O chamado de Raoni: líder mundial reúne lideranças no Xingu para unir vozes contra ameaças

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15 Janeiro 2020

“Houve um tempo que foi necessário nos calar para sobreviver; agora precisamos falar para resistir”, afirmou Lucilene Tremembé, uma das 450 lideranças indígenas, homens e mulheres, que atenderam ao chamado do cacique Kayapó Raoni Metuktire para participar do Encontro dos Povos Mebengokrê, que começa nesta terça-feira (14) e vai até sexta-feira (17), na Terra Indígena Capoto Jarina, às margens do rio Xingu, no Mato Grosso.

A reportagem é de Juliana Arini, publicada por Amazônia Real, 14-01-2020.

Todos querem ouvir o que a liderança brasileira mais respeitada no mundo tem a dizer. Raoni foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz 2020 pela Fundação Darcy Ribeiro (Fundar), por sua dedicação e luta pelos direitos dos povos indígenas e pela preservação da Amazônia.

“Sempre vemos o Raoni fora de sua aldeia para defender os povos indígenas. Agora ele nos chamou à sua casa. Algo inédito”, diz Lucilene. A expectativa dela sobre o evento é a mesma de todos entrevistados pela Amazônia Real: união de forças e vozes.

São esperados no encontro representantes de 47 povos de todo o país, além dos Kayapó e Tremembé: Yawalapiti, Kalapalo, Txicão, Kaiabi, Enawenê-nawê, Guarani Ñandeva, Guarani-Kaiowá, Terena, Tapirapé, Munduruku, Arara, Ka’apor, Apiaká, Guajajara, Kuikuro, Xakriabá, Kaingang, Tupiniquim, Xikrin, Fulni-ô, Wapichana, Taurepang, Keruxo, Wajãpi, Tupari, Surui, Araposo, Xavante, Chiquitano, Kuruaya, Xipaya, Potiguara, Suyá, Tapayuna, Juruna, Panará, Apu, Trumai, Kisêdjê, Truká, Tuxá, Paresí, Kawaiwete e Khĩsetje; entre outros.

As discussões do Encontro dos Povos Mebengokrê serão presididas pelo Cacique Raoni, de 89 anos, na aldeia Piaruçu, no município de São José do Xingu. “Nos últimos 12 meses, o mundo vem acompanhando a crescente onda de ameaça aos povos tradicionais brasileiros. Nesta oportunidade, indígenas de diferentes gerações pretendem elaborar um plano de ação em conjunto para enfrentar o problema”, diz a organização do evento, que é coordenado pela Fundação Raoni.

Durante o Encontro dos Povos Mebengôkrê as lideranças indígenas também irão abordar temas como arrendamento de Terra Indígenas; a Ferrogão (ferrovia que ligará Sinop, no Mato Grosso, a Itaituba, no Pará) e outros megaempreendimentos que afetam territórios; a terceirização e municipalização da saúde indígena; o desmonte das políticas indigenistas; a questão dos índios isolados; a proibição de atendimento aos indígenas em terras não homologadas; o genocídio indígena; o que está por trás dos ataques e o papel da juventude, da mulher e do movimento indígena no momento atual.


Mineração e violência

Operação contra garimpo ilegal na Terra Indígena Munduruku, em 2017 (Foto:Ibama)

As ameaças recentes aos povos indígenas, com o anunciado projeto de Lei do governo Jair Bolsonaro que propõe o arrendamento de terras indígenas, a possibilidade de mineração e a crescente onda de violência contra os territórios também serão discutidas.

Para o vice-presidente da Coordenação das Organizações Indígenas Brasileda Amazônia Brasileira (Coiab), Mario Nicacio Wapichana, da Terra Indígena Manoa Pium, em Roraima, as propostas do presidente Jair Bolsonaro são velhas conhecidas.

“Desde que foi deputado ele sempre promoveu ações para questionar os direitos indígenas. Ele havia tentado questionar a demarcação da terra indígena Yanomami, e também foi um dos responsáveis pelos conflitos envolvendo a demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Logo não temos novidades. O que precisamos é sensibilizar a sociedade que tem sido inundada por muitas informações erradas”, diz Mario Nicacio.

Para Mario Nicacio, as alterações propostas a criminalização das lideranças é outra questão complexa a ser debatida. “Veja o Raoni, o próprio presidente da República o ameaçou na Organização das Nações Unidas (ONU), em um discurso. Isso é muito complicado. Sempre vivemos ameaças, mas elas estão cada vez maiores. Precisamos estar unidos para defender o que falamos há mais de 500 anos. Queremos o direito a vida, ao equilíbrio ambiental, problemas que são de todos os povos e de todas as gerações, inclusive dos não índios”, diz.

Recentemente alguns indígenas se pronunciaram a favor da liberação do garimpo em terras indígenas, uma proposta antiga do Congresso Nacional que ganhou força no atual governo.

“Precisamos ter discernimento. O garimpo ilegal chega aos indígenas por muitos não índios que se aproximam como amigos e fazem propostas ilusórias. Mas se não tomarmos cuidado, corremos o risco de viver uma situação se volta, como a de muitos parentes de Rondônia. Precisamos ver que existem outras soluções. Em nosso território criamos uma loja e uma associação que já realizou projetos que ajudou a todos”, diz Gãsolah Surui, da aldeia Paiter, em Rondônia.


Disputa pelo território

Aty Guassu, Grande Assembleia Guarani Kaiowá, na aldeia Jaguapiru, na Casa de Reza  (Foto: Mário Vilela/Ascom Funai/2013)

O genocídio indígena e a violência trouxera Elizeu Guarani, organizador da Assembleia Atu Guaçu de Mato Grosso do Sul, ao encontro na aldeia Piaruçu. A continuidade dos ataques contra as aldeias Guarani-Kaiowá, em Dourados, por fazendeiros é o maior temor de seu povo. Para Elizeu, outra grave ameaça crescente, embora silenciosa, é a descontinuidade da educação indígena especial, promovida no idioma.

“Em 2019 todo o programa de formação de professore e ensino nas aldeias Guarani foram paralisados. Não sabemos como será esse ano novo, mas precisamos muito garantir as escolas indígenas para preservar a nossa cultural. Há muito assédio de igrejas. Essas questões que precisam ser debatidas para que nossa cultura permaneça. Isso fora toda a demanda pela ampliação do território Guarani”, explica Elizeu Guarani.


Movimento indígena

1a. Marcha das Mulheres Indígenas na Esplanada dos Ministérios em Brasília, em 2019 (Foto: Maria Fernanda Ribeiro/Amazônia Real)

A representação histórica do cacique Raoni foi um dos pontos que sensibilizou as lideranças convidadas. “Ele traz uma figura de força em um momento que precisamos muito desse estímulo para os movimentos indígenas”, explica Maria Leonice Tupari, coordenadora da Associação das Guerreiras Indígenas de Rondônia (Agir). “Estávamos muito desunidos, esse encontro veio fortalecer a todos”, diz.

Segundo Maria Leonice Tupari, um dos seus principais temores é a concretização do marco regulatório. A proposta pretende rever as terras indígenas demarcadas após a promulgação da Constituição Federal de 1988. “Se no caso das ações de saúde eles realmente só irão atender quem estiver em território demarcado e homologado, isso pode criar um caos na saúde”, diz.

Kenawari Wajãpi, coordenador do conselho das aldeias Wajãpi, do Amapá, é outra liderança feminina que participará do evento para debater a saúde indígena. “Morreram seis Wajãpi ano passado por falta de atendimento. As melhorias ao atendimento de saúde são fundamentais para nós. Esses Wajãpi morreram por malária, câncer de útero e até picada de cobra. Se tivéssemos agentes de saúde nas aldeias talvez poderiam estar vivos”, diz.

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