O que podemos aprender com as diáconas da Igreja cristã oriental primitiva

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05 Março 2020

O Pe. Mark Morozowich atua como decano da Escola de Teologia e Estudos Religiosos da Universidade Católica dos Estados Unidos, onde também ocupa o cargo de professor associado de Estudos Litúrgicos e Teologia Sacramental. Padre católico ucraniano do oeste da Pensilvânia, o Pe. Morozowich se tornou em 2012 o primeiro padre cristão oriental a atuar como reitor da Escola de Teologia e Estudos Religiosos e diretor de liturgia na Universidade Católica dos Estados Unidos, tornando-se, sem dúvida, o teólogo bizantino de mais alto perfil que trabalha atualmente nos Estados Unidos.

O Pe. Morozowich possui um doutorado em Estudos Cristãos Orientais e uma licenciatura do Pontifício Instituto Oriental, dirigido pelos jesuítas em Roma, onde concluiu sua dissertação sobre a Quinta-Feira Santa da tradição bizantina entre os séculos IV a XIV, orientado pelo lendário estudioso oriental católico Robert Taft, SJ. Ele e o Pe. Taft cofundaram a Sociedade de Liturgia Oriental em 2006.

No dia 10 de dezembro, eu entrevistei o Pe. Morozowich por telefone sobre a antiga instituição das diaconisas, apresentando uma perspectiva sobre a prática cristã oriental raramente ouvida nos debates atuais sobre o papel das mulheres na Igreja Católica.

Nesta entrevista, focamos em explicar as práticas antigas à luz das discussões atuais, buscando informar e esclarecer, em vez de debater.

A entrevista foi concedida a Sean Salai, SJ e publicada em America, 02-03-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O que as diaconisas faziam na Igreja primitiva?

O período mais antigo do cristianismo floresceu com grande atenção aos membros da comunidade, com grande cuidado demonstrado pelas mulheres da Igreja. O Novo Testamento demonstra preocupação pelas viúvas e pelo bem-estar geral das mulheres. A comunidade cristã nascente trabalhava assiduamente para continuar espalhando a mensagem de Jesus Cristo e para desenvolver modos de continuar realizando o Seu mistério no meio delas.

A comunidade estabeleceu e aperfeiçoou vários rituais, e o principal entre eles é o batismo. Desde muito cedo, temos testemunhas do batismo por imersão, e algumas das nossas igrejas mais antigas tinham fontes batismais bastante grandes. Por uma questão de propriedade e de modéstia, assim como de proteção das mulheres, os homens não deviam ajudar no batismo de imersão completo para evitar olhares lascivos. Cuidar das mulheres desse modo fundamental levou a um ofício formal das diaconisas.

Em 2016, o Papa Francisco estabeleceu uma comissão para examinar o antigo papel das diaconisas na Igreja Católica, mas seus membros apresentaram uma perspectiva cristã ocidental. O que o cristianismo oriental, incluindo a sua própria tradição católica bizantina, acrescenta a essa discussão que muitas pessoas ainda não ouviram?

Para começar, muitas Igrejas não católicas orientais continuam tendo diaconisas hoje. Embora elas sejam muito raras e não atuem de maneira amplamente pública, é importante observar e levar em conta a sua existência. Eu não conheço nenhuma comunidade católica oriental que tenha diaconisas hoje.

Gostaria de ampliar a nossa discussão e examinar as várias complexidades dos rituais e práticas de ordenação cristã oriental, pois acredito que ajudarão a fornecer uma perspectiva diferente. O cristianismo oriental, católico e ortodoxo, preserva as antigas testemunhas históricas de homens casados ordenados ao presbiterado. Essa tradição ininterrupta, desde os primeiros tempos, demonstra uma maneira diferente de pensar as ordens sagradas.

A tradição ocidental diferiu com o acréscimo do celibato obrigatório a partir do século XII. Essa diferença disciplinar também cria expectativas e entendimentos diferentes dos vários ofícios. Olhemos por um minuto para as próprias cerimônias de ordenação, para termos outras intuições.

Todos os rituais de ordenação diaconal, presbiteral e episcopal na liturgia bizantina compartilham uma estrutura comum, assim como uma oração que começa deste modo: “A Graça Divina que cura aquilo que é enfermo...”, indicando a clara compreensão da nossa condição humana e a confiança no Espírito Santo para cumprir o ministério confiado à pessoa que está sendo ordenada. Essa oração comovente foca na comunidade e na centralidade da obra do Espírito no meio dos fiéis. Essa estrutura permaneceu ao longo dos séculos, desde os primeiros textos euchologion ainda existentes. O papel central do Espírito fala mais sobre o carisma do que sobre os poderes, e isso impacta nas conceitualizações sobre o exercício do ministério.

O que os documentos litúrgicos bizantinos nos dizem sobre as diaconisas?

O euchologion mais antigo da tradição bizantina ainda existente, o códice Barberini Greek 336, que data do século VIII, possui uma seção explícita para a ordenação de mulheres ao diaconato. As orações para ordenar diaconisas compartilham exatamente a mesma estrutura que as usadas para ordenar homens como diáconos. De fato, ele pede a mesma oração, “A Graça Divina”, usada em todas as outras ordenações, como observado anteriormente. Além disso, os manuscritos mais antigos indicam que as diaconisas eram ordenadas no altar e recebiam a comunhão da mão do patriarca dentro da balaustrada.

Essa clara indicação de mulheres no presbitério provavelmente desafiaria alguns cristãos orientais de hoje, que adotaram uma deformação posterior da sua tradição ao barrar as mulheres do presbitério. Eu gostaria que pudéssemos dizer mais, mas se sabe tão pouco sobre essas fontes além dos próprios rituais de oração.

O Papa Francisco disse que os ritos ocidentais de ordenação que ainda sobrevivem para diaconisas se assemelham mais à instalação de uma abadessa do que à ordenação de um homem como diácono. Isso também é verdade no ritual cristão oriental do códice Barbarini?

Eu nunca estudei o ritual de ordenação ocidental em comparação com a instalação de uma abadessa em detalhes. Mas, se olharmos para a cerimônia de ordenação de uma diaconisa na tradição constantinopolitana, baseada no códice Barbarini, veremos exatamente a mesma estrutura da ordenação de diáconos. Temos uma eleição pública, a imposição das mãos, a invocação do Espírito Santo e as mesmas vestes – incluindo a estola como símbolo do ofício – conferidas aos diáconos. Eles obviamente tinham um delineamento de papéis para as diaconisas, e podemos até ver isso a partir de outras testemunhas historiográficas. Não temos uma ideia clara do que as diaconisas faziam ou não faziam nos serviços litúrgicos. Muitos bons estudos históricos apontam para a sua atividade nas comunidades religiosas femininas, assim como para continuar o ministério para as mulheres.

No entanto, como o batismo infantil predomina nos tempos modernos, seu papel com o batismo não é aparente hoje. Por isso, o testemunho oriental não fornece um precedente histórico claro para a diaconisa fazer exatamente as mesmas coisas que os diáconos. É importante notar esse fato relevante da história enquanto refletimos hoje sobre essas possibilidades.

O que essa evidência histórica das diaconisas significa para os católicos hoje?

Eu acho que o aspecto mais importante a ser lembrado é que a Igreja [historicamente] valorizava as mulheres e as via como importantes para a sua vida. No entanto, seu papel na governança continua marginalizado, ainda hoje. Isso difere da ordenação e, como o Vaticano II tem se esforçado cada vez mais para aumentar o papel delas, por exemplo, como chanceleres, canonistas etc. Embora esses avanços sejam positivos, é claro que é preciso trabalhar mais nesse front.

Eu acho que a separação da questão sobre governança e ministério litúrgico é crucial. Olhemos para o testemunho histórico e como ele pode ajudar a responder perguntas sobre se a ordenação de diaconisas exige ou não a ordenação ao presbiterado. Em nenhum momento da história da tradição oriental encontramos evidências da ordenação de mulheres ao sacerdócio. Portanto, a tradição bizantina admitia mulheres ao diaconato e não achou necessário ou convincente admiti-las ao sacerdócio. Também não temos evidências claras de que elas atuavam exatamente da mesma maneira que os diáconos.

Isso não requer uma visão negativa sobre a mulher naquela época: a história do Império Bizantino fornece muitos testemunhos de mulheres poderosas, até mesmo como imperatrizes. A imperatriz Theodora é um bom exemplo de uma mulher muito poderosa que exerceu uma influência importante até sobre a Igreja. Então, acho que precisamos desafiar as estruturas de poder contemporâneas e ver quais possibilidades existem hoje para que as mulheres tenham papéis maiores na Igreja hoje. Eu acho que precisamos desenvolver o entendimento da governança da Igreja e diferenciar maneiras pelas quais as mulheres podem influenciar, moldar e guiar nossas comunidades que não dependam da categoria da ordenação.

Que relevância tem as diaconisas primitivas para os debates em curso sobre o papel das mulheres na Igreja atólica?

Como eu disse antes, precisamos diferenciar os papéis ministeriais litúrgicos dos papéis de governança. Frequentemente, o argumento parece ser o de que a Igreja primitiva sequer pensava nas mulheres, mas temos que estar atentos ao seu contexto, àquilo que as pessoas diziam e faziam em várias épocas, assim como às diferentes perguntas que as pessoas estão se fazendo hoje.

Eu acho muito alarmante que mulheres estejam buscando a ordenação como católicas em seus próprios círculos e se passando por padres católicos; isso é um grande mal para a Igreja e para os nossos fiéis. Toda a conversa precisa ser muito mais nuançada, olhando para toda a Igreja e as necessidades das pessoas em todo o mundo, nas suas próprias situações particulares. Eu acho que o fato de o Papa Francisco ter aberto as discussões aos estudiosos é um passo importante. Francamente, precisamos de mais pesquisas acadêmicas a fim de delinear mais completamente a tradição da Igreja. Estou alarmado porque muitas pessoas não parecem interessadas em pesquisar as várias tradições litúrgicas. Não estou falando apenas dessa questão das diaconisas, mas, em geral, falta-nos uma diversidade de estudos que expliquem o desenvolvimento histórico da tradição litúrgica.

Precisamos de mais teses de doutorado sobre o desenvolvimento mais antigo das nossas tradições, e isso se aplica ao cristianismo oriental e também ocidental. Esse tipo de trabalho é bastante exigente, mas ajuda a elucidar a tradição e a nos libertar de noções simples que fracassem em abordar adequadamente a riqueza das nossas tradições.

A teologia histórica nos diz agora que o ofício ordenado tríplice de diácono-padre-bispo evoluiu apenas gradualmente durante os primeiros séculos do cristianismo, já que os ofícios bíblicos de diácono-presbítero-supervisor não se pareciam inicialmente com o que mais tarde se tornaram. Como teólogo litúrgico e sacramental, o que o senhor acha desafiador sobre a obscuridade dessa história ao tentar dizer com certeza o que as diaconisas faziam e onde o faziam desde os primeiros dias do cristianismo?

Eu acho que, quando olhamos para quem somos, o que somos e o que fazemos, sempre precisamos estar atentos ao modo como nos envolvemos com o nosso contexto histórico. A tradição é vivida e precisamos estar cientes da maneira como a entendemos. Precisamos estar cientes das maneiras pelas quais as tradições foram transmitidas, até mesmo oralmente. Hoje, muitas pessoas querem fatos históricos simples demonstrados por evidências escritas. Mas, embora isso seja importante, precisamos examinar especialmente a nossa história mais antiga em seu contexto mais amplo.

A estranha uniformidade de grande parte da nossa vida litúrgica primitiva nos desafia. Precisamos reconhecer nossos preconceitos e pré-concepções ao estudar o passado e permitir que ele fale em sua inteireza. Dessa maneira, podemos reexaminar a tradição recebida e aceita à luz do seu contexto histórico real. Essa abordagem mais ampla levará a um entendimento mais rico da nossa tradição.

Você pode falar mais sobre isso?

Por exemplo, o povo local de Jerusalém manteve uma tradição oral sobre o local onde Jesus foi sepultado, uma tradição que a Igreja primitiva aceitou por séculos, embora não existisse nenhuma prova concreta. Da mesma forma, não podemos estudar a tradição das diaconisas na história com sem mesma expectativa de historicidade operativa hoje. Além de examinar os documentos, temos que aceitar como a Igreja recebeu e aceitou a tradição, como ela conectou os pontos. Só porque não temos evidências positivas por escrito a favor ou contra uma situação, isso não significa que algo não estava acontecendo. Quando olhamos para as primeiras orações eucarísticas em nossos registros, nem todas elas incluíam as palavras de instituição como “Addai” e “Mari”, mas, eventualmente, todas elas se incluíam nessas palavras. Às vezes, encontramos tudo por escrito, e isso é ótimo. Mas às vezes não o fazemos e precisamos reunir o testemunho como algo recebido e entendido, da melhor maneira possível, como algo aconteceu – às vezes até através de representações artísticas. Portanto, a tradição recebida da Igreja é muito importante como medida.

Se entendermos as “diáconas” como uma referência às mulheres que recebem a mesma ordenação diaconal e cumprem as mesmas funções litúrgicas que os homens. Essa prática seria uma inovação na Igreja Católica hoje?

Essa é uma pergunta difícil que envolve as expectativas das pessoas. Precisamos ver claramente as questões litúrgicas. Precisamos promover as mulheres na Igreja. Se tivéssemos aprendido alguma coisa sobre o ministério pastoral nos últimos 50 anos, a liturgia não é o único aspecto do ministério, e as cinco Igrejas parecem atentas precisamente ao tipo de ministério que Febe fez.

A Igreja não é apenas a liturgia ou a hierarquia, mas sim todo o povo, todo o corpo de Cristo. Quanto mais percebermos hoje que precisamos dar mais atenção aos ministérios que as mulheres já podem exercer, promovendo as pessoas certas pastoral ou administrativamente, mais descobriremos que já temos maneiras de as mulheres fazerem o que Febe fazia.

A maioria dos papéis importantes das mulheres ao longo dos séculos, incluindo a direção espiritual, não incluía a ordenação. No entanto, negligenciamos esses papéis de várias maneiras e precisamos acentuá-los hoje. O nosso desafio mais profundo exatamente agora é encorajar todos os católicos a verem a Igreja não simplesmente como um dispensário sacramental, mas sim como um verdadeiro lugar da unidade do Corpo de Cristo, um local de apoio mútuo.

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