Tornar-se humano: o projeto ético de Vito Mancuso

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12 Dezembro 2019

"O verdadeiro fundamento da ética é o processo evolutivo do homem, seu crescimento não apenas pessoal, mas também social: a própria humanidade cresce com o desenrolar do tempo. Cada pessoa se torna e pode, ou melhor, deve contribuir para o devir da espécie humana".

A reflexão é de Carlo Molari, teólogo italiano, padre e ex-professor das universidades Urbaniana e Gregoriana de Roma, publicado por Rocca, Nº 23, 01-12-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Livro La forza di essere migliori. (Foto: Divulgação)

“A ética? Mas você sabe o que fizeram? Eles pegaram a ética, a lavaram e depois a estenderam, transformando-a numa chantagem". Segundo Vito Mancuso, essa afirmação sibilina de um anônimo carteiro de Bolonha contém "algo importante". Aqui está a mensagem contida nas palavras do carteiro e traduzida em um programa de reflexão: "Hoje, para a maioria das pessoas, a ética, em vez de ser uma fonte de energia, é percebida como algo que retira energia, porque quando você está bem, sua voz chantageia sutilmente derramando dentro de você todos os males do mundo e murmurando que a culpa é sempre sua: ou porque você é um capitalista ocidental cujo bem-estar se baseia no mal-estar dos pobres do resto do mundo; ou porque você não se empenhou a fundo com pais, cônjuge, filhos e todos os problemas deles dependem de você; ou porque você é um pecador cujo egoísmo não conhece limites, ou sabe-se lá por quais outros motivos. [...]. Recuperar a ética, removendo dela a qualificação de 'chantagem' e restituindo-lhe aquela genuína 'força motriz', só será possível se entendermos o primado dos deveres para consigo mesmo em comparação com os dos outros" (V. Mancuso, La forza di essere migliori, ‘A força de seremos melhores’, em tradução livre, Garzanti, Milão 2019 p. 301 e p. 302).

Em 21 de junho de 2013, Vito Mancuso escrevia no jornal La Repubblica: “Alguns dias atrás, pagando a conta em uma pizzaria em Roma, o caixa me devolveu dez euros a mais. Eu disse a ele que ele estava errado e, olhando para ele, senti em seus olhos a passagem de um olhar de ameaçadora defesa para uma luz particular. Acabou me oferecendo, e a quem estava comigo, uma grappa para comemorar. O que? Os dez euros recuperados? Acredito que algo mais".

Acredito que seja justamente esse algo mais que agora guiou Mancuso a escrever um livro sobre as quatro virtudes cardeais: prudência, justiça, fortaleza, temperança. O livro é dedicado à sua esposa, se eu estiver interpretando as letras J. (Jadranka) K. (Korlat), usadas na p. 7, onde também é indicado o motivo da dedicação na inspiração e na continuidade da proposta (há pelo menos dez anos, ele me dizia que iria escrever um livro sobre as virtudes cardeais). Da conclusão, aprendemos então que sua esposa "leu primeiro o texto datilografado" e deu ao marido "sua resposta habitual, preciosa e insubstituível" (p. 350). A partir dos agradecimentos (p. 349) também se entende a origem singular do livro, que merece ser lembrada por seu valor social. De fato, Vito perguntou ao psicanalista freudiano Stefano Bolognini, "que aceitou com entusiasmo", trabalhar juntos sobre o tema.

Depois, através de sua própria agência, apresentou a algumas instituições de Bolonha o projeto de fazer esse curso em duas vozes sobre as virtudes cardeais. A proposta foi aceita pela Fundação Mast (Manifattura di Arti, Sperimentazione, Tecnologia), uma instituição internacional, cultural e filantrópica, nascida em Bolonha em 2013. Tem como objetivo promover o desenvolvimento da criatividade e do empreendedorismo entre as jovens gerações, também em colaboração com outras instituições, a fim de apoiar o crescimento econômico e social.

Nesse sentido, o centro cria uma ponte entre a empresa e a comunidade em que se localiza. Entre janeiro e abril de 2019, a instituição Mast recebeu em seu salão principal os 400 participantes do curso. A coletânea das aulas ministradas no evento por Vito Mancuso constitui o conteúdo do livro. Responde ao profundo desejo de "oferecer uma contribuição totalmente voluntária para servir a consciência moral, mas fazê-lo em consonância com o espírito de nosso tempo, não com um sentimento hostil, lamentando um passado que não existe mais" (p. 349).

Não pretendo aqui fazer uma revisão do livro, mas ilustrar seu coração: a importância da motivação nas escolhas, A motivação. O nono e último capítulo do denso livro de Mancuso é intitulado: O coração da ética: a motivação (p. 287-313 parágrafos 106 a 115). O título é retomado também no parágrafo 110, que começa com estas palavras: "O verdadeiro problema ético é eminentemente subjetivo e diz respeito à motivação que nos leva à observância, o que Kant chama de ‘força motriz’. O verdadeiro problema ético não é teórico e não diz respeito à inteligência; é prático e diz respeito à vontade, à força motriz" (p. 293).

Ele traça o programa da seguinte maneira: "Recuperar a ética, removendo dela a qualificação de ‘chantagem’ e restituindo-lhe aquela genuína de ‘força motriz’ só será possível se for entendido o primado dos deveres para com si mesmos em relação àqueles para com os outros"(p. 302). "Para redescobrir um fundamento adequado da motivação ética dentro de nós, é crucial, antes de mais nada, adquirir uma consciência adequada do caminho percorrido pelo universo para dar origem à nossa presença, digo de nós, seres vivos, pensantes e capazes de responsabilidade. Assim, entenderemos que estamos realmente na presença de uma emergência ética: entendida não no sentido de um perigo iminente, mas como fenômeno impressionante que emerge de maneira inesperada das profundezas cósmicas, produzindo algo sobre o que ninguém, dadas as condições iniciais, teria apostado nada: um pedaço de matéria que chega a ser dotado de consciência moral!”(p. 303).

"Minha teoria pode ser apresentada de várias maneiras, por exemplo, dizendo que a bondade é melhor que a maldade, a honestidade melhor que a desonestidade, a sinceridade melhor que a mentira, a gentileza melhor que a raiva, a correção melhor que a corrupção. [...] Mas em que sentido digo 'melhor'? Baseado em um critério físico: a vida. Mais precisamente, o meu critério é a vida humana em todas as suas dimensões relativas ao corpo, à psique e ao espírito, entendendo com espírito a faculdade que nos permite eventualmente sermos livres (isto é, conscientes, criativos, responsáveis).

A virtude é o que nos permite praticar a higiene de nossa vida interior e, assim, mantê-la saudável, evitando que o acúmulo de sujeira produza infecções internas comparáveis às cáries que perfuram o esmalte dos dentes, ou pior, às células enlouquecidas dos tumores. A virtude é o mais eficaz sistema imunológico contra os numerosos agentes patógenos que ameaçam a saúde de nossa vida interior. É aquela preciosa energia interior difícil de ser denominada, mas que torna a nossa vida uma existência humana, um estar no mundo humanamente digno" (p. 31).

O parágrafo no. 6 intitulado A minha teoria (p. 30) termina com uma pergunta: “esta teoria é fundamentada? Faz sentido falar sobre uma ética para viver bem? De uma ética para não ficar doente ou para se curar? Existe realmente um poder higiênico e terapêutico da virtude? E se sim, como é exercitado na prática? Responder a essas perguntas é o experimento que pretendo realizar" (p. 31).

O percurso da reflexão termina após 300 páginas: "A ética não pode se fundamentar diretamente na natureza e na ciência que a explica, porque surge precisamente da condição de incerteza que implica uma escolha, de estarmos na encruzilhada. [...] A ética nunca viverá de uma dedução direta da ciência e, nesse sentido do ser, não deriva e não pode derivar diretamente o dever ser" (p. 305). A razão está no devir da espécie humana, na evolução que tem objetivos novos e praticamente desconhecidos. Mancuso esclarece as dinâmicas através dos "dois distribuidores mais autênticos de energia motivacional: a necessidade de cura e o desejo de beleza" (p. 305).

De fato, o verdadeiro fundamento da ética é o processo evolutivo do homem, seu crescimento não apenas pessoal, mas também social: a própria humanidade cresce com o desenrolar do tempo. Cada pessoa se torna e pode, ou melhor, deve contribuir para o devir da espécie humana.

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