A ecologia das palavras

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09 Março 2020

"As palavras não têm relação apenas com a verdade racional e com a persuasão, mas também com as verdades do coração", escreve Andrew Hamilton, padre jesuíta, foi professor de teologia na United Faculty of Theology, Austrália, e atualmente é editor de Eureka Street, sítio eletrônico dos jesuítas da Austrália, publicado em La Croix International, 07-03-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

Ecologia é uma palavra expansiva. Existe uma ecologia de praticamente tudo. Isso é de se esperar, porque a ecologia tem a ver com as relações entre as coisas.

A palavra em si deriva do grego oikos, que significa casa ou lar. Por si só, uma casa é uma coisa de madeira ou de tijolo, com janelas, portas e talvez chaminés.

Uma casa se torna um lar por meio das relações que lhe dão individualidade. São sinais destas as fotos nas paredes, os brinquedos no corredor, os livros nas prateleiras e o pelo de gato no tapete. Lar é uma palavra ecológica.

Falar da ecologia das palavras pode ser iluminador, pois evoca a ampla gama de relações que as palavras encarnam. Também nos convida a fazer perguntas amplas sobre o uso saudável e não saudável das palavras em uma sociedade.

As palavras são julgadas mais comumente pela sua relação com a verdade e a falsidade. Boas palavras dizem a realidade como ela é; as mentiras negam o que é real; as palavras evasivas desviam a atenção dele.

A relação entre as palavras e a realidade, é claro, se cruza com as relações entre as pessoas. Uma sociedade em que mentiras e evasões da verdade dominam é, por definição, uma sociedade doente e poluída.

As palavras também estão relacionadas à persuasão. Se usadas de maneira atraente, as palavras podem confirmar ou mudar a nossa visão sobre a realidade. Se usadas sem atrativos, podem prejudicar as pessoas contra a verdade.

O mundo político e eclesial, no qual as palavras são usadas principalmente para exortação, evocação e outras formas de persuasão, oferece bons e maus exemplos do uso das palavras.

Os sermões de Santo Agostinho e de Lancelot Andrewes, e os discursos de Cícero, por exemplo, são persuasivos porque suas palavras são maravilhosamente compatíveis com a realidade que evocam.

Você será capaz de fornecer muitos exemplos pessoais de sermões e discursos proferidos sem convicção, que enchem o ouvinte de informações supérfluas, que confiam na linguagem e nas imagens obsoletas, e tentar intimidar, em vez de atrair o consenso.

A fragilidade da linguagem e da civilidade

No mundo público, as palavras costumam ser cuidadosamente empregadas para persuadir as pessoas a se inscrever em inverdades brutais e destrutivas. Ao se referirem a pessoas que buscaram proteção contra a perseguição, por exemplo, os políticos foram capazes de predispor o público contra elas.

Eles as fizeram aceitar a necessidade de tratá-las brutalmente, associando-as a criminalidade, trapaça, infecção, invasão, terrorismo e ameaça.

Da mesma forma, a fim de evitar a responsabilidade do Estado para com as pessoas desfavorecidas, eles representam as pessoas desempregadas e desfavorecidas como “encostadas”, preguiçosas, improdutivas e indignas.

As mesmas habilidades retóricas cruas e eficazes podem ser vistas no enquadramento das mudanças climáticas.

Não é por acaso que as pessoas que prejudicam o ambiente natural para obter lucro pessoal e exploram o ambiente econômico a fim de proteger sua própria riqueza e até empobrecer as pessoas desfavorecidas também devastam a ecologia das palavras para seus próprios fins.

A exploração dos mundos natural e social, e a poluição das palavras caminham de mãos dadas.

As palavras não têm relação apenas com a verdade e a persuasão racionais, mas também com as verdades do coração.

Elas carregam associações com o mundo do passado, com sons semelhantes no mundo natural, com a música e com comunidades que as utilizam. A poesia, que na melhor das hipóteses é um filtro e um purificador da linguagem, explora essas relações.

Ao comparar o modo como as pessoas usam as palavras, podemos facilmente perder o valor da ecologia musical das palavras.

A linguagem dos agricultores de subsistência da América Central, por exemplo, era frequentemente descrita como “pobre”, porque parecia consistir em um grande número de palavrões usados liberalmente e em poucos substantivos abstratos.

No entanto, ela é musical, rica em variedade afetiva, possui muitas palavras discriminatórias para descrever o mundo natural e uma riqueza de diminutivos e de outras formas para expressar a percepção pessoal.

Ela é paradoxalmente rica em comunicação não verbal. Retornar das comunidades rurais pobres para a conversa na cidade é experimentar um empobrecimento linguístico, assim como um enriquecimento.

Ecologia é uma palavra relativamente nova que incentivou a atenção para a miríade de relações que compõem o mundo natural, a consciência da sua fragilidade diante da poluição e da exploração e, portanto, o respeito por tais relações.

Se a reflexão sobre a ecologia das palavras encorajasse uma atenção mais ampla para a variedade de relações que se encarnam nas palavras, para a fragilidade da linguagem, para a civilidade diante da manipulação e da imposição, e para o tesouro de boas palavras, isso seria um feliz achado.

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