A perfeição da vida cristã? O batismo, não o sacerdócio

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31 Janeiro 2020

Nesta entrevista, Anne-Marie Pelletier, teóloga e biblista francesa, professora do Collège des Bernardins e vencedora do Prêmio Ratzinger 2014, avalia a presença e a participação das mulheres na igreja católica. Apesar de sentir "cansaço" na disputa por um espaço feminino na igreja, ela não perde a esperança: "Nós não ignoramos os progressos. Em um mundo mergulhado em pessimismo, nós cristãos devemos resistir e ter esperança. É a fé que nos chama a resistir com confiança", diz a teóloga. 

A entrevista é de Philippe Clanché, publicada por Témoignage chrétien, 14-01-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista. 

Você fala de "misoginia encistada", de "violência larval", de "injustiças". Você sente raiva ao ver que espaço está reservado para as mulheres na Igreja Católica?

Não, eu sinto cansaço. Durante muito tempo, em meados do século XX, eu acreditava que o magistério finalmente tivesse percebido, em um sentido positivo, que as mulheres existiam! Uma palavra de estima, nunca ouvida antes, começou a ressoar. A mensagem para as mulheres de Paulo VI, no final do Concílio, foi um discurso vibrante e sincero. Eu senti alegria. O drama é que, apesar daquele discurso, a prática mudou muito pouco. Disso surgiu a necessidade de fazer um balanço da situação, identificar os mal-entendidos, diagnosticar o mal.

Por que você defende uma visão feminina em vez de feminista?

Temos uma dívida em relação aos feminismos, que muitas vezes na Igreja são usados como bicho-papão. Isso não impede que eu me sinta melhor em uma visão "feminina", mais irênica, de qualquer forma desprovida de ingenuidade. Prefiro outros caminhos do que a guerra entre os sexos. É a relação entre homens e mulheres que deve ser reparada. Por exemplo, eu aprecio que uma leitura feminina dos textos também seja praticada por homens sensíveis às preocupações das mulheres. É nesses olhares cruzados que a compreensão do texto realmente cresce.

Em que sentido a questão das mulheres diz respeito à vida de toda a Igreja?

A vida da sociedade prova que, quando os direitos das mulheres são respeitados e seus talentos valorizados, toda a comunidade é transformada e vivificada. O mesmo acontece na Igreja Católica. Assim, colocar hoje o problema do sacerdócio ministerial é equivalente a trazer toda a Igreja de volta ao seu centro de gravidade. Limitamo-nos a dizer que esse sacerdócio era reservado aos homens. Sem perguntar o que essa situação significava para as mulheres. E, no entanto, das duas uma. Se o presbiterado é um superlativo da identidade cristã, isso pressupõe que as mulheres são destinadas a uma subvocação. Caso contrário, deve-se admitir que o batismo é a plenitude dessa identidade. Segue-se, pela lógica, que o presbiterado está a serviço da vocação batismal compartilhada por todos. Nesse sentido, um padre é ordenado por mim! Isso inverte um pouco coisas em uma instituição onde a hegemonia do poder masculino aparece em plena luz de maneira brutal com a revelação dos escândalos que conhecemos.

E o sacerdócio feminino?

Pensar nisso como uma solução, na minha opinião, faz parte de uma atitude clerical. Seria ratificar a ideia de um sacerdócio ministerial como uma promoção, uma passagem para uma classe superior. E não é! Hoje, as mulheres estão no centro da vida das comunidades. Devemos tomar nota disso, ousar enumerar todos os ministérios que elas assumem e dar-lhes um reconhecimento institucional. Sua palavra deve circular, inclusive nos seminários, onde normalmente há uma preparação para servir comunidades compostas por homens e por mulheres. Por que não propor um curso de eclesiologia em duas vozes, associando padre e laico? Quanto à ordenação diaconal, esperemos que o passado não seja simplesmente a norma do presente. Fidelidade à tradição é também inovar, a partir da mesma confissão de fé.

Por que as mulheres por muito tempo se dedicam menos aos estudos de teologia?

Hoje, se dedicam cada vez mais. E é uma novidade, já que a teologia tem sido até agora uma questão de homens. Dito isto, é verdade que as mulheres são menos inclinadas que os homens para as grandes sínteses teológicas que tentam falar de Deus de uma maneira desprovida de dúvidas. Defendem com mais vontade um Deus que vai além de nossas palavras. Um conhecimento de claros-escuros combina mais com elas. Para dar um exemplo contemporâneo, a poetiza Marie Noël expressa bem essa atitude. Isso significa que o acesso das mulheres ao trabalho teológico deveria transformar um pouco a sua prática. A questão feminina se liga à do laicato. Sim, faz parte dela. As mulheres são tanto laicas como ... mulheres. Handicap duplo! Tanto mais que devemos aprofundar urgentemente uma teologia do laicato que não se limite a pensar que aos laicos caiba apenas o âmbito temporal. É preciso se pôr ao trabalho. E comece a ensinar melhor a plenitude da vida batismal. O Papa Francisco tem essa preocupação eclesiológica. Por exemplo, ele lembrava recentemente, em Gaudete et exultate, que a santidade diz respeito a todos, é uma vocação universal. Parece que isso não é tão pregado ou escutado em nossas comunidades.

O que você acha do lugar reservado para a figura da Virgem Maria?

Eu respeito a devoção mariana, mesmo que não seja minha forma espontânea de oração. Mas fico pouco à vontade ao ver o quanto a figura de Maria foi reinterpretada, sobrecarregada, além de sua identidade bíblica. A Virgem Maria é, antes de tudo, a mãe de Jesus, filha de Israel e mulher entre outras mulheres. É um exemplo do que é vivenciado por muitas mulheres. É ela quem mantém uma resistência fiel durante os trinta anos de vida oculta e até a cruz. É bom respeitar a sobriedade do Evangelho. O Evangelho diz que as mulheres não foram chamadas por Jesus Sim, mas quando se apresentaram a ele, ele as acolheu e elas fizeram parte de seus seguidores até a Paixão. É verdade que elas não aparecem entre os doze apóstolos, mas foram claramente destinatárias de sua palavra. E são elas que recebem o primeiro anúncio da Ressurreição e são encarregadas desse anúncio. Durante séculos, foi esquecido que Maria Madalena era "apóstola dos apóstolos". Isso foi substituído por uma imagem inventada da qual somente hoje começamos a nos afastar. Outras mulheres também saem das sombras em que uma leitura masculina as havia relegado, como a viúva do templo (Mc 12, 41-44), ou a mulher que derramou o bálsamo na cabeça de Jesus antes da Paixão (Mt 26, 6 -7)

O Papa Francisco pode fazer evoluir a Igreja nesse âmbito?

Ele está claramente atento à questão das mulheres. Mas há ventos contrários! Estamos prosseguindo, mas também sofremos bloqueios. O recente sínodo sobre a Amazônia comprova isso: as religiosas convidadas puderam falar e dar a conhecer a condição das mulheres. Mas no momento da votação, elas se viram fora do jogo. Isso realmente deixa com raiva, esperando que o problema seja resolvido da próxima vez.

Você está otimista?

Quero permanecer confiante, apesar de tudo. Através de várias contradições e retrocessos, parece-me que um movimento irresistível foi iniciado. Mas esse é o ponto. A credibilidade da Igreja está em discussão. Ainda precisamos fazer muito progresso para tirar as mulheres do papel de humildes trabalhadoras manuais. Não é dado como certo que seja reconhecida a elas uma palavra de autoridade, nem de parte de muitos padres, nem de parte de alguns leigos. Mas digo a mim mesma que, trinta anos atrás, não me pediriam para escrever o texto da Via Crucis do Coliseu, usado como oração pelo Papa na Sexta-feira Santa [em 2017]. Posso dizer o mesmo para as jornadas de retiro que coordeno em comunidades religiosas, masculinas ou femininas. Nós não ignoramos os progressos. Em um mundo mergulhado em pessimismo, nós cristãos devemos resistir e ter esperança. É a fé que nos chama a resistir com confiança.

 

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