Por que o papado emérito deve ser reformado. Uma instituição desordenada

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21 Janeiro 2020

"Bento deveria ser o Bispo Emérito de Roma – como Francisco corretamente referiu-se ao antecessor na noite de sua eleição –, não o 'Papa Emérito'. Ele usaria vestes clericais simples, ou um 'abito piano' de cardeal, não uma batina branca. E não deveria haver um gabinete do 'prefeito da Casa Pontifícia' ou algum tipo de tribunal paralelo. Desse modo, se o religioso vier a se manifestar, assim o fará com a liberdade de um teólogo em particular", escreve Austen Ivereigh, escritor e jornalista, em artigo publicado por Commonweal, 15-01-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Uma das muitas ironias do fiasco recente em torno do papel do papa emérito é que Bento renunciou exatamente para evitar que indignidades assim acontecessem. Tendo vivido o caos dos anos finais de um enfermo João Paulo II – vazamentos na Cúria, corrupção, acusações –, Bento XVI planejou uma aposentadoria que não ficasse no centro das atenções, que fosse contemplativa e apoiasse o seu sucessor. No entanto, as coisas não acabaram assim. Apesar das boas intenções, o papado emérito se mostrou uma instituição desordenada, vulnerável à manipulação de críticos do sucessor, Francisco. O papa emérito foi trazido uma vez mais para dentro de um jogo indecoroso de poder contra o Papa Francisco – dessa vez pelo Cardeal Robert Sarah, de 74 anos, um dos linha-dura litúrgicos do Vaticano. O resultado foi novamente o de denegrir Bento e lançar dúvidas sobre o seu legado e juízo.

Muitos observaram, com ironia, que no mesmo dia que Antony Hopkins foi indicado na categoria de melhor ator coadjuvante por desempenhar Joseph Ratzinger no drama “Dois Papas”, do Netflix, o verdadeiro Bento XVI, de 92 anos, foi levado, com toda a sua fragilidade, na onda para impedir que Francisco concorde com o pedido do Sínodo dos Bispos para a Amazônia de ordenar diáconos casados. O livro de Sarah, a ser publicado em breve na França e, no próximo mês, nos EUA, foi anunciado – de forma desonesta, com se viu depois – como sendo de autoria também de Bento XVI. A capa chegou a incluir uma foto sua, e ele foi listado como o primeiro autor sob o seu nome papal. (Mesmo quando era papa, Bento fez questão de assinar a sua trilogia de Jesus como “Bento XVI-Joseph Ratzinger”, deixando claro se tratar de reflexões expressas por ele enquanto teólogo.)

Bento XVI não tinha concordado com nada disso, tendo contribuído apenas com algumas páginas de teologia, confiando que elas seriam úteis ao projeto de Sarah. Sarah alegou que Bento fora consultado em todos os estágios da publicação, enquanto o assessor do ex-papa, Dom Georg Gänswein, insistiu que ele não havia nem aprovado o manuscrito nem concordado em ser coautor. Sarah acabou tendo que voltar atrás. Após publicar uma nota furiosa prometendo perdoar os que o “caluniaram”, concordou com o pedido de Ganswein e pediu ao editor francês que retirasse Bento como um dos autores. (A editora americana do livro, a Ignatius Press, recusou a solicitação, dizendo que, até onde se sabe, o livro “foi” escrito em coautoria com Bento XVI.)

Parte disso tudo já está resolvida, mas é difícil saber o que realmente ocorreu. Gänswein – que controla as interações de Bento com o mundo exterior e que certa vez argumentou, de maneira bizarra, que hoje há um papado gêmeo – ficou de fato chocado com o que Sarah fez, ou agiu assim só após ser repreendido pelo Vaticano? Quem (Gänswein ou Sarah) está mentindo, ou houve um erro de comunicação que explicaria a discrepância? Dada a fragilidade de Bento – ele dorme durante muitas horas do dia, tem dificuldades para escrever e falar –, não estariam tirando vantagens dele? Se sim, quem e por quê?

Mas a pergunta mais importante é sobre a propriedade, antes de mais nada, de Bento intervir. Ele prometeu a Francisco a sua “incondicional reverência e obediência” e, em geral, nestes últimos seis anos ele foi um grande apoiador, ao mesmo tempo dando continuidade às suas reflexões teológicas, como é de seu direito. Naturalmente, os apoiadores de Sarah têm enfatizado este direito, alegando que ambos os religiosos estão apenas reafirmando o magistério católico e ecoando as próprias declarações de Francisco em defesa de um celibato obrigatório. No entanto, como é óbvio, Bento não é somente um teólogo, e Sarah não está meramente expressando um ponto de vista. Um rápido olhar no conteúdo do livro deixa claro o problema.

Das profundezas dos nossos corações [em tradução livre] (“Des Profondeurs de nos coeurs”, em francês) tem uma finalidade explicitamente de campanha: na resposta ao Sínodo dos Bispos, quer-se impedir qualquer possibilidade de Francisco concordar em autorizar uma exceção à regra do celibato na Amazônia ou noutro lugar. Em excertos publicados pelo jornal francês Le Figaro Sarah critica toda e qualquer ideia de um clero casado, descrevendo-a como uma “meia medida” e um sacerdócio “de segunda classe”, que constituiria uma “brecha, uma ferida na coerência do sacerdócio”. “Os povos da Amazônia têm o direito a uma experiência plena de Cristo, o Noivo”, escreve o cardeal, supostamente porque os diáconos amazônicos ordenados como padres só podem dar uma experiência parcial de Cristo, o Noivo. Em seguida, convida Francisco – a quem alega “obediência filial” – a não privar as pessoas da “plenitude do sacerdócio” e “do verdadeiro significado da Eucaristia”.

Sarah quer encerrar o discernimento do Sínodo dos Bispos para a Amazônia a ser feito pelo papa alegando que nada há para discernir neste caso: um sacerdócio celibatário é, com efeito, uma lei divina. O cardeal busca reforçar esta ideia com a noção extravagante, porém não explicada, de uma “ligação ontológico-sacramental entre o sacerdócio e o celibato”, contradizendo o ensinamento do Concílio Vaticano II (Presbyterorum ordinis, 16), de acordo com o qual a continência “não é exigida pela própria natureza do sacerdócio, como se deixa ver pela prática da Igreja primitiva e pela tradição das Igrejas orientais”. De fato, esta sua contenção teologicamente inovadora questiona não só o sacerdócio dos primeiros papas como aquele de milhares de clérigos católicos hoje. Sarah passa a afirmar, de forma surpreendente, que nenhum enfraquecimento (“tout affaiblissement”) da regra do celibato constituiria um apagamento do ensinamento dos papas anteriores, muito embora Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI todos permitiram exceções. “Humildemente apelo ao Papa Francisco que nos proteja definitivamente de qualquer eventualidade, vetando qualquer enfraquecimento da lei do celibato sacerdotal, mesmo se limitado a uma região particular”, pede Sarah, no agora obsequioso estilo de farsa que ficou famoso pelos cardeais de dubia.

O que afinal Bento está fazendo em companhia teológica como esta? As próprias contribuições do papa emérito – dadas a Sarah para que usasse conforme achava apropriado em seu livro – vão longe do que diz o cardeal: elas não só são moderadas, mas estão enraizadas na teologia católica tradicional. Ele defende com vigor o celibato como o melhor veículo do ato radical de doar-se (ao lado da pobreza material), doação que o sacerdócio acarreta, sustentando que a revelação cristã transformou, assim, o entendimento humano da totalidade da presença divina de que tanto o sacerdócio quanto o matrimônio são vocações para a vida toda. Bento XVI deixa de lado, no entanto, o que afirma Sarah, argumentando apenas que “parece ser” difícil combinar ambas as vocações ao mesmo tempo, e que a capacidade de renunciar ao matrimônio se tornou “um critério” para o ministério sacerdotal” (com este artigo indefinido, Bento não vai tão longe quando deseja ir Sarah em suas declarações). Em uma palavra, os argumentos de Bento são apaixonados, conquanto tradicionais: o seu ponto de vista é o do celibato sacerdotal como um tema não de ontologia, mas de conveniência. Ela apoia o celibato clerical porque acredita que este faz o sacerdócio mais fácil de ser vivido, e não porque a regra em si é um mandado de Deus.

No entanto, fazer caber as reflexões de Bento dentro do discurso de Sarah contra padres casados necessariamente põe a carruagem do religioso emérito à frente do trem do cardeal. Se o celibato coincide com o sacerdócio, o que fazer da decisão de Bento, em 2009, de permitir que ex-anglicanos solicitassem “admissão de homens casados à ordem do presbitério segundo cada caso”? Será que Bento agora considera estes membros do clero, em plena comunhão com Roma, como padres incompletos, “padres de segunda classe”? E o que dizer dos muitos ritos orientais da Igreja Católica com uma longa tradição de sacerdotes casados? Sarah afirma no livro que, à luz da “ligação ontológica” entre o celibato e o sacerdócio, o clérigo dos ritos orientais é convidado a abandonar o matrimônio com o passar do tempo e que a concessão para ex-padres “protestantes” jamais deveria se repetir. Por implicação, estas opiniões também são as opiniões de Bento?

Francisco é apaixonadamente favorável ao celibato obrigatório, prometendo que não será ele o papa a pôr fim a essa prática. Mas, como os antecessores, Francisco está disposto a contemplar exceções por motivos pastorais convincentes, quando o salus animarum – o bom das almas – está em jogo em lugares de missão remotos como a Amazônia. Mas em seu livro, Sarah afirma que não pode haver “exceções” ao celibato sacerdotal e o simples emprego da palavra constitui um “abuso de linguagem ou uma mentira”.

No entanto, em 2009 Bento cita Sacerdotalis Caelibatus, de São Paulo VI, publicado em 1967, para sustentar a autorização de ex-clérigos casados anglicanos. O Papa Paulo escreveu que “poderá admitir-se o estudo das condições peculiares de sacerdotes casados, membros de Igrejas”, levando aqueles que desejam aderir “à plenitude desta comunhão e nela exercer o sagrado ministério, forem admitidos às funções sacerdotais”. A pergunta que precisa ser feita agora é: Bento concorda com Sarah em que estas “exceções”, delineadas por Paulo II, eram, na realidade, uma “mentira”?

Não deve, portanto, ser surpresa que, no curso dos eventos de terça-feira, o gabinete de Bento XVI tenha exigido a retirada não só de seu nome como autor, mas também que ele fosse removido da introdução e conclusão da obra. O dano, todavia, já fora feito: Sarah colocou o ex-papa em um contramagistério: um ponto de partida para a oposição a Francisco. Agora, se Francisco decidir-se contra a aprovação do pedido sinodal por uma exceção ao celibato na Amazônia, os opositores dirão que “Bento o deteve”. Cantarão vitória por “fidelidade à tradição”, parecendo causar um curto-circuito em um processo sinodal que deveria diferir, em última instância, do discernimento do próprio papa.

Esta e outras confusões – como a do excêntrico artigo em 2019 sobre o abuso sexual, que foi divulgado pelos admiradores de Bento via imprensa pró-Viganò nos EUA – têm levado muitos católicos a pedir que o papa emérito faça o que primeiramente prometeu, mantendo-se em silêncio. A situação atual também fez reviver os pedidos de reforma do papado emérito, o que os canonistas e teólogos há tempo pedem.

Em resumo: Bento deveria ser o Bispo Emérito de Roma – como Francisco corretamente referiu-se ao antecessor na noite de sua eleição –, não o “Papa Emérito”. Ele usaria vestes clericais simples, ou um “abito piano” de cardeal, não uma batina branca. E não deveria haver um gabinete do “prefeito da Casa Pontifícia” ou algum tipo de tribunal paralelo. Desse modo, se o religioso vier a se manifestar, assim o fará com a liberdade de um teólogo em particular.

A forma como a comitiva de Bento às vezes usou ele e seus escritos para minar Francisco é um escândalo e uma desgraça. Estas pessoas vêm alimentando a imprensa oposicionista enquanto o Vaticano e seu departamento de imprensa mantêm-se à sombra. Constantemente elas desobedecem o Diretório para o Ministério Pastoral dos Bispos, de 2004, emitido pelo Vaticano, que insiste que os eméritos evitem “qualquer atitude ou relação que possa dar sequer a impressão de constituir como que uma autoridade paralela à do Bispo diocesano, com o consequente prejuízo para a vida e a unidade pastoral da comunidade diocesana”. Apenas por deferência à autoridade do bispo diocesano, acrescenta o Apostolorum Successores, “que todos compreendam claramente que só este último é o chefe e o primeiro responsável do governo da Diocese”.

Nada disso irá chatear Francisco. O papa argentino gosta profundamente de Bento e ficou chocado ao vê-lo assim, frágil. Por enquanto, ele nada disse. Os planos de Sarah, como os de outros antes dele, têm o costume de implodir por si mesmos. Mas a cada passo indecoroso, a estrela de Bento vai sendo injustamente apagada. Lições estão sendo aprendidas. O tribunal paralelo e o contramagistério acabarão com o funeral de Bento. O papa incumbente deve ter a liberdade de ser o papa, para o bem do próprio ministério petrino. O Povo de Deus precisa obedecer um papa de cada vez, por causa da graça que se atribui ao ofício, da mesma forma como o emérito deve estar livre das disputas intraeclesiais e dos jogos de poder que alimentam divisão e confusão.

É claro que tudo isso pode ser pensado e pode ganhar forma pelo próximo papa. Se for Francisco que acabar sendo o responsável por esta atualização, a reforma do papado emérito será, com certeza, a sua grande e última reforma – uma reforma pensada não para enfraquecer o ministério petrino, mas para defendê-lo em nome da liberdade do Povo de Deus.

 

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