Dez anos após intervenção vaticana, Legião de Cristo encara nova crise de abuso

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21 Janeiro 2020

A diretora de uma escola católica de elite em Cancún, no México, costumava tirar meninas da sala mandá-las para a capela, onde o padre da ordem religiosa Legião de Cristo as violentaria sexualmente com os dedos.

A reportagem é de Maria Verza e Nicole Winfield, publicada por Crux, 20-01-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

“Enquanto umas liam a Bíblia, ele violentava as outras na frente delas, meninas de 6, 8 ou 9 anos”, disse uma das vítimas, Ana Lucia Salazar, hoje com 36 anos, âncora de um programa de televisão no México e mãe de três filhos.

“Depois, nada voltava como era antes”, disse ela em meio a lágrimas na casa onde mora, na Cidade do México.

A história horrível de Salazar, corroborada por outras vítimas da própria ordem religiosa, gerou uma nova crise de credibilidade para aquela que uma vez foi uma ordem influente, 10 anos depois de a Santa Sé assumir o seu controle após ser determinado que o seu fundador era um pedófilo.

O caso confirmou que o problema de abuso da Legião de Cristo vai muito além da patologia de seu fundador somente. Ele põe em dúvida também a reforma feita pelo Vaticano: o enviado papal para o caso, designado quase uma década atrás, se recusou a punir o padre ou os superiores que sabiam dos crimes cometidos, muitos dos quais ainda estão em cargos de poder e no ministério eclesiástico.

O atual escândalo não é o que a Legião esperava ter no momento em que abre o seu capítulo geral nesta segunda-feira, em Roma. Este capítulo geral é uma assembleia com duração de uma semana onde serão escolhidos os novos líderes da instituição e onde serão aprovadas novas diretrizes a serem seguidas.

Essa assembleia deveria servir para mostrar que a ordem religiosa embarcou em uma caminhada totalmente orientada por si mesma dez anos depois da reforma encabeçada pelo Vaticano. A Santa Sé impôs mudanças estruturais após as revelações de que o falecido fundador da ordem religiosa, o Pe. Marcial Maciel, abusou sexualmente de, pelo menos, sessenta seminaristas, foi pai de, pelo menos, três crianças e construiu uma instituição sigilosa, do tipo seita, para atender a seus caprichos e ocultar a sua vida dupla.

Este escândalo de Cancún, no entanto, expõe que a reforma do Vaticano não conseguiu resolver um tema-chave: punir abusadores históricos conhecidos e as pessoas que os acobertaram, e mudar a cultura de acobertamento que permitiu tais crimes.

Desde o começo, o falecido enviado papal que administrou a Legião, o Cardeal Velasio de Paolis, recusou-se a considerar cúmplices os superiores da ordem religiosa.

“De Paolis dizia que não seria feita uma caça às bruxas, explicitamente, e a consequência é que o abuso e o acobertamento continuaram impunes”, disse o Pe. Christian Borgogno, ex-padre da Legião de Cristo, que é um dos criadores do grupo “Legioleaks” no Facebook onde Salazar primeiramente veio a público em maio. Borgogno disse que a decisão de de Paolis em manter intocados os superiores legionários, muitos dos quais eram pessoas próximas de Maciel, “impossibilitou uma reforma”.

“A única saída era promover lideranças carismáticas, e elas sequer foram reprimidos”, contou ele à agência de notícias Associated Press. “Esse é o principal motivo por que muitos de nós saímos”.

Salazar, cuja história foi motivo de manchetes no México, vai além: “O que quero é que o papa tome uma atitude radical”, escreveu ela. “Só há uma forma de se posicionar: ficar do lado dos que foram violentados”, não do lado de uma ordem religiosa que entre os seus padres tem “vilões, delinquentes, estupradores, cúmplices e vitimizadores”.

“A Legião de Cristo não tem razão de existir”, disse ela, ecoando pedidos até mesmo de dentro da Igreja para que o Vaticano suprimisse a ordem dez anos atrás. “É como desmontar um cartel; é preciso destituir os líderes e desmantelá-la”.

O porta-voz da Legião, o Pe. Aaron Smith, sustentou que o comando da ordem religiosa de fato mudou na última década, notando que onze padres estão participando pela primeira vez no capítulo geral de 2020, e que a maioria dos 66 participantes são novos na assembleia desde que a reforma vaticana passou a valer. Mais de uma dúzia de outros, no entanto, fazem parte da velha-guarda de Maciel.

Smith contou que a estrutura de poder da era Maciel fora desmantelada, com uma autoridade descentralizada e com sistemas de pesos e contrapesos postos em funcionamento.

“Seria praticamente impossível, hoje, agir como antes, durante o período de Maciel, sem ser detectado”, disse em respostas via e-mail a perguntas após declinar conceder uma entrevista diante das câmeras.

Até a conferência episcopal mexicana rompeu o silêncio para denunciar os abusos recentemente revelados e o fracasso da Legião em proporcionar “um ato específico de justiça ou reparação às vítimas”, mesmo depois que ter reconhecido os crimes, prometido uma maior transparência e adotado as diretrizes de proteção a menores atualmente em vigor.

O arcebispo de Monterrey – importante reduto da ordem religiosa – denunciou o “silêncio criminoso” do grupo e o tratado dispensado às vítimas, e encabeçou os pedidos dos bispos mexicanos para que seja dado um fim ao estatuto de limitações em casos de abuso sexual. Este pronunciamento representa uma reviravolta notável, visto que a hierarquia católica do país há tempo vinha apoiando a Legião e se beneficiando da generosidade de outrora que havia na ordem.

Até mesmo o embaixador vaticano no México, o Mons. Franco Coppola, rompeu a tradição de uma discrição diplomática da Santa Sé ao criticar publicamente o tratamento dispensado ao caso pela ordem Legião de Cristo e ao pedido do Vaticano para que fosse investigada a “teia de encobrimento” que havia por trás da organização. Este pedido também foi marcante, dado que o próprio Vaticano esteve implicado no acobertamento de Maciel.

Coppola também ecoou os pedidos das vítimas e da Arquidiocese de Monterrey para que os superiores da Legião envolvidos nos acobertamentos pelo menos se retirassem do capítulo geral, considerando “um grande gesto de humildade” e que até agora nenhum aceitou.

Smith, o porta-voz dos legionários, disse que a ordem não pode solicitar que os padres deixem de participar da assembleia, mas que eles podem se retirar se assim escolherem.

Perguntado sobre a crítica da hierarquia mexicana, Smith falou que a Legião acolhe o que lhe chega por parte dos bispos na medida em que a instituição busca melhorar a forma como tratou casos passados de abuso e suas iniciativas de prevenção daqui para frente.

Ele disse também que o capítulo geral avaliará as práticas de proteção infantil atuais, garantirá um trabalho social adequado às vítimas e que poderá obrigar uma continuação da investigação sobre o acobertamento e outros casos de abuso de poder pelos superiores dos legionários.

No entanto, muitas das vítimas consideram estas promessas como discursos vazios e não dão importância às cartas que receberam do comando da ordem religiosa depois do mais recente escândalo, que prometem indenizações e mudanças. A Legião ainda não resolveu todos os pedidos de indenização feitos por oito das vítimas de Maciel, que entraram com pedidos formais em 2018.

O caso de Salazar é especialmente grave já que os seus pais foram ao bispo, ele próprio um legionário, para denunciar o padre, Fernando Martínez Suárez, tão logo Salazar lhes contou do caso em fins de 1992 de que este a havia violentado sexualmente com os dedos. Então com 8 anos, ela subiu na cama onde estavam os pais certa noite e revelou que Martínez a teria colocado sobre seu colo, tirado sua saia, penetrando-a e se masturbando.

Martínez, no entanto, tinha amigos, entre eles Maciel, que, como se veio a saber depois, teria abuso sexualmente dele, Martínez. Martínez é um dos vários padres legionários que foram vítimas, quando ainda eram menores de idade, do fundador. Ele passou então a molestar outros menores, em uma corrente multigeracional de abusos que a Legião reconheceu mês passado.

Na semana passada, a Legião anunciou que Martínez solicitou sua expulsão da ordem, após uma investigação externa determinar que ele molestou, pelo menos, seis meninas em Cancún e que uma série de lideranças legionárias, desde o bispo original que levou a queixa de Salazar ao próprio de Paolis, decidiu contra reportá-lo à polícia e mesmo ao Vaticano. Martínez acabaria transferido de Cancún para um seminário na Espanha, sem nenhuma restrição formal imposta.

O atual superior legionário, Pe. Eduardo Robles Gil, pediu desculpas a Salazar pela forma como lidaram com o seu caso originalmente e por todas as “deficiências” subsequentes.

“Eu poderia ter remediado este caso a partir de 2014, mas acabei seguindo as decisões que foram tomadas para os casos de abusos sexuais das décadas anteriores, e não o analisamos”, escreveu ele novembro.

Gil encaminhou uma carta de Martínez a Salazar, em que o abusador lhe pedia perdão “pelo grave dano que lhe causei”. Ele chamou o seu comportamento de “falhas” resultantes de uma “sexualidade descontrolada”.

Salazar ficou profundamente ofendida pela forma como a carta diminuía os crimes e o acobertamento. “Ela me vitimizou novamente. É humilhante, nojenta”.

Depois que Salazar veio a público, outras vítimas de Martínez romperam o silêncio.

Suas histórias não surpreenderam Beatriz Sánchez, professora de inglês do Colegio Cumbres, em Cancún, na década de 1990. Ela ouviu sobre os atos de violência sexual depois de descobrir um grupo das vítimas sussurrando – e chorando – no banheiro.

“Quando uma veio falar comigo, ouvi: ‘Professora, sempre o padre faz essas coisas com as meninas pequenas, não queremos que isso aconteça com elas, por favor nos ajuda”, disse Sánchez à Associated Press.

A professora sugeriu que as meninas escrevessem o que aconteceu; em seguida, foi prontamente demitida da escola quando relatou os casos à direção.

Depois que Salazar veio a público, a funcionária da escola que costumava a tirar as meninas da aula para oferecê-las a Martínez foi demitida do seu trabalho em uma outra escola dos legionários.

Uma das vítimas era Biani López-Antúnez, cuja mãe também relatou o abuso à Legião em 1993.

Irma Hassey disse que não perguntou por detalhes quando a sua filha relevou pela primeira vez os abusos cometidos por Martínez, buscando com isso não magoá-la ainda mais, só vindo a saber a história completa em novembro passado.

Segundo disse, hoje ela percebe com horror que por dois anos “eu deixei a minha filha à porta de um estuprador”.

 

Nota da IHU On-Line:

Instituto Humanitas Unisinos – IHU promove o seu X Colóquio Internacional IHU. Abuso sexual: Vítimas, Contextos, Interfaces, Enfrentamentos, a ser realizado nos dias 14 e 15 de setembro de 2020, no Campus Unisinos Porto Alegre.

X Colóquio Internacional IHU. Abuso sexual: Vítimas, Contextos, Interfaces, Enfrentamentos

 

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