EUA. Caso da Diocese de Buffalo mostra o que mais precisa ser feito na responsabilização dos bispos

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05 Dezembro 2019

Christopher Lamb, jornalista, analisa o ofuscamento e a negação que precederam a mais recente cabeça a rolar em decorrência dos escândalos de abuso infantil na Igreja dos EUA.

O artigo é publicado por The Tablet, 04-12-2019. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo. 

Um bispo americano, duramente criticado pela forma com lidou com casos de abuso locais e pela maneira como governou a própria diocese, renunciou.

No dia 04 de dezembro, o Papa Francisco aceitou o pedido de renúncia do bispo de Buffalo, Dom Richard Malone, que se tornou símbolo do enorme fracasso da hierarquia católica em pôr fim à crise de abusos sexuais.

Este caso também revela a fraqueza do sistema de governança clerical, em que um bispo pode se manter no posto apesar de perder a confiança de seu rebanho e até mesmo da Santa Sé. Eu fui o primeiro a revelar, em 13 de novembro, que Malone iria se retirar, após fontes me contarem que o núncio apostólico dos EUA havia concordado com ele o afastamento do cargo. Em resposta, o bispo, através de uma porta-voz, falou: “O tuíte de Christopher Lamb é falso”. Claro está que ele relutou em sair.

Três semanas depois – um espaço de tempo relativamente curto pelos padrões vaticanos – e o papa anuncia a saída do religioso e que um administrador apostólico estará temporariamente à frente da diocese.

Muitos, porém, estão se perguntando por que isso não aconteceu antes.

Sob o comando de Malone, a Diocese de Buffalo, a oeste do estado de Nova York, tem sido perseguida por escândalos, um após o outro, nos últimos dois anos. Os casos de abuso só vieram à luz graças a denunciantes e à imprensa local. A diocese está sendo investigada pelo FBI em casos de abuso sexual e em mais 200 processos civis. Malone tem sofrido críticas por erros cometidos na forma como lidou com padres acusados de condutas sexuais impróprias contra adultos, e em um caso onde restaurou ao ministério um padre acusado.

Uma denunciante falou que descobriu um documento, de 300 páginas, sobre os padres acusados numa sala, próximo a um aspirador de pó, enquanto o bispo não revelou o número verdadeiro de sacerdotes acusados de abuso. O seu ex-secretário, também padre, vazou um áudio em que o bispo admitia ter medo de que tivesse de renunciar em decorrência da maneira como lidou com as acusações de assédios sexuais feitos por seminaristas. Detalhes do escândalo atiçaram a fúria entre muitos na diocese, enquanto alguns padres se viram desiludidos.

As coisas vieram à tona depois que a Santa Sé ordenou uma investigação na Diocese de Buffalo encabeçada pelo bispo da Diocese do Brooklyn, Nicholas DiMarzio, quem ouviu oitenta colaboradores, padres e leigos. Segundo fontes, o relatório da visitação apostólica feito por ele apresenta uma condenação taxativa do trabalho de Malone frente à diocese. O seu texto não deixou escolha se não a de renunciar.

No entanto, o bispo não se mostrou disposto – ou não aceitou – que havia chegado a sua hora de deixar o posto. Mostrou-se determinado a participar da visita “ad limina”, a Roma, no grupo dos bispos de Nova York, onde celebrou uma missa na Basílica de São Paulo Fora dos Muros e se encontrou com o Papa Francisco. Ao voltar para Buffalo, onde foi forçado a sair por uma porta lateral do aeroporto devido à presença maciça da imprensa que o aguardava, declarou que o papa “entende as dificuldades e angústias que temos aqui em Buffalo, e [aquela angústia] que eu, pessoalmente, estou vivendo”. Hoje, o prelado de 73 anos tentou caracterizar a sua renúncia como uma “aposentadoria antecipada”.

Aqui chegamos à raiz do problema.

As estruturas eclesiásticas dão aos bispos um alto grau de autonomia, porém com pouca responsabilização. É somente o papa quem pode contratar ou demitir os bispos, porque na teologia católica o bispo não é o gerente de uma filial da corporação em nível local, mas encontra-se “casado” com a diocese e é também o pai do seu rebanho. A imagem é, antes, de uma família, e menos de uma corporação.

A dificuldade aparece quando as coisas dão errado. No caso de Buffalo, muitos prejuízos acontecerem antes de Roma intervir, mostrando que os procedimentos de responsabilização e os critérios para as escolhas dos bispos exigem um maior empenho. Um papel tripartite dos bispos é o de ensinar, santificar e governar – este último, em particular, requer uma responsabilização.

Neste pontificado, Francisco adotou medidas para destituir bispos negligentes com maior rapidez, incluindo normas procedimentais para responsabilizar superiores eclesiásticos caso eles falhem na maneira como lidam em casos de abuso. Para Malone, a legislação “Vos Estis Lux Mundi”, recentemente instituída, não foi usada para examinar o caso, mas, em vez disso, para analisar o método empregado. Para complicar mais ainda as coisas, uma acusação de abuso foi, depois, feita contra Dom Nicholas DiMarzio, acusação negada com veemência.

Se se quiser restaurar a credibilidade do comando eclesiástico, então os procedimentos para responsabilizar os bispos precisam ser postos em prática, e rapidamente. Ao mesmo tempo, escolher bispos que ponham o serviço em favor do seu rebanho acima de um desejo de se manter no cargo a todo custo é fundamental. A mudança tem que ser tanto estrutural quanto cultural para evitar repetir isso que aconteceu em Buffalo.

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