Quatro soluções católicas para políticas tóxicas. Artigo de Thomas Reese

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11 Janeiro 2020

“A melhor maneira de superar as divisões na Igreja pode ser dar as mãos na cura das divisões na nação.”

O comentário é do jesuíta estadunidense Thomas J. Reese, ex-editor-chefe da revista America, dos jesuítas dos Estados Unidos, de 1998 a 2005, e autor de “O Vaticano por dentro” (Ed. Edusc, 1998), em artigo publicado por Religion News Service, 10-01-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

Como a única grande denominação com números quase iguais de republicanos e democratas [nos EUA], a Igreja Católica está em uma posição única para responder à política tóxica de hoje.

De acordo com um relatório de 2018 do Pew Research Center, “partes aproximadamente iguais de eleitores católicos registrados se identificaram ou se inclinaram para os partidos Democrata e Republicano nos últimos anos (47% vs. 46%, respectivamente)”.

É verdade que a própria Igreja está atormentada pela divisão e pelo escândalo, e pode não parecer a melhor solução para os conflitos políticos dos EUA. Por outro lado, a Igreja ensina que há força na fraqueza, especialmente se essa fraqueza ensinar humildade à Igreja. Além disso, a melhor maneira de superar as divisões na Igreja pode ser dar as mãos na cura das divisões na nação.

Existem pelo menos quatro estratégias católicas possíveis que podem ajudar a reduzir as divisões do país.

A primeira é educar tanto os católicos quanto outros sobre o ensino social católico, algo que as universidades católicas tentam fazer há décadas. O ensino social católico não se encaixa facilmente na plataforma de nenhum dos partidos políticos. Os democratas se opõem ao seu ensino sobre o aborto, enquanto os republicanos difamam o papel que ele dá ao Estado na resposta a problemas sociais e econômicos. Quem aceita todo o ensino social católico não se sente totalmente à vontade em nenhum dos partidos; os republicanos e os democratas católicos serão desafiados por ele.

O ensino social católico também tem a vantagem de ser normalmente declarado em termos gerais de valores, princípios e objetivos, e não em programas específicos. Ele deixa em aberto o debate sobre o melhor modo de alcançar esses objetivos, e cabe a especialistas e políticos o trabalho de determinar isso. Essa falta de especificidade permite a flexibilidade e a obtenção de soluções por meio de negociações e compromissos.

Durante muitos anos, a totalidade dos ensinamentos sociais católicos tem sido o foco da estratégia política dos bispos católicos dos EUA. Para o cardeal Joseph Bernardin, de Chicago, defender uma “ética consistente da vida”, conhecida coloquialmente como “roupa sem costura”, significava proteger a vida desde o útero até o túmulo. Assim, ele estava preocupado com o cuidado das mães e dos filhos após o nascimento em todo o sistema de saúde, as creches, a educação e o emprego, além de pôr fim ao aborto.

Essa também foi a abordagem adotada pelos bispos dos EUA a cada quatro anos em sua declaração “Cidadania Fiel”, emitida no ano anterior às eleições presidenciais e às vezes citada, embora seletivamente, por candidatos e autoridades eleitas.

Por outro lado, o ensino social católico tem sido frequentemente referido como o segredo mais bem guardado da Igreja. O senador John Kerry, que concorreu à presidência em 2004, admitiu para mim que nunca ouvira falar do documento “Cidadania Fiel” até depois da eleição.

A chance de usar o “Cidadania Fiel” como um documento unificador sofreu um duro golpe na reunião dos bispos dos EUA em Baltimore, em novembro passado, quando eles votaram para destacar o aborto como a questão política “proeminente” para os católicos. Os democratas verão isso como uma inclinação ao Partido Republicano. Mas a maior parte do restante do documento está em sintonia com a pauta dos democratas, que tradicionalmente os tornou simpatizantes da declaração.

Como uma alternativa ao “Cidadania Fiel”, a Igreja poderia tentar construir a unidade em torno do ensino social do Papa Francisco, a quem a maioria dos católicos admira e gosta, e que também tocou profundamente na ferida fora da Igreja. No entanto, o partidarismo infectou até mesmo as atitudes dos católicos em relação ao papa e os seus ensinamentos – 55% dos republicanos católicos veem Francisco como liberal demais, de acordo com o Pew Research Center. Apenas 37% dos republicanos católicos acreditam que o Papa Francisco representa uma grande mudança para melhor, em comparação com 71% dos democratas católicos.

Claramente, já se passaram os dias em que o debate poderia terminar simplesmente dizendo: “A Igreja ensina que...”. Já é difícil o bastante levar as pessoas a escutar. Mas levar as pessoas a aceitar os ensinamentos da Igreja sempre foi uma batalha árdua; a Igreja não deve parar de proclamar o ensino social católico simplesmente por ser difícil.

Uma segunda maneira de capitalizar sobre a divisão bipartidária da Igreja é reunir democratas e republicanos para falarem sobre suas diferenças.

Os republicanos e democratas católicos estão tão divididos sobre questões como o aquecimento global, a imigração e a ajuda aos pobres quanto os norte-americanos como um todo. Mas a Igreja tem décadas de experiência com diálogos ecumênicos e inter-religiosos, e talvez processos semelhantes possam ser usados para diminuir a divisão entre católicos em diferentes partidos.

Impedir que esses encontros desçam ao nível da gritaria seria um grande desafio. Seriam necessários mediadores qualificados. O pároco comum não gostaria de sediar uma briga política no salão paroquial. Seminaristas e párocos precisam ser formados para promover conversas e diálogos entre os católicos sobre questões eclesiais e políticas. Isso é mais fácil se o pároco abordar essas situações sem a atitude de que “o pai/padre sabe mais”. Novamente, apenas por ser difícil, isso não significa que a Igreja não deva tentar.

Caso contrário, como diz o velho ditado, “você saberá que eles são cristãos pelo seu amor, mas você saberá que eles são católicos pelas suas disputas”.

A terceira abordagem católica à nossa divisão partidária é mais humilde e mais limitada. Aqui, não mais de uma dezena de pessoas, igualmente divididas entre republicanos e democratas, seriam convidadas a partir o pão juntas. Partilhar uma refeição juntos é uma antiga tradição cristã. A conversa seria desviada de temas partidários. Em vez disso, eles podem compartilhar sua fé juntos em torno de temas como:

- O que a minha fé significa para mim e para a minha família?
- Quando e onde eu me sinto mais perto de Deus?
- Qual é a minha passagem do evangelho favorita?
- Como eu vivo o mandamento de Jesus de amar a Deus e ao próximo?
- Como a minha fé modela a minha visão de mundo?

O objetivo desse intercâmbio não é mudar a mente de ninguém; não é marcar pontos. Ao contrário, é ver os outros como seres humanos e cristãos, mesmo quando eu discordo totalmente deles politicamente.

Eu gostaria de ser uma mosca na parede em tal refeição secreta com dois políticos republicanos e dois democratas católicos organizada pelo seu bispo local. Aqui, o papel do bispo não seria como professor, mas como moderador e ouvinte. Mas não precisa ser um bispo. O convocador poderia ser um pároco ou um leigo respeitado.

Uma estratégia final para superar o partidarismo tóxico seria que republicanos e democratas católicos trabalhassem juntos em projetos de caridade comuns. Embora eles possam discordar sobre o papel do governo em ajudar os pobres, deve haver pouca discordância quanto à necessidade de cuidar dos famintos, dos doentes e dos pobres.

A Igreja sempre desfrutou de um forte envolvimento leigo em instituições de caridade católicas nos níveis diocesano e paroquial. Trabalhar em conjunto para ajudar os pobres por meio de bancos de alimentos, abrigos e organizações como a Sociedade de São Vicente de Paulo promove o respeito e amizades que transcendem a política partidária. Além de fazer o bem, a pessoa conhece os colegas de trabalho e os pobres como seres humanos, e não como caricaturas.

Tenho certeza de que existem outras estratégias que os católicos podem tentar para superar a divisão partidária. O papa propôs adicionar pecados ecológicos ao Catecismo. Talvez ele também devesse acrescentar a retórica política tóxica e as mentiras políticas à lista de pecados.

Como a maior Igreja com um número igual de republicanos e democratas, os católicos têm uma obrigação especial de tentar algo antes que seja tarde demais. Isso seria bom para o país e também para a Igreja.

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