“O capitalismo ainda é jovem, mas não é eterno”. Entrevista com Robert Boyer

Revista ihu on-line

Caetano Veloso. Arte, política e poética da diversidade

Edição: 549

Leia mais

Mulheres na pandemia. A complexa teia de desigualdades e o desafio de sobreviver ao caos

Edição: 548

Leia mais

Clarice Lispector. Uma literatura encravada na mística

Edição: 547

Leia mais

Mais Lidos

  • Santa Teresa de Jesus: inquieta, andarilha, desobediente e muito mais...

    LER MAIS
  • COP26. Kerry reduz as expectativas sobre a cúpula de Glasgow: “Rumo a compromissos ainda insuficientes para alcançar…”

    LER MAIS
  • Diocese Anglicana no Paraná sagrará bispa coadjutora em Curitiba

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


06 Janeiro 2020

Crises, desigualdades, globalização, desafios climáticos... O capitalismo agudiza as contradições que o enfraquecem, segundo o economista Robert Boyer.

Robert Boyer é diretor de pesquisa do CNRS (Centro Nacional para a Pesquisa Científica), diretor de estudos da EHESS (Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais) e pesquisador do Cepremap (Centro para a Pesquisa Econômica e suas Aplicações).

A entrevista é de Christian Chavagneux e publicada por Alternatives Économiques, 03-01-2020. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

O que caracteriza o capitalismo?

É um modo de produção muito original, porque faz história: é constantemente obrigado a inovar para acumular, não apenas nas ciências, mas também nas normas, nas instituições e nos valores. E está sempre em busca de novos espaços, e não apenas geográficos. Sou fascinado pelo Facebook: uma empresa pode ganhar dinheiro graças às relações que os indivíduos estabelecem entre si!

Crises, recessões, guerras, etc., nada parece ser capaz de pôr em causa o seu progresso?

É um modelo que dura desde o século XVI. Seu fim é anunciado a cada grande crise, mas ainda está aí, porque o Estado está aí em última instância para salvá-lo. Quando está em perigo, o político intervém para garantir sua sobrevivência. Se suas crises afetam os bancos, apoiamo-los para salvar a confiança no crédito: invocamos o bem público para salvar os vícios privados!

Se o sistema parece inafundável, é também porque nenhuma alternativa jamais viu a luz do dia. Hoje, estamos propondo um New Deal Verde, um New Deal ecológico, mas não possui as instituições (moeda, Estado, relação salarial etc.) que formam um sistema para permitir que represente outro modo de organização.

Mas pode assumir várias formas: no final da Segunda Guerra Mundial, era mais progressista…

Não podemos entender a dinâmica do capitalismo no século XX sem os dois conflitos mundiais. A Primeira Guerra institui o armamento de massa, em uma aliança público-privada que dá credibilidade à política industrial, depois aplicada ao consumo de massa; o imposto de renda foi introduzido para financiar a guerra, e o trabalho das mulheres substituiu o trabalho dos homens durante algum tempo. A Segunda Guerra recompensa aqueles que dela escaparam, redistribuindo-lhes uma parte dos dividendos do crescimento recuperado. Se Franklin Delano Roosevelt colocasse os embriões do Estado de bem-estar social na década de 1930, eles seriam ativados apenas depois da guerra. O keynesianismo tornou-se dominante após 1945.

Minha conjectura: nós não conheceríamos o capitalismo de hoje sem esses dois conflitos. Thomas Piketty redescobriu isso estudando as desigualdades: as duas guerras tiveram um papel crucial em sua redução. Os conflitos ressincronizam as sociedades: diante do individualismo, das desigualdades relativas (local de residência, educação, etc.), as sociedades se unem na reconstrução após um episódio de guerra. Depois dos coletes amarelos, que expressam uma explosão de situações sociais, espero que encontremos outras soluções que não os conflitos para recriar uma sociedade viável e legítima.

Apesar de sua dinâmica multissecular, o capitalismo mostra-se incapaz de interromper uma consequência dramática de seu funcionamento: a destruição do planeta.

Eu estou convencido de que estamos caminhando para catástrofes ecológicas. Por duas razões simples. Por um lado, o clima é um bem comum, mas cada Estado administra sua relação com o clima de acordo com seus próprios interesses e pensa que é acima de tudo os outros que devem fazer os esforços. Por seu lado, os americanos acreditam que, de frente para o muro, a tecnologia nos salvará. Por outro lado, há um conflito de temporalidade: nós devolvemos aos mercados financeiros a tarefa de determinar o preço do carbono. No entanto, os mercados fixam um preço das cotas a ser poluídas, dada a situação atual, não a de amanhã, quando é tarde demais, dados os efeitos cumulativos do CO2. As decisões são dominadas pelo curto prazo: inovamos quando o preço do petróleo sobe e desaceleramos os esforços assim que ele cai.

As últimas pesquisas científicas mostram que o aquecimento global está indo mais rápido do que se pensava anteriormente. O fracasso climático polarizará ainda mais as sociedades. Os mais ricos provavelmente serão capazes de se adaptar, os mais pobres muito menos. Temo um egoísmo nacional e de classe ainda mais acentuado do que hoje.

O capitalismo parece estar enredado em estagnação secular, um longo período de inovação sem ganhos de eficiência. O que quebrou neste motor?

É uma visão muito americana e da Europa central! A China ultrapassou a etapa da atualização das tecnologias dos grandes países para estar na vanguarda do 5G, da exploração espacial ou da inteligência artificial. O país montou os meios para construir um sistema de inovação com retornos crescentes de escala. Por exemplo, a modernidade do sistema de pagamento eletrônico vai muito além do que nós conhecemos.

Por outro lado, nos Estados Unidos e na Europa, várias fontes de inovação foram enfraquecidas. Quando são criadas salvaguardas para impedir que os salários caiam muito, isso força o empreendedor a inovar para reduzir seus custos de produção. No entanto, desde a década de 1970, as regulamentações do mercado de trabalho evoluíram para um questionamento dessas proteções, ao mesmo tempo em que o poder dos sindicatos diminuiu. E com as taxas de juros em zero, as empresas zumbis, que deveriam desaparecer por falta de inovação, conseguem sobreviver. Porém, anunciar o fim da dinâmica capitalista é esquecer que os progressos hoje são aqueles que dizem respeito à vida humana, nos campos da educação, da saúde e do lazer. Considerá-los apenas como custos é não entender que é aí que estão as fontes do progresso.

Que futuro você vê para o capitalismo?

Quando lemos Karl Marx, entendemos que o capitalismo cria as condições para o seu próprio fracasso, mas sempre soube dar respostas aos seus problemas. Quais forças prevalecerão no futuro? Vou responder dizendo que é um sistema ainda jovem! O que abre inúmeras possibilidades. Ele existe há apenas pouco mais de quatro séculos, o que é pouco comparado à duração dos grandes impérios... pensemos no Império Romano. Portanto, pode durar muito tempo. Entretanto, nenhum império foi eterno!

De fato, o capitalismo agudiza as contradições e hoje as globaliza, o que o enfraquece. Não há nenhum mecanismo para tornar compatíveis os capitalismos americano, chinês, etc. Existe o risco de refracionamento territorial, inclusive em suas dimensões nacionalistas, autoritárias e xenofóbicas.

Meu único prognóstico é que, até o final do século, a degradação do planeta nos forçará a inovar em novas técnicas de sobrevivência em um ambiente inóspito para os seres humanos. O capitalismo de amanhã será o da busca dos meios de sobrevivência diante da natureza hostil que criou.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

“O capitalismo ainda é jovem, mas não é eterno”. Entrevista com Robert Boyer - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV