Desvio teológico: a alienação de Bento em relação a Ratzinger. Artigo de Massimo Faggioli

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25 Janeiro 2020

Ratzinger foi um dos teólogos mais importantes do Vaticano II. Isso torna ainda mais perturbador o seu repúdio ao Vaticano II. É triste ver o bispo emérito de Roma se afastar do seu próprio legado conciliar.”

O comentário é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos EUA, em artigo publicado em Commonweal, 23-01-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A publicação de “Do fundo de nossos corações”, o livro do cardeal Robert Sarah sobre o celibato clerical em “coautoria” com o Papa Bento XVI, ilustra mais uma vez o problema da instituição do papado emérito do modo como ela está funcionando atualmente. Muito já foi dito sobre esse aspecto da última polêmica, mas menos sobre o que a contribuição de Bento ao livro significa em termos do seu contínuo pensamento revisionista sobre o Vaticano II, no qual ele desempenhou um papel significativo como perito teológico.

O teólogo italiano Andrea Grillo observou astutamente que “Bento é um dos pais do Vaticano II, mas cheio de remorso”. De fato, a defesa do celibato clerical levantada em “Do fundo de nossos corações” está construída sobre uma visão das Escrituras, da liturgia e da Igreja que não faz nenhuma referência em absoluto aos documentos do Vaticano II.

É claro que, neste momento, é difícil saber até que ponto a mão do “papa emérito” esteve diretamente envolvida na escrita daquilo que apareceu com o seu nome no ano passado (incluindo as suas reflexões sobre a gênese da crise dos abusos em abril passado). No entanto, isso se encaixa dentro de um padrão de desvio teológico que remonta há muito mais longe do que o papado de Francisco. Alguns veem sinais do distanciamento de Ratzinger em relação ao Concílio ainda em agosto de 1965, enquanto o Vaticano II ainda estava em andamento, e a constituição pastoral Gaudium et spes estava ganhando forma. Outros datam isso ao movimento de protesto estudantil na Alemanha em 1968 e 1969, quando ele lecionava em Tübingen, antes de se mudar para a mais tranquila Universidade de Regensburg, na Baviera. O sínodo nacional alemão de 1972-1975 parece ter contribuído para a sua desilusão.

Depois, veio o seu mandato de 24 anos como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé sob João Paulo II, durante o qual ele interveio repetidamente para recuperar o controle ou mesmo reverter alguns dos desenvolvimentos teológicos oferecidos pelo Vaticano II (especialmente sobre a liturgia). E a relação do seu próprio pontificado com o Vaticano II pode ser enquadrado pelo seu discurso de dezembro de 2005 sobre a “hermenêutica da continuidade e da reforma” e o seu discurso de fevereiro de 2013 ao clero de Roma, no qual ele confessou suas decepções com o Concílio. No meio disso, ocorreu um dos pronunciamentos mais cheio de consequências sobre a política doutrinal do Vaticano II: o motu proprio Summorum pontificum, de julho de 2007, que liberalizou o uso do rito pré-Vaticano II.

Também houve os pronunciamentos públicos que pareciam alinhados com as suas tentativas de reverter a trajetória do Vaticano II. Estão incluídos aí o discurso de Regensburg em setembro de 2006, no qual ele citou um imperador bizantino do século XIV que igualava o Islã à violência, e a reintegração de quatro bispos lefebvrianos excomungados, um dos quais, Richard Williamson, tinha um histórico de declarações antissemitas.

As restrições institucionais do papado limitaram, até alguma medida, certos aspectos práticos do desvio de Bento XVI em relação aos ensinamentos de João Paulo II sobre o ecumenismo e o diálogo inter-religioso (por exemplo, em 2011, Bento XVI, apesar do seu profundo ceticismo, foi a Assis pelos 25 anos do aniversário do encontro inter-religioso pela paz em 1986). Mas, como emérito, essas restrições institucionais não se aplicam mais.

A comitiva com a qual Ratzinger se cercou adotou o revisionismo do Vaticano II, e suas declarações são amplificadas de um modo que seria impossível sem a internet. Agora, enquanto Bento XVI se aproxima do fim de sua vida, é evidente um profundo contraste entre as mensagens sobre o Vaticano II que ele entrega à Igreja e ao mundo e as do seu antecessor.

João Paulo II, em um testamento publicado após sua morte, falou do Concílio como “um grande patrimônio para todos aqueles que são e serão chamados no futuro a realizá-lo no futuro” [disponível aqui, em italiano]. Os últimos escritos de Bento XVI exibem ou uma visão negativa dos efeitos do Vaticano II, ou ignoram completamente os documentos e a teologia do Concílio. A introdução dos volumes dos seus escritos sobre o Vaticano II publicados em 2012, na série das obras completas de Joseph Ratzinger, confirma o desejo de estabelecer alguma distância do Concílio.

Também deve-se afirmar que existem algumas convergências perturbadoras entre a agenda teológica de Ratzinger sobre o Vaticano II nos últimos anos e a agenda teológica e eclesial da rede anti-Francisco. É difícil exagerar o papel da teologia de Ratzinger e do pontificado de Bento, por exemplo, na transição em curso da cultura da liderança hierárquica e episcopal católica dos EUA de um conservadorismo moderado do Vaticano II (buscando continuidade com a tradição anterior) rumo a um tradicionalismo extremista anti-Vaticano II (buscando uma ruptura com aquele momento da tradição que é o Vaticano II).

Em 2020, a definição de uma teologia “ratzingeriana” do Vaticano II depende muito do momento específico em que esta ou aquela opinião teológica foi escrita. A morte de um papa normalmente sela e preserva seu ensinamento magisterial de uma forma que a renúncia de um papa não faz. O modo como Bento e sua comitiva interpretaram e administraram o período pós-renúncia é um exemplo perfeito disso.

Bento XVI não é mais dono da sua narrativa teológica; ela está agora a serviço de uma agenda que ele ajudou a criar, mas que cada vez mais o coloca em desacordo com um senso saudável da Igreja.

A questão verdadeiramente infeliz em tudo isso é que Ratzinger foi um dos teólogos mais importantes do Vaticano II. Logo após a conclusão do Concílio, ele escreveu um comentário fundamental sobre a constituição sobre a Revelação, Dei verbum. A partir desse texto, emerge uma visão dinâmica e fecunda da verdade teológica. É o que torna ainda mais perturbador o seu repúdio ao Vaticano II. É triste ver o bispo [emérito] de Roma se afastar do seu próprio legado conciliar.

 

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