Vulnerabilidade como força: uma chave para desmantelar o clericalismo

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12 Janeiro 2020

O padre jesuíta James Keenan realmente quer pôr tudo de cabeça para baixo. O teólogo altamente conceituado, entrando na interminável discussão sobre a crise dos abusos sexuais clericais, teve um daqueles momentos de reconhecimento ao ver a coisa bem na nossa frente, a mesma coisa que todo mundo não conseguia enxergar na busca de respostas.

O comentário é de Tom Roberts, publicado por National Catholic Reporter, 31-12-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

E aqui está o que eu considero como o ponto principal, a pergunta final que ele levanta a partir dessa tomada de consciência: “O Deus que adoramos é vulnerável?”.

Se sim, e ele acredita que sim, então ele pergunta: “Por que não podemos desenvolver uma eclesiologia baseada na vulnerabilidade de um Deus que corre riscos?”.

Se isso acontecesse, teríamos uma Igreja que pareceria e agiria de maneira bem diferente daquela que conhecemos hoje. Imaginem um fôlder de recrutamento de um seminário que destacasse a vulnerabilidade como uma qualidade que a instituição valoriza e se propõe a desenvolver nos homens que se inscrevessem.

Keenan é professor da cátedra Canisius e diretor do Jesuit Institute e do Gabelli Presidential Scholars Program do Departamento de Teologia do Boston College. Ele é o raro “infiltrado” que leva o debate sobre os abusos sexuais para além do caminho desgastado das questões de responsabilização já existentes, devido a pressões externas sobre a cultura clerical.

Seu foco está em um daqueles elementos que somente a própria hierarquia pode incorporar. Nenhum advogado ou conselho de revisão ou dicastério de responsabilização pode forçar alguém a pensar em se tornar vulnerável. Essa qualidade, acredito eu, é intrínseca à nossa tradição sacramental e, como tal, está além do escopo da lei e dos ajustes institucionais.

É importante observar, sobre essa questão da vulnerabilidade, que, embora não possa ser forçada sobre os indivíduos, o Papa Francisco iniciou recentemente uma reformaeliminando o sigilo papal – que promoverá uma certa vulnerabilidade institucional. Em suma, não há mais como esconder a verdade. Se isso, por sua vez, irá causar uma mudança na cultura, é outra questão.

Em um texto anterior, eu citei uma palestra proferida por Thomas Doyle [disponível aqui, em inglês], um padre inativo que foi um dos primeiros advogados clericais das vítimas de abuso. “O elemento comum da causalidade” na crise dos abusos, disse ele em discurso proferido na Gonzaga University, em outubro passado, “tem sido o papel dos bispos e a inadequação da resposta.”

Em outro ponto do discurso, ele disse: “A horrível história da violação sexual e da resposta sistêmica e destrutiva, agora em campo aberto, reconheceu o que a hierarquia não quer enfrentar: o Povo de Deus e a estrutura governamental hierárquica não são a mesma coisa, e a culpa pela autoria da estrutura hierárquica com a qual vivemos dificilmente pode ser atribuída a Cristo”.

Keenan, um dos 58 padres de Boston que, em 2002, assinou uma carta pedindo a renúncia do cardeal Bernard Law, refina essa intuição, traçando outra distinção entre o clero comum e a hierarquia. Ele chegou ao termo “hierarcalismo” [hierarchicalism] ao vê-lo sendo usado pelo teólogo moral canadense Mark Slatter, que descreveu a cultura hierárquica como “a cenoura de ouro para aqueles predispostos a seus encantos”.

O que as pessoas da cultura sabem muito bem, diz Keenan (e o que a maioria de nós, cristãos comuns, não tem conhecimento), “é que os caminhos formativos para os futuros bispos geralmente falam de modo diferente daqueles dos padres comuns”.

Por exemplo, os “futuros bispos” (a maioria deles) não estudam nos seminários regionais locais. “Em vez disso, eles são enviados a Roma para estudar teologia e são examinados em Roma de várias maneiras.” É aí que eles encontram pela primeira vez “‘encantos’ hierárquicos que a maioria dos padres não recebe: jantares com bispos visitantes, reuniões com outros bispos, a possibilidade de serem nomeados como o contato do bispo em Roma. De receberem as confidências do bispo. De sempre serem bem-vindos de volta assim que voltam para casa. Há um ‘aliciamento’ que ocorre de modo radicalmente diferente de qualquer coisa que ocorra com outros seminaristas. Eles estão sendo escolhidos para outro clube”, escreve Keenan.

Existe uma reciprocidade entre o clericalismo e o hierarcalismo. Ele descreve este último como “brutal” e como “a cultura de poder exclusiva do episcopado”.

Keenan escreve: “O que estamos apenas começando a ver é que o hierarcalismo e a sua falta de responsabilização e a sua capacidade de agir com impunidade serão mais difíceis de desmantelar do que o clericalismo e, de fato, garantirão a sobrevivência do clericalismo, pois o primeiro é o pai e o promotor do segundo”.

Ele propõe uma “cultura da vulnerabilidade” alternativa como um caminho para um “sacerdócio servidor” e para um “episcopado servidor”.

“Há uma profunda e graciosa ironia nisso: pois é precisamente a vulnerabilidade que os nossos clérigos e hierarcas ignoraram durante todo esse escândalo.”

Keenan cita “O único e eterno rei”, de T. H. White, em que o embrião humano é “o portador da vulnerabilidade humana”. É uma visão surpreendente, diz Keenan, “pois, por trás dessa decisão, está a assunção de que somos feitos à imagem de Deus e de que, se somos vulneráveis, Deus também o é”.

Ele cita ainda a intuição do teólogo moral irlandês Enda McDonagh de que Deus se revela “como vulnerável pelo nascimento de Jesus em Belém, a sua vida em Nazaré e a sua morte no Gólgota”.

A erudição que ele emprega direciona o pensamento para o ponto mais importante: ver a vulnerabilidade “não como um encargo, mas sim como algo que estabelece para nós, como seres humanos, a possibilidade de sermos relacionais e, portanto, morais”.

Vale a pena citar na íntegra a formulação de Keenan:

“Muitas pessoas pensam na vulnerabilidade como um encargo, um obstáculo, um fardo, uma falta de capacidade. Elas acham que a vulnerabilidade significa estar ferido. Mas a vulnerabilidade significa poder ser ferido, estar exposto ao outro, significa não estar protegido. (...) A vulnerabilidade é se permitir correr riscos em resposta aos outros e não deveria ser identificada ou confundida simplesmente com precariedade.”

Não é possível, em uma coluna, fazer justiça a todo o escopo do artigo de Keenan ou à erudição sobre a qual ele constrói o caso. É por isso que eu encorajo a ler todo o artigo de Keenan, junto com a palestra de Doyle na Gonzaga University e considerá-los como talvez o melhor fundamento que podemos encontrar para começar a fase do debate sobre os abusos sexuais que ficou fora de alcance.

Há uma razão pela qual o arcebispo Charles Scicluna, de Malta, amplamente considerado uma das mais conhecedoras e honestas da hierarquia sobre essa questão, pediu que Keenan proferisse a palestra aos seus padres e a reimprimiu na revista da Faculdade de Teologia da Universidade de Malta.

Keenan também publicou o artigo em Milão e em Oxford. Ele disse que um artigo sobre o conceito será publicado na edição de março da Theological Studies, e, no mesmo mês, ele fará palestras sobre o tema em Boston.

Keenan ressalta que Scicluna lhe disse que todas as medidas de responsabilização adotadas, que certamente incluem a eliminação do sigilo, são passos em termos de vulnerabilidade. Os passos em termos de responsabilização, todos dados em resposta a forças externas, de fato, tornaram as estruturas da Igreja vulneráveis em um grau sem precedentes.

Mas e as pessoas, os indivíduos, especialmente aqueles seduzidos pelos “encantos” do privilégio e do poder? A Igreja pode modificar tanto as suas preferências em relação aos escolhidos quanto o caminho rumo à liderança? Ela pode modificar o que ela entende por liderança?

Alerta de spoiler: aqui, eu pulei para o fim do artigo de Keenan, porque, tendo levantado o argumento mais forte, ele volta à questão central. Ele vê “cada oferta, cada proposta, cada crítica” feita pelos fiéis como “uma esperança de que a nossa defensividade e a nossa guarda baixem, e de que nos tornemos o que realmente somos, vulneráveis”.

“Se deixarmos que a vulnerabilidade do nosso Deus entre em nossos seminários e em nossas cúrias”, especula ele, “talvez poderemos deixar de lado alguns dos encantos que já sabemos que são tão banais quanto comprometedores.”

Ele vê um acerto de contas colegial e eclesialmente amplo com “o modo como devemos reformar precisamente os nossos seminários, as nossas cúrias e, é claro, o Vaticano, mas isso se dará por meio da vulnerabilidade e não da fumaça e dos espelhos da dominação hierárquica que já tirou a vida de tantos”.

Uma cópia do artigo de Keenan pode ser encontrada aqui [em inglês].

Um vídeo da palestra de Doyle, cortesia da Gonzaga University, pode ser encontrado aqui [em inglês].

 

Nota da IHU On-Line:

Instituto Humanitas Unisinos – IHU promove o seu X Colóquio Internacional IHU. Abuso sexual: Vítimas, Contextos, Interfaces, Enfrentamentos, a ser realizado nos dias 14 e 15 de setembro de 2020, no Campus Unisinos Porto Alegre.

X Colóquio Internacional IHU. Abuso sexual: Vítimas, Contextos, Interfaces, Enfrentamentos

 

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