Xaverianos em Parma: informação e verdade

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27 Março 2020

"Repito que não estou aqui para negar os fatos ou minimizar o evento: foram cerca de quinze dias de sofrimento duro e doloroso para todos nós, Xaverianos, e para os coirmãos que cuidam dos doentes, porque é preciso dizer que os doentes não foram deixados sozinhos a morrer "entre os lençóis da cama ...", como se abandonados à própria sorte", escreve o padre Gabriele Ferrari, missionário e ex-superior geral dos Padres Xaverianos, em artigo publicado por Settimana News, 26-03-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Que em tempos de epidemia fiquemos assustados, é bastante normal, como é normal que nasça a tendência a caçar o contaminador, o furo, o sensacional. Isso produz o medo - às vezes até irracional - do contágio, o apelo a tudo e a todos para que se salvem, e muitas vezes se atribuem, sem perceber, responsabilidades que não cabem honestamente nem às estruturas públicas e nem mesmo às autoridades.

Portanto, não causa espanto o que lemos no La Repubblica de 24 de março, cujos tons desesperados abalaram muitas pessoas. Uma série de telefonemas chegou aos Xaverianos (falo também em nome estritamente pessoal, mesmo que more longe de Parma, na província de Como), de pessoas amigas dos Xaverianos perguntando o que estava acontecendo em Parma e por que ninguém interveio.

O artigo do Repubblica e a vida da comunidade

Nesse primeiro artigo, lemos que quase todo dia um deles, um Xaveriano "morre em silêncio na cama do seu quarto, que os Xaverianos morrem entre os lençóis da casa, na sede internacional dos Xaverians em Parma”. Que o mês de março foi um mês de luto para todos nós, Xaverianos, é uma certeza que ninguém pode negar ou diminuir: perder em uma quinzena ou um pouco mais, 13 coirmãos não é fácil!

Eles eram irmãos, amigos, colaboradores da missão ... Não é fácil! Mas não se pode ter certeza de que sempre foi por causa do coronavírus, pois as coisas aconteceram muito rapidamente. Concluir, porém, colocando na boca de um superior a frase: “rezamos, adoecemos e morremos. Mas agora alguém tem que vir e nos ajudar ...” - isso parece demais para mim, e é esse tom apocalíptico que causou todo o alvoroço.

Repito que não estou aqui para negar os fatos ou minimizar o evento: foram cerca de quinze dias de sofrimento duro e doloroso para todos nós, Xaverianos, e para os coirmãos que cuidam dos doentes, porque é preciso dizer que os doentes não foram deixados sozinhos a morrer "entre os lençóis da cama ...", como se abandonados à própria sorte.

Acompanhados e cuidados, certamente não sozinhos.

Eles foram acompanhados até o fim pelo nosso médico Gildo Coperchio, responsável pelo chamado "quarto andar", ou seja, a enfermaria da Casa Mãe. Obviamente, depois que descobrimos a presença do vírus, percebemos que estávamos atrasados e as precauções necessárias foram tomadas.

Todos os operadores externos da enfermaria foram mandados para casa e alguns coirmãos xaverianos de boa vontade e em condições de saúde aceitáveis entraram em operação para suprir o máximo possível. Não foi criado um "leprosário (!) entre os corredores e os quartos”, praticamente sem nenhum médico, exceto um de nós ... Tivemos que nos virar, como fizeram muitos italianos normais. Claro, "a situação piorou", como disse o superior da comunidade regional: "agora precisamos de ajuda, alguém precisa vir. Também escrevemos ao prefeito [de Parma], falamos com as autoridades: é necessária uma intervenção imediata, venham descontaminar”.

Mas, posta dessa maneira, as coisas despertaram mais preocupação ainda e aumentaram o medo não apenas entre os parentes dos missionários, mas também entre os tantos amigos que em Parma, acima de tudo, sempre estiveram muito próximos dos Xaverianos e que não podiam ler o artigo sem ficar preocupados.

Como informamos e por que o fazemos?

Alguém devia intervir de alguma forma para corrigir o conteúdo do artigo de 24 de março e, no número do dia seguinte (25 de março), o mesmo autor da matéria anterior questiona a Sra. Bianca Borrini, do Serviço de Saúde Pública da Autoridade Local de Saúde de Parma, que afirma: “quando recebemos a primeira ligação que sinalizava uma emergência, ativamos imediatamente o protocolo, mas acredito que naquele momento, francamente, já era tarde: o vírus já estava circulando há alguns dias na casa dos Xaverianos".

O que é bastante compreensível em um complexo como a Casa Mãe de um instituto de missionários que envolve a passagem, mesmo por apenas um dia, de muitas pessoas, Xaverianos e outras, de diferentes ambientes nacionais e não nacionais. Justamente no início do mês, houve o funeral de um coirmão de Brescia, para o qual, é claro, vieram coirmãos e amigos de fora de Parma. Mas quem poderia imaginar que o vírus já estivesse em circulação?

A senhora Borrini, que é a profissional que coordena milhares de pedidos de ajuda neste período "que jamais teríamos imaginado", diz que, no caso dos treze missionários que morreram em menos de quinze dias em Parma, na sede dos Xaverianos, a "ajuda" pelas autoridades aconteceu, mas "infelizmente, quando fomos avisados, já era tarde para conter o contágio".

Borrini continua dizendo que, assim que perceberam a emergência, "foi prestado primeiro assistência telefônica e depois, com o tempo, foram enviados um pneumologista, um médico de sala de emergência e voluntários. Lá já estava um médico, missionário, que recebeu instruções sobre o isolamento". E continua: “entre a preocupação das autoridades e de todos, também fornecemos materiais e medicamentos, mas repito: infelizmente o vírus já havia infectado muitas pessoas. Muitos dos missionários são pessoas que viajaram pelo mundo, que conhecem as guerras, o Ebola e ... talvez, por índole, no começo não tenham sentido medo do vírus, que provavelmente, no entanto, como mencionado, já estava presente. Assim começaram as mortes”.

Nós como milhões de outras pessoas.

Finalmente, gostaria de lembrar que o que aconteceu entre os Xaverianos não é algo único e que não podemos nos sentir privilegiados porque somos missionários, religiosos ou pessoas da Igreja. É o que acontece com muitos de nossos irmãos e irmãs no mundo e que ocorre principalmente na RSA e nas casas para idosos ou instalações assistenciais: por exemplo, nos últimos dias, aconteceu o mesmo em um lar de idosos na província de Trento, onde cerca de trinta idosos foram a óbito.

Quero concluir este artigo, que gostaria não ofendesse ninguém, dizendo que sinto que tenho que escrever e espero que seja divulgado, agradecendo não apenas a todos que se preocupam conosco missionários Xaverianos, mas também convidando-os a pensar em todos os doentes com coronavírus e suas famílias, e tentar fazer uma leitura objetiva, dentro do possível, dos fatos que seja ao mesmo tempo contextualizada e não simplesmente um relato de números.

Quem informa sabe bem que, se existe - e de fato existe - um direito à informação, isso deve ser honestamente combinado com o respeito pelas pessoas e pela verdade.

Tavernerio, 26 de março de 2020.

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