como os cartuxos, mas com um rigor maior! De fato, cada um dos cartuxos dispõe de um pequeno jardim e de uma oficina, enquanto nós, nossa cela, que tem três metros por três metros! No entanto, todos podem sair uma vez por dia ao parque, sem se cruzar. Apesar de tudo, a comunidade vive esse período pacificamente. Nós, monges, estamos preparados para viver em reclusão! Cada irmão pode viver o ofício em sua cela e praticar a Lectio Divina. Há um velho provérbio monástico: “A cela do monge (cella) é o seu Céu (cellum)”!

No entanto, esta doença deixa as pessoas atordoadas. Os irmãos afetados rezam, leem um pouco, mas não conseguem fazer muito esforço. Alguns se consolam com os livros em quadrinhos da nossa biblioteca! Acima de tudo, nossa vocação é viver em comunidade. É isso que nos torna “irmãos”. Lá experimentamos uma vida solitária comum. É por isso que ligo para os irmãos todos os dias, porque há um telefone em cada cela. Nós deixamos uma folha à sua porta para que possa seguir e celebrar os ofícios do dia. Também escrevo um “diário da reclusão” para dar as notícias da comunidade e de fora! Recebemos muitas mensagens de apoio do mundo inteiro.

Nós entramos na Semana Santa. Como vocês estão se preparando?

Celebraremos os ofícios da Semana Santa, cada um em sua célula. Na Quinta-Feira Santa e no dia da Páscoa, celebrarei a Eucaristia e distribuiremos a comunhão na porta de cada irmão.

Vocês têm notícias de outros mosteiros?

Fiquei sabendo que os cistercienses trapistas da Abadia de Notre-Dame d'Oelenberg (Alto Reno) estão sofrendo. Eles lamentam uma morte. Outro caso: a Abadia Beneditina Santa Madalena de Barroux (Vaucluse) tem 15 irmãos infectados com o vírus (acrescentamos a esse balanço provisório a morte de quatro dos nove irmãos do mosteiro dos capuchinhos de Creil, no Drôme. Nota do editor). Felizmente, vários mosteiros foram poupados.

Que mensagem espiritual gostaria de deixar àqueles que estão passando por essa crise sanitária?

Esta Quaresma toda particular nos convida a rezar pelos mais desafortunados que nós: os idosos isolados, as famílias com crianças pequenas que moram em apartamentos minúsculos, os casais que não suportam ficar um com o outro o tempo todo. Nós também rezamos em particular pelos doentes, pelos cuidadores e governantes. No início da crise, compusemos uma oração a São Bento, de quem temos relíquias aqui, para afastar a pandemia. Nós a compartilhamos:

“Deus, nosso Pai,
fica atento ao clamor de Teus filhos.
Diante da epidemia que afeta nosso mundo
nós recorremos a Ti com toda confiança
e Te pedimos, por intercessão de São Bento,
que cesse este flagelo,
que os doentes sejam resgatados,
que os profissionais da saúde sejam socorridos,
e que nossos líderes sejam iluminados,
para que se manifeste a salvação trazida
por Teu Filho, Jesus salvador dos homens”.

 

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