Cardeal Gracias: a Igreja deve abandonar o “preconceito” contra a liderança feminina

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26 Fevereiro 2020

Um dos seis membros do conselho consultivo de cardeais do Papa Francisco reconheceu uma tendência entre os membros da hierarquia masculina da Igreja Católica de não dar às mulheres mais papéis de liderança, dizendo que ele e seus pares devem “abandonar esse preconceito”.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada por National Catholic Reporter, 24-02-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em entrevista ao NCR, o cardeal indiano Oswald Gracias chamou a si mesmo de um “convertido” à causa das mulheres que buscam mais oportunidades de responsabilidade na instituição global.

Ao mencionar as mulheres em todo o mundo, “que estão fazendo tanto” pela Igreja, o cardeal disse que as mulheres “querem um apostolado, querem trabalhar pela evangelização, querem liderar a comunidade paroquial da Igreja”.

“Não envolvemos a nossa mente nisso”, disse Gracias, acrescentando: “Admito que tem havido um preconceito contra o fato de lhes dar uma maior responsabilidade, e devemos abandonar esse preconceito”.

“Espero que possamos examinar cuidadosamente, discutir cuidadosamente como elas podem assumir uma maior responsabilidade”, continuou o cardeal, antes de rapidamente corrigir a sua escolha de palavras.

“Responsabilidade, elas têm”, disse ele. “Mas não há nenhum reconhecimento pela responsabilidade que elas têm. Elas realmente estão fazendo muito. Mas acho que deveria haver um reconhecimento, que é o direito delas”.

Gracias, arcebispo de Mumbai, falou em uma entrevista de meia hora no dia 21 de fevereiro, na Casa Santa Marta do Vaticano. O encontro ocorreu após a reunião do Conselho de Cardeais, de 17 a 19 de fevereiro, que ajuda Francisco principalmente a reorganizar a imensa burocracia vaticana.

O prelado, que também é o presidente da Conferência dos Bispos da Índia, também falou sobre a recente exortação apostólica do papa em resposta ao Sínodo dos Bispos de outubro para a região amazônica.

O cardeal sugeriu que, embora o pontífice não tenha atendido o pedido do Sínodo de permitir padres casados em toda a região de nove nações, a fim de atender às necessidades pastorais, os prelados das áreas afetadas ainda podem pedir ao Vaticano uma acomodação desse tipo com base em casos específico. Francisco, disse Gracias, deixou “aberto” esse caminho.

Mas Gracias falou abertamente sobre o papel das mulheres na Igreja de 1,3 bilhão de membros. Ele disse que começou a mudar de ideia sobre a questão da liderança feminina em fevereiro de 2019, quando participou de uma cúpula global convocada por Francisco para presidentes de Conferências Episcopais sobre o abuso sexual clerical.

O cardeal disse que as mulheres que se dirigiram aos participantes “trouxeram à tona novos aspectos, novas ideias para o conjunto”.

“Honestamente, de todos os oradores do sexo masculino, eu já sabia tudo antes”, disse ele. “Eu já tinha ouvido aquilo antes, já tinha lido antes. O que as mulheres disseram era novo para mim.”

“Agora sou um defensor dos direitos das mulheres na Igreja”, disse Gracias. “Eu simpatizo com o porquê pelo qual as mulheres estão pedindo mais direitos.”

Questionado sobre o status de uma comissão criada por Francisco em 2016 para estudar a história de mulheres que atuaram como diáconas na Igreja, que o pontífice disse ao Sínodo Amazônico que iria reconvocar, o cardeal disse que não tinha detalhes a respeito, mas acreditava que o trabalho da comissão “ainda estava em andamento”.

Gracias disse que sabe, a partir das discussões com o pontífice, que Francisco “está muito interessado em que as mulheres tenham um papel maior na Igreja, na tomada de decisões”.

“Sua mente está aberta”, disse o cardeal sobre a disposição do papa a esse respeito. “Mas há pressões. Ele tem que carregar todo mundo com ele.”

“Há pessoas que não querem mudança alguma”, disse Gracias. “Há pessoas que querem mudanças da noite para o dia. Mas ele tem que carregar todo mundo com ele.”

“O papa fala de sinodalidade, em que levamos todos juntos conosco”, disse o prelado. “E, então, se necessário, vamos mais devagar do que gostaríamos por causa disso.”

Caminho “aberto” para os padres casados

Gracias atua em seu papel na Arquidiocese de Bombaim desde 2006 e foi criado cardeal pelo Papa Bento XVI em 2007. Ele participou de vários Sínodos dos Bispos e foi um dos 185 membros do encontro sobre a Amazônia, realizado no Vaticano entre os dias 6 e 27 de outubro.

O cardeal disse ter ficado “um pouco surpreso” com a exortação de Francisco, divulgada no dia 12 de fevereiro e intitulada “Querida Amazônia”. O prelado apontou para o uso extensivo da poesia pelo papa e a sua decisão de não citar o documento final do Sínodo, mas sim de incentivar as pessoas a lerem o documento na íntegra.

Gracias chamou essa última medida de “muito inteligente”.

“Ele está endossando o documento final, e, portanto, o documento final permanece como um ponto de referência válido”, disse o cardeal.

Questionado sobre a decisão de Francisco de não atender o pedido do Sínodo de permitir padres casados, aprovado por dois terços dos votos da assembleia, Gracias mencionou um dos seus próprios discursos durante o evento.

“Na minha intervenção, eu sugeri que, seguindo o direito canônico atual, existe uma possibilidade”, disse ele, explicando que o status de casado de um possível candidato ao sacerdócio é “um impedimento, ao qual pode ser dada uma dispensa pela Santa Sé”.

O cardeal disse ter sugerido que os bispos da região amazônica, ou grupos de bispos, poderiam pedir que o Vaticano concedesse tais dispensas.

Ao não abordar a questão diretamente na exortação apostólica, Francisco deixou essa possibilidade em aberto, disse Gracias. “Embora ele não tenha abordado isso aqui (...), ao endossar o documento [final], ele deixa isso em aberto.”

Esclarecendo que não discutiu especificamente a questão com Francisco, Gracias acrescentou: “É assim que eu a interpretaria”.

“Eu acho que está em aberto”, continuou o cardeal. “Ele não excluiu nenhuma parte do documento final. Ele não excluiu nenhuma parte dele.”

Cúria não deve ser “supervisora”

Francisco fez da reforma do Vaticano uma das prioridades do seu papado de quase sete anos. Ele criou o Conselho de Cardeais em abril de 2013 para ajudá-lo a conduzir o processo.

O conselho dedicou grande parte do seu trabalho nos anos seguintes à elaboração de uma nova constituição apostólica, que deve representar a primeira reorganização geral do Vaticano desde que o Papa João Paulo II publicou a Pastor Bonus (“O Bom Pastor”) em 1988. Um novo texto está provisoriamente intitulado como Praedicate Evangelium (“Preguem o Evangelho”).

Um rascunho anterior do documento, obtido pelo NCR no ano passado, mostrou uma reorientação significativa da missão dos vários escritórios vaticanos, enfatizando que as autoridades não devem mais se considerar como uma “autoridade superior”, mas sim servidoras do papa e dos bispos do mundo inteiro.

Gracias disse que ele e os outros membros do conselho fizeram dessa reorientação o foco principal dos esforços.

“Um dos focos do nosso trabalho foi o fato de a Cúria estar ao serviço do Santo Padre e dos bispos”, afirmou o cardeal. “Nós deixamos isso claro repetidamente.”

“Escrevemos isso explicitamente, e, nos artigos, você pode ver que essa mentalidade vem à tona”, disse ele. “A ideia anterior era de que se trata de um papel de supervisão dos bispos. Não, não é. Trata-se de ajudar os bispos. Trata-se de ajudar a Igreja universal.”

Nas reuniões mais recentes, disse o cardeal, o conselho incorporou sugestões de bispos que revisaram o documento. Mas ele disse que a maioria das mudanças foi em termos de estilo. “Não houve nenhuma mudança no impulso do texto”, disse o prelado.

Gracias disse acreditar que o conselho deve poder entregar formalmente a Francisco o documento finalizado até o fim de sua próxima reunião, prevista para abril.

Falando mais detalhadamente sobre a reunião de fevereiro de 2019 sobre o abuso sexual clerical, realizada quase exatamente há um ano, Gracias disse que a cúpula “teve o efeito de aumentar a consciência sobre o problema”.

“Isso fez com que todos os bispos se sentissem colegialmente responsáveis”, disse ele. “Se algo está afetando a Igreja, todos nós devemos trabalhar juntos, todos nós ajudando uns aos outros, procurando consistentemente novos sistemas.”

O cardeal elogiou os vários esforços de Francisco desde a conclusão da cúpula, incluindo o mandato de que todos os padres e membros de ordens religiosas de todo o mundo denunciem qualquer suspeita de abuso e a abolição do uso do “sigilo pontifício” em casos de abuso.

Gracias disse que Francisco fez mais em um ano do que ele esperava. “Realmente não consigo vê-lo fazendo muito mais”, disse o cardeal. “Eu sinto que ele se esforçou, dando essa prioridade sobre outras coisas.”

Questionado sobre o status de um esperado relatório vaticano sobre a carreira do famigerado ex-cardeal Theodore McCarrick, que deve ser divulgado pela Secretaria de Estado em breve, Gracias disse que não tinha nenhuma informação específica sobre o assunto.

“Não sei muito sobre isso”, disse o cardeal. “Minha experiência é de que, quanto mais abertos formos, melhor é para todos os envolvidos.”

 

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