Greve dos petroleiros, um alento numa conjuntura terrível para os trabalhadores

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23 Fevereiro 2020

A greve dos petroleiros é um alento, um respiro, numa conjuntura terrível para os trabalhadores brasileiros. Os petroleiros para além de mostrarem que é possível resistir realizaram um gesto de grandeza, o da solidariedade com os colegas ameaçados pela demissão. Algo que os metalúrgicos com o fechamento da fábrica Ford em São Bernardo não conseguiram realizar, escreve Cesar Sanson, professor de sociologia do trabalho, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN.

Eis o artigo.

A greve dos petroleiros é o grande acontecimento dos últimos anos na conjuntura de luta dos trabalhadores brasileiros. Assistimos faz tempo a uma ofensiva sem tréguas do capital para cima do trabalho. Os retrocessos para os trabalhadores se empilham um em cima do outro: aprovação da terceirização sem restrições, Reforma Trabalhista, Reforma Previdenciária.

As más notícias continuam. Desemprego persistente, informalidade crescente, tempo infindável para se conseguir um emprego. No meio disso tudo, os sindicatos foram duramente atingidos, perderam financiamento, estrutura e sindicalizados.

Um furacão varreu a sociedade do trabalho brasileira e de “repente” nos demos conta que o que antes era visto como anormal se tornou normal, ou seja, a realidade de baixos salários, informalização, ausência de contratos de trabalho, pejotização e sindicatos sem força para negociar. É aquilo que se passou a denominar de uberização do trabalho, onde a regra é a ausência de regras.

No meio disso tudo vimos impassíveis ao fechamento da fábrica da Ford em São Bernardo, um ícone na história automotiva e de registros memoráveis da luta operária brasileira. O fechamento da Ford dá um relevo ainda maior à greve dos petroleiros. Os metalúrgicos não conseguiram construir uma reação como a dos petroleiros.

Note-se que leitmotiv da greve dos petroleiros tem como ponto de partida a solidariedade com os trabalhadores da antiga Ultrafértil, hoje fábrica de Fertilizantes Nitrogenados do Paraná (Fafen-PR), unidade da Petrobrás, ameaçados por uma demissão em massa.

Os petroleiros não aceitaram passivamente esse abuso contra os seus companheiros de categoria e construíram um grandioso movimento de solidariedade, algo que os metalúrgicos não conseguiram em relação aos colegas da Ford. Independente do desfecho do que ocorrerá com a fábrica e os trabalhadores da unidade da Petrobrás em Araucária (PR) não é desprezível esse gesto. Ainda mais em tempos de crescente individualismo e da hegemonia do discurso do ‘salve-se quem puder’.

A greve dos petroleiros, porém, é também importante porque acontece numa conjuntura de extrema adversidade para os trabalhadores. Num período em que vemos rarear as lutas operárias, particularmente as greves. As poucas que acontecem são para frear perdas de direitos já conquistados em convenções coletivas.

Não é exagero afirmar que essa greve faz lembrar a histórica greve dos mesmos petroleiros nos idos dos anos 1995, ou seja, há quase trinta anos atrás. Uma greve que à época se tornou o maior movimento de resistência da classe trabalhadora à política neoliberal capitaneada por Fernando Henrique Cardoso e que para muitos, apesar da duríssima repressão – tanques invadiram as refinarias - e demissões, fez com que o governo recuasse em seu projeto de possível privatização da empresa.

O que há de comum com os meados dos anos 90 é a conjuntura de emparedamento dos sindicatos. Na época o plano real tinha grande apoio popular mesmo incidindo em perdas salariais. O governo pedia a todos um sacrifício em nome da estabilidade econômica e os petroleiros ousaram questionar as perdas salariais. Agora, novamente, em que pese o ataque sem precedentes aos sindicatos, os petroleiros se moveram numa conjuntura dificílima, na qual lutar praticamente é tipificado como crime.

O que não mudou é a forma como o movimento grevista é tratado pelas instâncias jurídicas. A greve à época, como essa, foi declarada ilegal. Um personagem se entrecruza com as duas greves: Ives Gandra Martins Filho. Em 1995 como procurador geral do Ministério Público do Trabalho, pediu a abusividade da greve. Agora, passado 25 anos, novamente Ives Gandra em decisão monocrática declarou ilegal a greve e sugeriu fortes sanções aos sindicatos dos petroleiros. Ives Gandra, entusiasta da Reforma Trabalhista, assim como o pai, é ativo membro numerário do Opus Dei e defensor de teses conservadoras. No Tribunal Superior do Trabalho – TST tem sido um grande aliado do governo Bolsonaro em todas as suas pautas.

Também o STF se alinhou a Ives Gandra através do ministro Dias Toffoli que considerou que greve “tem o potencial de impactar negativamente a economia brasileira” e poderia “desestabilizar a posição do país, tanto no cenário econômico nacional quanto internacional”. O mesmo discurso de 1995.

É pelo conjunto dos fatos descritos anteriormente que a greve dos petroleiros é um alento, um respiro, para o conjunto da luta dos trabalhadores brasileiros. Como disse José Álvaro de Lima Cardoso, “eles lutam por todos nós”. Os petroleiros mostram que é possível resistir contra a destruição de tudo e o que é mais bonito, assumiram o risco de perder o emprego pela solidariedade com o outro.

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