No que estávamos pensando. Artigo de Manuel Reyes Mate

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04 Abril 2020

"Estamos diante de uma novidade histórica que nos obriga a reorganizar nosso caminho", escreve Manuel Reyes Mate, filósofo espanhol e autor de "Karl Marx sobre a religião" e "O tempo, tribunal da história" (Editora Trotta), em artigo publicado por El Norte de Castilla, 29-03-2020. A tradução é de Diogo Justino.

Eis o artigo.

“As pestes e as guerras nos pegam sempre desprevenidos. Como vamos antever essas pragas que suprimem o futuro, nos aprisionam e nos obrigam a falarmos sozinhos?” Esta afirmação é de um dos personagens de A Peste, romance de 1946 que elevou Albert Camus ao Prêmio Nobel de Literatura.

A Pandemia ou a Peste nunca estão na agenda dos políticos que trabalham sempre com o previsível – mas elas se infiltram na vida real e nos desorientam até o ponto em que, para recuperar o norte, temos que recorrer aos artistas que, como Kafka dizia, “dão a hora por adiantada”, ou seja, com sua genialidade são capazes de antecipar o que ainda não existe.

O que acontece em Orã, a cidade empesteada em que se desenvolve o romance de Camus, é muito parecido com o que vamos conhecendo na Espanha. Se bloqueia a cidade para que ninguém saia, os infectados são isolados, são enterrados anonimamente... E nos resta esperar a estiagem porque, de momento, o vírus criminoso é invencível – se esvai apenas quando se esgota.

Interessa conhecer como se vive dentro. O cronista recorre a um termo desconcertante: exílio. Afirma que vivem em um exílio. Surpreende que ao aprisionamento se nomeie de exílio, uma palavra que evoca a errância, mas que nada tem a ver com o que, na verdade, mais se parece com um campo de concentração. Se Camus insiste com a metáfora é porque descreve bem a vida dos empesteados. É o que a quarentena provoca, em primeiro lugar: isolamento. Ser afastado dos seus e privado das conexões reais com o mundo.

Se o humano tem pernas e não raízes, privá-lo de caminhar, deixando-o plantado, é como expulsá-lo de seu ambiente. No entanto, ocorre algo mais. O confinado, como o exilado, precisa renunciar à sua biografia. Olhar para trás não lhe serve de nada porque há um abismo entre o passado e o presente. Desse passado irrecuperável não vem nenhuma força, senão apenas a dor da saudade. Também renunciam a imaginar o futuro porque isso supõe especular sobre a duração da peste e, portanto, mais dor. Nesse sentido, a peste é um exílio: nos expulsa do paraíso e nos abandona ao momento presente.

Os personagens estão sozinhos, mas não resignados. Esta solidão é, com efeito, altamente produtiva. Sem rotinas para se esconder estão fadados à reflexão. Albert Camus, leitor devoto de Dostoievsky, toma dele a ideia de que a quarentena é um tempo excepcional. O que o mestre russo fez em A Lenda do Grande Inquisidor, debulhando as grandes perguntas que o espírito do mundo fez a Jesus naquela quarentena no deserto, Camus faz em A Peste. Algumas dessas reflexões são de inegável atualidade.

Elas são de grande profundidade teórica porque afetam o sentido da política. Não se pode perder de vista que A Peste, escrita no contexto da II Guerra Mundial, queria ser uma metáfora daquela sociedade que sucumbiu ao fascismo. O fascismo, como a peste, triunfou porque se encontrou com uma sociedade predisposta. A cumplicidade se expressava na indiferença diante do destino dos outros, na frivolidade das elites que se preocupavam apenas com seus próprios negócios, e no flerte para com a violência política. Em uma sociedade assim, sem defesas culturais e morais para proteger-se, o êxito do vírus fascista estava cantado. Como enfrentar a peste, a guerra, com uma geração que recusava os valores recebidos, mas não tinha outros?

O romance tenta contrapor essa irresponsabilidade com uma pergunta que o percorre do início ao fim: como justificar o sofrimento de um infectado? Camus estava convencido de que se justificamos um só caso, ainda que em benefício da maioria, a porta se abre para propostas políticas que só pensam no proveito de uns sem levar em conta a desgraça dos outros. Em Camus o sofrimento não é apenas um problema moral, está elevado à categoria política.

A peste não levanta somente questões que afetam o sentido da política. Existe uma sequência imparável de infectados que obriga a uma resposta imediata. O que fazer com os enfermos? Saldar contas ideológicas? Cobrar faturas políticas? O Dr. Rieux, autêntico protagonista da obra, que tem ideias próximas às do autor, é claro sobre isso. “A única maneira de lutar contra a peste é, ainda que isto faça rir a alguns, a honestidade”. Perguntado sobre o que pode significar ser honesto, responde o médico que “no meu caso, fazer bem meu trabalho”. O que precisa ser feito é curar. E diz isso sabendo que a batalha está perdida e que o mundo ao qual querem devolver os enfermos é um absurdo porque no final a morte é impositiva. Não está nas mãos de ninguém garantir a felicidade, mas sim aliviar o sofrimento. Essa é a prioridade prática.

Não parece que essas lições sejam supérfluas para nosso caso. Em pouco tempo descobrimos que o importante é a vida. E só podemos estar a favor da vida se garantimos a de todos ao mesmo tempo. É de pouca utilidade aos ricos buscar um bem-estar seletivo se eles não conseguem impedir que o vírus se espalhe. À luz do que estamos vivendo se evidenciam as políticas tacanhas de cortes ou privatização da saúde. Há algo de justiça poética quando Esperanza Aguirre [1], que maltratou a saúde pública, tenha ingressado em um hospital público para curar-se do Covid-19.

Outra evidência indiscutível é que seja hoje mais importante socialmente uma enfermeira do que Messi ou Ronaldo. Algo fazemos mal quando se premia tão colossalmente em dinheiro e prestígio a um homem de short curto cujo mérito é chutar uma bola, enquanto relegamos a um lugar de insignificância a enfermeira ou o professor. Se isso se justifica economicamente, estamos diante de um sistema econômico irracional; se a justificativa é social, então a sociedade está doente.

Se escuta dizer que nestes dias de confinamento “aprendemos muito”; todavia, para que seja verdadeiro é necessário desaprender outro tanto. Seria uma pena se as lições que nos oferece essa dura experiência fossem anuladas por preconceitos anteriores. Precisamos perguntar que política é essa que esquece que o fundamental é a vida. Devemos estar cegos para ajoelharmos diante de uma escala de valores que entroniza os ídolos de cartolina enquanto ignoramos esses “honestos profissionais”, dos quais falava o Dr. Rieux, que nos curam e educam. Estamos diante de uma novidade histórica que nos obriga a reorganizar nosso caminho. Para poder captar a mensagem que nos enviam aqueles que estão morrendo e lutando, devemos começar por questionar nossas certezas e estar dispostos a aprender.

Nota:

[1] Esperanza Aguirre é uma política espanhola filiada ao Partido Popular (PP). Ex-presidente da Comunidade Autônoma de Madri.

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