Hardt e Negri: ‘Assembly’ ou como mapear os últimos ciclos de lutas (I)

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11 Fevereiro 2020

Hardt e Negri tomam como ponto de partida a análise que é exposta por Marx nos Grundrisse sobre a mecanização da produção, alertando sobre o perigo de cair em abordagens ingênuas a respeito da tecnologia. Em outras palavras, a libertação do proletariado não depende tanto dos avanços tecnológicos, como da capacidade de apropriação que demonstre sobre esses avanços e suas potencialidades produtivas”, escrevem Miquel Martínez e Josep Artés, professores de filosofia, em artigo publicado por El Salto, 07-02-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Agora que se passaram duas décadas, desde a publicação de Império (2000), Michael Hardt e Antonio Negri completam com sua última obra, Assembly (2017), a análise que durante esses últimos anos realizaram sobre as resistências e os contrapoderes capazes de colocar em questão as tentativas do capitalismo em monopolizar as relações políticas, sociais e econômicas.

O percurso dos autores começa, assim, com a entrada do novo milênio, não apenas analisando, como também acompanhando o ciclo de lutas que surgiu em torno do movimento por uma globalização alternativa, no marco do capitalismo em fase avançada e em plena ofensiva e tentativa de expansão do modelo neoliberal.

Alguns anos depois, e dada a necessidade de colocar o foco sobre as alternativas que podem ser traçadas diante de um poder que se pretende imperial, os autores saudarão na obra Multidão (2004) a formação de uma nova subjetividade coletiva atravessada pela heterogeneidade e com um potencial criativo capaz de descentralizar as formas de atribuição de valor próprias da extração capitalista.

Do mesmo modo, seguindo essa linha de destruir as relações próprias do capitalismo para constituir uma nova ordem de relações em todos os níveis, em Commonwealth (2009) os autores trabalharão sobre o conceito de comum como espaço ontológico próprio da multidão e no qual esta subjetividade, essa inteligência coletiva, é capaz de dar lugar a novas formas de riqueza encarnadas no âmbito da produção material e, em geral, na criação de formas de vida.

Dessa forma, e após elaborar em Declaração (2012) uma crônica urgente sobre a onda de revoltas que emerge em 2011, em diferentes partes do mundo – das primaveras árabes ao 15M, passando por Occupy Wall Street -, em Assembly os autores chamam a atenção para a necessidade de analisar os problemas de organização que surgem em torno dos movimentos sociais e políticos, assim como encontrar formas de articulação para as novas relações que, a cada novo ciclo de lutas, desde o início do século XX - e mesmo antes, se orientarmos o ponto de referência para acontecimentos como o levante zapatista -, apareceram como alternativa à ordem imposta, em escala global, pelo sistema capitalista.

Nesse sentido, com Assembly entra em ação a produção conceitual apresentada por Hardt e Negri ao longo da série de textos precedentes, fechando assim uma linha de análise que nos permite cruzar a linha vermelha - às vezes, latente e subterrânea - das revoltas que colocaram em dúvida a estabilidade sistêmica neoliberal, nas últimas décadas.

Deste modo, colocando o foco nas experiências concretas dos movimentos sociais, bem como nas novas formas de atividade orientadas à produção de valor, Assembly sistematiza um conjunto de respostas à principal questão que atravessa tanto a obra conjunta dos autores, como a importante produção anterior de Negri, e que é possível analisar através de dois eixos entrelaçados: o problema da organização das lutas, se olhamos para o interior dos movimentos políticos e sociais; e o problema da ‘instituição’, se olhamos para o exterior, para a conformação das relações no campo social.

Neste texto, abordamos o marco no qual os autores desenvolvem sua obra, com a finalidade de explicitar a partir de que posição Hardt e Negri buscam pensar o presente. Para uma segunda parte, reservamos a análise dos dois eixos que acabamos de mencionar: o relativo às linhas de organização, com as quais dotar as lutas com maior força, e o relativo à criação institucional sob premissas dissimétricas às do poder capitalista.

Novos ciclos de lutas, novos instrumentos para a análise

Os elementos que acabamos de apontar surgem como resultado de um processo de renovação do corpo teórico e dos mecanismos de intervenção do marxismo. Para esta parte, Assembly se expressa de maneira explícita - como pode ser visto nas partes intituladas “debates marxistas” - e, de maneira mais ou menos clara, nos outros capítulos.

Os autores incidem, com este trabalho de atualização da análise e das práticas marxistas, no que constitui uma constante em sua produção. Além disso, na obra de Negri, com títulos como Os livros da autonomia operária (1970-1978) e Marx além de Marx (1979) – assim como na trajetória militante do autor, cuja experiência pode ser seguida em grupos como Potere operaio ou Autonomia – também está presente a necessidade de recuperar, a partir de uma leitura aberta e crítica, os principais elementos com os quais o marxismo analisou as relações de produção e de poder dentro do sistema capitalista.

Por esse lado, embora nas últimas décadas as condições em que se dão os processos de produção mudaram, ao mesmo tempo em que se deram os meios necessários para a criação de riqueza, a exploração permanece presente como um sinal inescapável da expropriação que o poder capitalista mantém sobre a sociedade em seu conjunto. Como os autores apontam claramente em Assembly, na atualidade, esse processo de privatização dos benefícios do capitalismo tem um caráter abertamente parasitário, na medida em que as atividades que são realizadas já não necessitam, em muitas ocasiões, nem da organização, nem dos meios que o capitalista dispunha antes.

O poder de comando global agora é exercido sobre processos de produção de tipo intelectual, afetivo - em um sentido amplo -, com capacidade para funcionar de forma cooperativa e autônoma. Hardt e Negri se referem a isso quando se lembram das mudanças que conduziram, a partir do ano 1968, à constituição de uma nova força de trabalho cuja produção só pode ser entendida em termos sociais e a partir da cooperação coletiva, e que surge como resultado do declínio progressivo do ‘operário massa’, próprio da produção fordista, e do ‘operário especializado’, próprio da grande indústria.

Da mesma forma, o avanço das novas tecnologias e sua aplicação aos processos produtivos - cujo exemplo mais proeminente é a robotização e toyotização de atividades – provou uma mudança substancial nas lutas: se as possibilidade de êxito por parte do movimento operário estavam, inicialmente, na capacidade de se fazer com os meios de produção, o tipo de trabalho que se desenvolve na atualidade implica que, em muitas ocasiões, a força de trabalho disponha dos meios necessários, não só para realizar sua atividade, mas também para fazê-la sem a necessidade de qualquer intermediação.

Hardt e Negri tomam como ponto de partida a análise que é exposta por Marx nos Grundrisse sobre a mecanização da produção, alertando sobre o perigo de cair em abordagens ingênuas a respeito da tecnologia. Em outras palavras, a libertação do proletariado não depende tanto dos avanços tecnológicos, como da capacidade de apropriação que demonstre sobre esses avanços e suas potencialidades produtivas.

De fato, as possibilidades de sobrevivência por parte do sistema estão em boa medida ligadas a sua capacidade de conformar, de maneira estrutural, um modelo de subjetividade compatível com as exigências do governo neoliberal. Seguindo os passos da análise de Foucault a respeito do poder, Hardt e Negri partem de uma concepção de caráter biopolítica. O poder paira sobre a vida em seu conjunto, na medida em que não trata apenas de incidir em sentido extensivo, ocupando a totalidade do território, mas também em sentido intensivo, ou seja, mediante a conformação do meio e das subjetividades que o habitarão.

O poder capitalista, embora precise manter centros de comando e instaurar certas hierarquias, se distribui de forma imanente. Com isso, o sistema não apenas procura determinar as relações de produção, o que o marxismo clássico entende pelo âmbito da infraestrutura, como também, e de forma acompanhada, as relações de reprodução, o que na perspectiva marxista clássica se insere no âmbito da superestrutura.

Nesse contexto, a lei do valor não deve mais capturar apenas as relações que se dão entre os muros da fábrica e, portanto, em espaços de tempo delimitados e sobre unidades simples de produção, de caráter objetivo e suscetíveis, portanto, de ser contabilizadas em termos de valor de troca. A pegada da exploração sobre a atividade da força de trabalho, tal e como permanecia abrigada na mercadoria, resulta, desse modo, cada vez mais tênue para a análise.

Dessa maneira, uma análise sobre a lei do valor que procure responder às condições do contexto atual, deve capturar o resultado da extração de benefícios que o capitalismo realiza em grande escala, sobre o conjunto das relações que constituem o campo social, sem limites no tempo e em um espaço aberto para a ação. Para dizer com o “Post-scriptum sobre as sociedades de controle” de Deleuze, que os autores citam em mais de uma ocasião, a análise sobre o valor produzido e sua alienação deve ocorrer em um contexto no qual a velha fábrica se torne por fim alma empresarial, capaz de se espalhar pela sociedade em seu conjunto. Isto é, em definitivo, o que Hardt e Negri definem como a ‘subsunção - por absorção, colonização, captura – real das formas de vida pelo capital’.

Novos ciclos de lutas, novos objetivos

Em todo caso, os autores rejeitam a determinação teleológica, finalista, que a dialética clássica reserva para as mudanças na sociedade. Em termos eminentemente materialistas, para Hardt e Negri somente as relações que ocorrem no campo social, assim como a capacidade de orientação e organização das rupturas e os acontecimentos que se libertam com cada novo ciclo de lutas, podem decidir o alcance dos processos de mudança

Da mesma forma, levando em conta o contexto biopolítico e a necessidade do sistema capitalista de eliminar qualquer espaço de exterioridade, os autores rejeitam que o confronto direto com o poder de comando seja o único mecanismo das transformações sociais. Isso não implica abandonar o antagonismo como elemento acerca do qual explicar as relações de força no seio da sociedade. Do que se trata é de entender tal antagonismo em termos positivos, de criação de alternativas, e não apenas da necessidade de combater de maneira frontal os embates do poder.

Nesse sentido, embora em muitas ocasiões seja necessário criar diques de contenção frente à violência gerada a partir dos poderes estabelecidos, ou que segregam os grupos de extrema direita, a médio e longo prazo, trata-se de abrir espaços que escapem da influência do sistema; espaços que, em todo caso, não devem ser configurados a partir da pureza das identidades políticas, como redutos para uma minoria militante, mas como territórios amplos para articular as diferentes singularidades que se enquadram nas exigências do sistema e que, ao mesmo tempo, podem viver sob parâmetros de relação de produção que deixem para trás a exploração neoliberal.

É dessa maneira que cabe entender noções como a de êxodo, neste caso pelo lado da construção de subjetividades subversivas e, portanto, a partir da possibilidade de conjugar as resistências com a criação de alternativas. Mais precisamente, trata-se de fazer com que as resistências constituam em si mesmas, ao menos de maneira germinal, um indício sobre as relações que podem ser articuladas para além do raio de ação do modelo neoliberal.

Como é possível ler em diferentes partes de sua obra, os autores recordam a afirmação de George Jackson, um membro do partido Black Panther, que exortava a não esquecer de pegar uma arma antes de empreender cada nova fuga. Esse elemento supõe, de fato, uma das linhas que Hardt e Negri não deixaram de explorar ao longo de sua produção: a utilização da força em sentido democrático e, assim, como forma de combater os efeitos negativos que o modelo neoliberal introduz, de maneira estrutural, sobre a população em seu conjunto.

Mas, sobretudo, dessa forma, é possível entender a importância que os autores atribuem aos acampamentos que surgiram em torno dos protestos de 2011 e que serviram para colocar em dúvida as bases do sujeito que o neoliberalismo construiu nos últimos tempos, contando com os materiais que os meios de comunicação de massas dispõem, os instrumentos de controle avançado, a dívida como mecanismo de alienação da riqueza e o modelo representativo no âmbito da decisão política.

Hardt e Negri recuperam, pois, em sua última obra, um dos aspectos principais de seu pensamento: a prioridade ontológica das lutas e a produção dos movimentos sociais e políticos sobre as tentativas de controle e extração de lucros que colocam em jogo o poder capitalista. Isso coincide com a afirmação radical da imanência que os autores reivindicam no conjunto de sua produção. Seguindo, neste caso, os passos de Spinoza - e a leitura que Negri realiza sobre a obra do autor da Ética, em “A anomalia selvagem’ -, a constituição ontológica do âmbito do social depende de certas composições de determinados corpos - atravesadas por um conjunto de discursos - entre os quais circulam uma série de afetos de diferentes tipos.

Em suma, a ação da multidão tem a capacidade de dar lugar à vida em sua totalidade, do mesmo modo que o capitalismo, na medida em que incide sobre a vida extraindo e privatizando o poder criativo da multidão, se define, em última instância, como um poder de morte. A própria distinção do marxismo entre o trabalho vivo - pelo qual o proletariado cria um conjunto de relações capazes de transformar a realidade – e o trabalho morto - pelo qual o capitalista extrai a mais-valia - ressoa assim na análise realizada pelos autores. Por fim, conforme lembra Negri em uma das entrevistas que concedeu por ocasião da publicação de Assembly, “não podemos mais continuar nos movendo sobre a base de uma crítica que não seja colorida, que não esteja carregada com os sabores da vida”.

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