“As soluções virão da inteligência, não da moral”, avalia Gilles Lipovetsky

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07 Fevereiro 2020

Gilles Lipovetsky (Millou, França, 1944), filósofo, sociólogo, professor da Universidade de Grenoble e membro do Conselho de Análises da Sociedade, está durante toda essa semana em Madri, convidado pelo Instituto de Empresa, Universidade que há alguns meses está integrando as Humanidades no campo dos negócios.

A reportagem é de Jacinta Cremades, publicada por El Cultural, 06-02-2020. A tradução é do Cepat.

O filósofo convidado pelo Instituto de Empresa é uma referência no mundo cultural, desde que publicou, em 1983, seu famoso ensaio “A Era do Vazio”, no qual questionava a mudança de rumo da nossa sociedade atual. Segundo Lipovetsky, uma das terríveis consequências desse momento que chama de hipermodernidade é que todos nós, manipulados pela sociedade de consumo, globalizada e capitalista, somos vítimas do individualismo. Onde encontrar marcas de identidade quando a cultura se desmorona, desaparece diante de nossa inatividade, como um desenho na areia?

Lipovetsky, que sempre argumentou que o pós-modernismo não existiu, por meio de uma aula magistral intitulada “O reino do individualismo hipermoderno”, que se conecta com vários de seus mais famosos títulos, como “Os Tempos Hipermodernos” (2004), “A felicidade paradoxal” (2007), “A tela global. Mídias Culturais e Cinema na Era Hipermoderna” (2009), “A cultura-mundo” (2011) e “A globalização ocidental: controvérsia sobre a cultura planetária” (2012), centrou sua fala no individualismo. “O ser humano se vê arrastado por uma sociedade que perdeu seus valores diante de uma prepotência do indivíduo que chega ao extremo do narcisismo”, afirma Lipovetsky, que chama isso de “a segunda revolução individualista”.

Em seus últimos ensaios, como “A estetização do mundo” (2015) e “Da leveza: Rumo a uma civilização sem peso” (2016), Lipovetsky põe em questão o conceito de pós-modernidade convertido em hipermodernidade que se apresenta sob o signo do excesso, tanto na economia como na cultura, na arte e no esporte, um problema universal que mudou a vida das pessoas.

Ao longo de sua conferência, o professor se baseou em seis pontos para demonstrar essa transformação, iniciando todos eles a partir de uma imagem mitológica. O primeiro, o culto ao hedonismo, que não é outro senão o desejo de sentir prazer através da sociedade de consumo que transformou nossa forma de viver, nossos valores e nossa cultura. “A sociedade cristã concebia o prazer como pecado. Hoje em dia, qualquer coisa nos convida a desfrutar desta vida, prevalecendo uma cultura epicurista”.

Lipovetsky articulou seu segundo postulado com o culto ao corpo, que se manifesta tanto através da comida como do esporte, e na preocupação com a saúde que nos leva a nos anteciparmos às doenças. Neste último aspecto, o filósofo vê uma clara dominação dos esportes individuais, que não buscam nem a competição, nem o sentido de equipe, mas as sensações. Proliferam os spas, as massagens e a cirurgia estética. “Esse neoindividualismo é uma nova forma de narcisismo, já que o próprio corpo se torna o objeto mais precioso”. Em tudo isso, Lipovetsky vê um paradoxo, uma vez que “nossas normas se opõem. Podemos desfrutar, mas ao mesmo tempo somos bombardeados por avisos de saúde. Não coma carne, faça esportes, etc. Assim, o indivíduo fica ansioso”.

O que o leva ao terceiro ponto de sua palestra, o culto ao psicológico, que considera “uma supervalorização do pensamento individual. A educação das crianças, por exemplo, cultiva a expressão quando antes lhes era pedido para se calar. Isso vai contra uma educação baseada em princípios, e os pais agora têm novos medos, novas ansiedades, ao impedir ou educar de forma rigorosa seus filhos, com medo de que parem de amá-los”, explica Lipovetsky. “O indivíduo deseja se expressar e ser ouvido. Antes havia a religião para responder às perguntas, mas agora a busca de significado leva a humanidade a se refugiar nas terapias alternativas e psicológicas que se proliferam”, afirma.

O quarto culto é o da conexão, argumenta o filósofo, que alerta para o estranho paradoxo resultante do fato de que na sociedade de hoje “o indivíduo precisa de aprovação. Por um lado, somos uma geração que cultiva a autonomia, mas, ao contrário, não podemos viver sem o olhar do outro. Quanto mais progride o individualismo, menos nos suportamos sós. Isso acarreta, explica, “o fracasso das grandes ideologias políticas, muitas delas desenvolvidas durante os séculos XIX e XX. As pessoas se encontram, hoje em dia, sem confiança em seus líderes, sem acreditar em suas promessas”.

Aproximando-se do final de sua conferência, Lipovetsky explanou o culto à autonomia individual e, para isso, remonta ao século XVIII, que viu nascer e prosperar ideias como liberdade e igualdade, embora sem chegar realmente a colocá-las em prática. Segundo o escritor, é nesse momento que nasce o individualismo atual. “O estabelecimento desses princípios de igualdade e liberdade foram únicos em toda a história da Humanidade e despertou em nós esse desejo de ser os atores de nossas vidas”, afirmou. No entanto, Lipovetsky criticou aqueles que lamentam que o passado tenha sido melhor, porque “não sou contra a revolução tecnológica e as transformações do indivíduo, muito pelo contrário”.

Para concluir, o filósofo também se referiu ao problema da mudança climática e reconheceu que tudo indica que, em vinte anos, seremos tantos seres humanos na Terra que teremos que inventar novas formas de nos alimentar. Diante deste grave problema de sustentabilidade, Lipovetsky apela à nossa inteligência, pois “embora tentemos, é pouco provável que o ser humano atue de forma moral. Acredito na inteligência humana e em encontrar novas formas de lidar com as paixões. Inventar outras paixões, como dizia Espinosa? Talvez. Somente a inteligência humana trará as soluções. Não a moral”.

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