“É uma satisfação ver uma Igreja que se preocupa com a Amazônia”. Entrevista com Delio Siticonatzi

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06 Março 2020

Os povos indígenas da Amazônia sentem-se escutados, entendem que o Sínodo para a Amazônia mostrou que a Igreja está respondendo aos problemas vivenciados naquele imenso território. Delio Siticonatzi pertence ao povo asháninka, um dos muitos povos originários que tradicionalmente habitam a Amazônia peruana.

A entrevista é de Luis Miguel Modino.

Atualmente, ele mora em Nokopi, um centro de ensino superior onde, com o apoio do Vicariato de San Ramón, formam-se indígenas de diferentes povos. Ele foi um dos representantes dos povos indígenas na assembleia sinodal que aconteceu em Roma de 6 a 27 de outubro e foi eleito pelo Papa Francisco para fazer parte do conselho pós-sinodal.

Na sua opinião, o Sínodo "significou uma escuta, um diálogo, uma compressão da Igreja na Amazônia", que serviu para a Igreja responder a problemas. Delio denuncia que "o mundo indígena sempre foi discriminado, nunca foi valorizado, são povos esquecidos". Para superar essa situação, a Igreja criou espaços “para os jovens indígenas se superar e nem sempre serem pisoteados por essas grandes ideologias do mundo”.

Ele espera que Querida Amazônia seja conhecida, lembrando que ela fala sobre sonhos, algo que os indígenas sentem muito familiar. Ele também vê que "algo fundamental é articular esforços, trabalhando em rede", juntamente com uma pastoral de presença, não de visita. Entre seus sonhos está a "ver uma Amazônia que compreenda seus problemas, onde eles possam se ajudar, onde trabalhem juntos para alcançar a meta de preservar a natureza, viver sempre em unidade, em comunhão, como sempre viveram". Por fim, ele destaca sua satisfação com tudo o que experimentou no processo sinodal com o fato de "ver uma Igreja que se preocupa com a Amazônia".

Eis a entrevista.

O que significou todo o processo sinodal vivido até agora para você e para os povos indígenas com quem você mora?

O Sínodo, desde que o Papa Francisco chegou à Amazônia, em janeiro de 2018, significou muito, significou uma escuta, um diálogo, uma compressão da Igreja na Amazônia. A Amazônia sempre esperou receber respostas sobre os problemas que atualmente a afetam. A Igreja soube como responder, está respondendo a esses problemas.

Olhando para o futuro, qual pode ser a influência desse Sínodo no trabalho que a Igreja está realizando na Amazônia?

A influência que a Igreja poderia ter na Amazônia para as gerações futuras, esperamos que os vicariatos ecoem os trabalhos que a Igreja está propondo ou que já levantou. Por si só, a Amazônia está submersa em um mundo onde ninguém pode chegar, apenas a Igreja, com os padres e outros agentes pastorais, pode chegar aos cantos mais distantes e inóspitos da Amazônia, buscando a formação dos povos indígenas. Especialmente, que a Igreja possa se concentrar nos jovens, porque a esperança é posta nos jovens.

Foto: Luis Miguel Modino

Em Nokopi, onde você mora, vocês têm optado há anos pela educação de jovens desde as culturas, como tem repercutido o trabalho que a Igreja vem realizando na vida das comunidades?

Lembre-se de que o mundo indígena sempre foi discriminado, nunca foi valorizado, são povos esquecidos. Nesse espaço, a Igreja colocou seu olhar lá onde os indígenas veem que podem, onde não são desprezados, sempre os indígenas têm sido menosprezados, dizendo: bem, os indígenas não crescerão, estarão em sua comunidade, e eles nunca irão prosperar. Mas a Igreja, ao mirar a Amazônia, criou este belo local para os jovens indígenas vencerem e nem sempre serem pisoteados por essas grandes ideologias do mundo.

O que essa proposta que vem de um ancião, figura tradicionalmente respeitada no mundo indígena, de alguém que os escutou, daquela figura representada pelo Papa Francisco, significa para os povos indígenas, especialmente para os jovens?

Para os jovens indígenas, representa uma esperança, uma esperança em que eles possam se expressar, onde possam tornar conhecidas suas experiências, seus problemas, porque são eles que melhor conhecem suas realidades. Eles têm essa visão em relação à Igreja, ao Papa, com seu compromisso, com seu entusiasmo em trabalhar com a Amazônia e pela Amazônia.

Na Querida Amazônia, o Papa Francisco estruturou a exortação com base em sonhos, que sempre foram uma dimensão importante na vida dos povos indígenas. Você acha que o fato de ter se expressado a partir dessa categoria de sonhos ajuda a entender melhor a mensagem que o Papa Francisco quer transmitir?

Essa palavra, Querida Amazônia, parece familiar. Ainda não poderia garantir a você sobre essas questões, porque ainda a Querida Amazônia está na floresta. A Querida Amazônia ainda não foi descoberta, no entanto, literalmente, está oculta, ainda não veio à luz. Lembre-se de que nossos povos indígenas estão submersos nas vastas florestas, onde não há internet, onde não há tecnologia que as grandes cidades possuem. Jovens, adultos, idosos, crianças, não conhecem a exortação apostólica que o Papa Francisco trouxe à luz. Até os padres não estão imersos nisso. Esperamos que os vicariatos tornem conhecida a exortação apostólica que fala de sonhos, algo que soa muito familiar, onde os jovens possam conhecer essa exortação apostólica.

Você foi eleito um dos membros do conselho pós-sinodal. Como você acha que esse conselho pode ajudar no trabalho dos vicariatos e dioceses em toda a Amazônia?

É preciso lembrar que este é um trabalho árduo, ao qual se deve dedicar cem por cento, para alcançar o sonho da Amazônia, o sonho da Igreja na Amazônia e para a Amazônia. O fundamental é articular esforços, trabalhando em redes poderemos responder às necessidades da Amazônia, nos abrirmos, irmos às comunidades, porque aí a mensagem não chega, o que o Papa comunica na exortação e aparece no documento final. Você tem que trabalhar, dedicar cem por cento para que a Amazônia possa escutar o que a Igreja realmente deseja para ela.

Você falou sobre como é difícil na Amazônia saber o que acontece lá fora e o que acontece lá. Como a Igreja poderia ajudar sua mensagem a ser conhecida e o mundo conhecer a riqueza dos povos da Amazônia e da própria Amazônia?

A maneira mais correta de alcançar as comunidades da Amazônia é pela pastoral de presença, não de visita. A pastoral de presença é quando você está com a comunidade, compartilhando, e isso é o mais próximo que existe. Para mim, é algo que influenciará mais e a Igreja divulgará como a Amazônia é importante para as próprias pessoas e como as pessoas devem perceber que seu mundo é importante para os outros, não apenas para eles.

Foto: Luis Miguel Modino

Falando dos sonhos que o Papa Francisco tem, quais seriam os sonhos que você tem para a Amazônia nos próximos anos?

Meu sonho seria ver uma Amazônia abrangente com seus problemas, ver uma Amazônia onde eles possam se ajudar, onde trabalham juntos para alcançar um objetivo, o objetivo de preservar a natureza, sempre vivendo em unidade, em comunhão, como sempre viveram. Atualmente, as comunidades são influenciadas por essas ideologias da globalização, estão imersas nisso. A cultura deve mudar, mas deve mudar do lado positivo, não do lado negativo, como está acontecendo agora na Amazônia.

Como indígena, como alguém que conhece a vida das comunidades, pessoalmente e em nome das comunidades da Amazônia peruana, vocês se sentem satisfeitos com tudo o que o processo sinodal supõe até agora?

A verdade é que, por experiência própria, nunca soube desses documentos, começando pela matriz, que é Laudato Si. Eu nunca a conheci, mas depois que a descobri, senti-a, ela chamou minha atenção. Para mim, foi uma satisfação ver uma Igreja que se preocupa com a Amazônia. Para mim, significou muito e significa mais, como indígena é uma satisfação, ver que ainda há forças para continuar lutando contra as grandes empresas que extraem recursos, não apenas nesta parte da Amazônia, mas em todas as partes da Amazônia, que são afetados, sentem a dor daqueles espaços que são ou foram destruídos pelo mesmo homem.

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