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12 Dezembro 2019

Gianfranco Ravasi, cardeal italiano e prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado por Il Sole 24 Ore, 08-12-2019, comenta dois livros: "al-Hallaj Diwan", místico e poeta islâmico, e "Il Professore e il Patriarca. Umanesimo spirituale tra nazionalismi e globalizzazione", de Andrea Riccardi.

A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Al-Hallaj, Diwan (editado por Alberto Ventura)
Marietti 1820,
Bologna, p. 134, € 12

Mística Islâmica. O "Cancioneiro" do poeta e mártir al-Hallaj, um esplêndido texto para ditado poético e comunhão íntima com Deus, expresso com a linguagem do amor. Foi usado como insígnia para algumas agências de viagens e até por um estudo ocultista: é o lema latino Ex Oriente lux, adotado no passado principalmente por estudiosos de semitistica ou arqueologia do antigo Oriente Próximo. Além da obviedade geográfica e da referência mais culta à estrela dos Magos que surgiu no Oriente ou à expressão sol ex Oriente que varre a escuridão dos hereges, presente em um texto do Papa Leão, o Grande (440-461), a fórmula quer exaltar a fecundidade das civilizações orientais, tanto que na Idade Média - com um jogo de palavras – havia sido cunhada a expressão Ex Oriente lux, ex Ocidente Lex. Agora, simbolicamente, gostaríamos de confirmar o ditado latino recorrendo a dois horizontes "orientais" diferentes.

O primeiro é a da mística islâmica, uma atestação que deveria comprometer a visão monocórdica de um mundo muçulmano fundamentalista e legalista. O personagem que destacamos é uma espécie de mártir místico e poético, al-Hallaj, nascido em 857 na Pérsia de um cardador de algodão (em árabe precisamente hallaj, que é, portanto, um sobrenome porque o nome do registro seria Abu'l -Mughith al-Husayn ibn Mansur). Sua vida, no entanto, se realizou no Iraque, primeiro em Basra e depois em Bagdá, sem, no entanto, excluir longas peregrinações não apenas à Meca, mas na Índia e na China.

O fascínio de sua mensagem espiritual acabou criando à sua volta não apenas um círculo de discípulos, mas também de uma cortina rígida de férrea hostilidade. Preso, foi arrastado para uma praça e içado em uma cruz, depois que seus pés e mãos foram cortados e exposto à humilhação pública por um dia e uma noite. Ao amanhecer, foi levado ao cadafalso, decapitado, queimado com óleo e suas cinzas lançadas ao vento de um minarete. Entre suas últimas palavras, há uma frase que o liga idealmente ao Cristo crucificado: "Perdoe-os, porque se tivesse revelado a eles o que me revelaste, eles não fariam o que fazem", uma variante - se quiser - do evangélico "Pai, perdoai-os porque não sabem o que fazem”.

Para conhecer a mensagem dessa figura emocionante, é essencial o seu Diwan ou "Cancioneiro" que um de nossos importantes arabistas, Alberto Ventura (que em 2010 com outros editou uma edição do Alcorão para a Mondadori), traduziu integralmente pela primeira vez em 1987, versão que agora é proposta novamente. Será uma experiência deslumbrante para todos os leitores, também para o esplendor do ditado poético, mas sobretudo para a concepção básica que exalta a íntima, absoluta e mais pura comunhão com Deus, com frequência se aproximando da linguagem amorosa, como costuma acontecer na literatura mística inclusive cristã (basta pensar em João da Cruz ou Teresa de Ávila).

Basta ouvir o mais citado de seus textos: “Seu espírito está misturado com o meu, como o âmbar com o musgo perfumado. Se alguma coisa lhe toca, me toca: não há mais diferença, porque você sou eu”. Metaforicamente, o musgo é natureza humana, enquanto aquela divina é o âmbar. Ou esta outra passagem, reiterando a anterior: "Seu Espírito se misturou ao meu, como o vinho com a água pura. Se algo lhe toca, me toca: você é eu em todos os estados”.

Ventura oferece, justamente, a hermenêutica necessária para impedir que aquela de al-Hallaj (e do sufismo, o movimento espiritual vinculado) sejam lidas como uma proposta imanentista. Essa foi, no entanto, a interpretação que avalizou sua condenação capital: foi, aos olhos dos acusadores, uma horrível blasfêmia contra a total transcendência divina proclamada pelo Islã.

Andrea Riccardi 
Il professore e il patriarca
Jaca Book, Milano, p. 206, € 20

Nosso itinerário à luz do Oriente não pode ignorar que a presença cristã que também foi poderosa e intensa, a partir dos Padres Gregos e Siríacos da Igreja. Uma presença que também toca nossos dias. Muitos se lembrarão da foto em que Paulo VI, durante sua peregrinação à Terra Santa, quase era envolvido em um abraço fraterno pela figura imponente de Atenágoras, o patriarca ortodoxo de Constantinopla.

Bem, um historiador de alto nível como Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio, quis reconstruir outro encontro que ocorreu em Istambul em 1968. O protagonista ainda era Atenágoras, nascido em 1886 e com oitenta e dois anos de idade.

O interlocutor era, dessa vez, um professor francês que em sua juventude havia sido ateu e que havia se aproximado do cristianismo precisamente através da fé ortodoxa de Dostoiévski, Lossky, Berdjaev e assim por diante. Seu nome era Olivier Clément e ele se tornaria um dos mais sugestivos e ouvidos teólogos (também do mundo "laico") do século XX, capazes de irradiar uma espiritualidade ecumênica luminosa, a ponto de João Paulo II o escolher para compor os textos da "Via Crucis” no Coliseu de 1998.

Riccardi reconstrói em um ensaio, que também tem o tom de uma narração, aquele diálogo entre o patriarca e o professor, destinado a chegar a um livro em 1969, a ser reeditado em 1976, com a adição de um retrato completo do interlocutor que, no meio tempo, havia morrido (1972). O ensaio do estudioso romano vai, no entanto, além da representação daquelas "conversas no Bósforo", porque ele esboça um grandioso afresco que, é claro, tem no centro aquele encontro, mas que se ramifica para alcançar todo o panorama histórico, tanto anterior quanto contextual e posterior.

Assim, não pode faltar o Movimento de 1968 dentro do qual Clement opera e se questiona (seu ensaio já era sugestivo no título Dionísio e o ressuscitado), mas também o percurso que o professor faz, transitando criticamente pela Índia, meta reverenciada por aquela geração, até a lux ex Oriente da Ortodoxia, mas também olhando a Florença de La Pira. Somente dessa maneira poderia ser identificado um senso da vida e da história que os diálogos com Atenágoras - cuja vida humana e espiritual é recriada por Riccardi de uma maneira fascinante - teriam aberto e explorado.

É assim que uma nova visão do mundo também floresce e, acima de tudo, que nela se encaixam "Igrejas irmãs e povos irmãos". Aquelas conversas tornam-se quase um prisma interpretativo para reler a história do século passado em sua dimensão espiritual e cultural; são a ocasião para melhor codificar a linguagem poética e poiética (isto é, de beleza e ação, de fé e de obras) do verdadeiro diálogo, são a epifania de um cristianismo não moralista, mas "vida, fogo, transfiguração", ainda necessário na atual atmosfera tão cinzenta, encerrada em nacionalismos mesquinhos e em populismos asfixiados ou no nevoeiro da indiferença.

 

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