A nomeação de Tagle: por uma Igreja menos europeia. Artigo de Thomas Reese

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13 Dezembro 2019

Em uma das nomeações mais significativas de seu papado, o Papa Francisco escolheu o cardeal filipino Luis Antonio Tagle para chefiar o escritório vaticano que lida com a maioria das dioceses da África, Ásia e Oceania. Como prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos, ele ajudará a moldar a Igreja nesses territórios.

O comentário é de Thomas J. Reese, jesuíta estadunidense, ex-editor-chefe da revista America, dos jesuítas dos Estados Unidos, de 1998 a 2005, e autor de “O Vaticano por dentro” (Ed. Edusc, 1998), em artigo publicado por Religion News Service, 11-12-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Tagle, 62 anos, cujo pai era filipino e cuja mãe é de origem chinesa, é atualmente bispo de Manila. Depois da sua ordenação sacerdotal em 1982 nas Filipinas, ele estudou na Universidade Católica dos Estados Unidos, em Washington, onde obteve um doutorado em teologia, escrevendo sua dissertação sobre a evolução da colegialidade episcopal desde o Concílio Vaticano II.

Ele também estudou em Roma durante sete anos e foi nomeado por João Paulo II para a Comissão Teológica Internacional da Igreja em 1997.

Benquisto e respeitado em seu país, Tagle tem todos os atributos prezados por Francisco. Ele é tanto irradiante quanto pastoral. Tem uma profunda preocupação com os pobres e não tem medo de se manifestar pela justiça. É das periferias, mas conheceu o restante do mundo através de suas viagens como presidente da Cáritas Internacional, o programa internacional de ajuda da Igreja.

Essa nomeação é importante por três razões.

Primeiro, Tagle é um defensor entusiasmado de Francisco, que precisa de todo o apoio que puder receber na Cúria do Vaticano. Tagle tem a mesma abordagem pastoral às questões da Igreja que Francisco. Ele leva para a Cúria uma voz que será inequivocamente pró-Francisco. Além de atuar como prefeito, ele também será membro de outras Congregações vaticanas, nas quais poderá apoiar a agenda de Francisco.

Francamente, Francisco demorou para substituir as sobras do papado anterior. Ele até manteve e promoveu cardeais que estão fora de sintonia com os seus pontos de vista, como o cardeal Robert Sarah como prefeito da Congregação para o Culto Divino. Independentemente de quanto a Cúria seja reorganizada, a menos que as pessoas ao volante do poder apoiem o papa, nenhuma das reformas terá importância.

Segundo, essa nomeação é importante porque a influência da sua Congregação é muito abrangente. A Congregação, originalmente chamada de Congregação para a Propagação da Fé (Propaganda Fide), foi criada em 1622 para lidar com as missões abertas pela colonização europeia.

Para esses territórios, a Congregação faz o trabalho tanto da Congregação para os Bispos quanto da Congregação para o Clero. Como tal, a Congregação é responsável por nomear e supervisionar os bispos em toda a Ásia, África e Oceania, cerca de um terço das dioceses do mundo. Como prefeito, Tagle, sem dúvida, procurará candidatos que apoiem a visão pastoral de Francisco. Da mesma forma, sua Congregação pode influenciar o modo como os seminários formam os futuros sacerdotes para essas Igrejas.

Dentro da proposta de reforma da Cúria, essa Congregação terá duas seções: uma para as missões e outra para re-evangelizar o velho mundo cristão. O vasto portfólio da Congregação levou alguns comentaristas vaticanos a se referirem ao seu prefeito como o “papa vermelho”, pelas vestes escarlates que os cardeais usam.

Vindo da Ásia, Tagle será solidário ao desejo de Francisco de que o cristianismo reflita as culturas e tradições locais, em vez de simplesmente imitar o modo como o catolicismo é vivido na Europa.

Como prefeito, Tagle também distribuirá fundos arrecadados pela Sociedade para a Propagação da Fé, que apoia o trabalho missionário em todo o mundo. Lá, ele poderá direcionar o dinheiro para servir às pessoas e não ao clero. Francisco quer uma Igreja pobre que sirva aos pobres, mas, em alguns países missionários, o clero vive melhor do que o seu povo.

Por fim, por causa dessa nomeação, Tagle agora está bem posicionado para suceder o Papa Francisco, se Tagle fizer bem o seu trabalho como prefeito. Mas um perigo o espera em seu novo cargo. Muitos acreditam que a próxima etapa do escândalo dos abusos sexuais ocorrerá na África e na Ásia, regiões pelas quais ele é responsável. Ele precisará garantir que os bispos da África e da Ásia levem a sério o compromisso de Francisco de enfrentar os padres abusadores. O modo como ele lidar com os bispos que encobrem os abusos poderá determinar o modo como ele será visto na Igreja em geral.

Além disso, como a sua Congregação lida com milhões de dólares das doações para as missões, ele facilmente poderia se envolver nos escândalos financeiros vaticanos. Escândalos financeiros ou sexuais podem arruinar o seu serviço como prefeito.

Mas, se Tagle evitar essas armadilhas, ele será uma escolha óbvia se o conclave quiser que o próximo papa esteja em continuidade com o papa atual, já que seus pontos de vista estão muito sintonizados com os de Francisco. Muitos cardeais eleitores gostarão do fato de que, embora ele seja de fora de Roma, ele também entende a Cúria Romana, por causa do seu trabalho como prefeito, principalmente se ele lidar bem com os abusos sexuais e os escândalos financeiros.

A nomeação de Tagle mostra o desejo de Francisco de ter amigos para apoiá-lo, assim como de ter vozes não europeias no mais alto nível de tomada de decisão na Igreja. Como prefeito, Tagle terá um impacto positivo no papado de Francisco e na Igreja na Ásia e na África.

Ele também poderá ser o primeiro papa asiático da era moderna. Mas, antes disso, ele terá muito a fazer como prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos

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