“Por que vocês têm medo da vida?” Jesus é uma pergunta. Artigo de Massimo Recalcati

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03 Dezembro 2019

"O medo da vida é o verdadeiro, se não o único, pecado que o homem pode cometer. Enterrar o talento, fugir da própria responsabilidade, do próprio desejo, fazer prevalecer o fechado sobre o aberto, a destruição sobre a criação, a morte sobre a vida. É o que Jesus diz, dessa vez não na forma da pergunta, mas da afirmação imperativa: 'Coragem, sou eu, não tenham medo!' (Mc, 6,50)", Massimo Recalcati, psicanalista italiano e professor das universidades de Pavia e de Verona, comenta o livro As perguntas de Jesus do monge do Mosteiro de Bose, Itália, Ludwig Monti, em artigo publicado por la Repubblica, 29-11-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Nos Evangelhos, as perguntas de Jesus prevalecem sobre as respostas. É a surpreendente constatação na qual se inspira o último livro do monge de Bose Ludwig Monti, refinado e radical estudioso das Sagradas Escrituras. A etimologia do termo pergunta vem do grego erotesis, palavra que se refere diretamente ao desejo e força de Eros. O amor, como a pergunta, é, de fato, algo em movimento, dinâmico, vivo. Na pregação de Jesus, não apenas a pergunta assume um valor dominante em relação à resposta, mas o próprio Jesus aparece como a encarnação de uma pergunta. Como escreveu Copenhaver, ele é "a pergunta para todas as nossas respostas".

Nas perguntas de Jesus, Monti afirma, existem "ideias fixas". Perguntas que retornam persistentemente. Por exemplo, a pergunta crucial: "Você já leu?" A relação de Jesus com as Escrituras é indicativa do próprio significado de sua pregação. Ele não lê os textos sagrados como se fossem simples palavras ou relatos que vêm de um tempo passado. Ler as Escrituras não significa acumular conhecimento erudito. A ideia que Jesus tem da leitura é subversiva. Não é lida com os olhos, mas com o coração; por isso que, como Gregório Magno escreveu, "as palavras divinas crescem junto com o leitor".

A leitura não é apenas um exercício intelectual, mas é vivenciar a experiência de um encontro. Esse encontro - o encontro com a palavra das Escrituras - se realmente acontecer, gera uma "conversão" para a aquisição de uma nova forma para a própria vida. “Você nunca leu nas Escrituras?” é a pergunta que Jesus dirige aos que o ouvem para incentivar a ler com o coração. Se não houver coração, ou se o coração ficou "endurecido", não há possibilidade de encontrar a verdade da palavra. Isso significa, como o monge de Bose nos lembra, que a religião nunca deve prevalecer sobre a vida. Se ela carrega em seu étimo latino (religio) o ligar, o enredar, Jesus "sempre libertou e nunca amarrou". A palavra de Jesus está voltada para libertar a vida de todo peso sacrificial, inclusive o religioso. Não se trata de mortificar a vida sob o chicote de uma lei desumana e patibular, mas preencher a vida de vida, tornar-se o "sal da terra". "Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância" (Jo 10,10).

As Escrituras não contêm palavras mortas, palavras fechadas na dogmática religiosa da resposta, mas palavras que pedem para voltar à vida. Outra "ideia fixa" diz respeito à pergunta sobre o medo em relação à vida: "Por que vocês têm medo?", "Por que vocês têm medo, homens de pouca fé?", insiste em perguntar Jesus. O medo da vida é o verdadeiro, se não o único, pecado que o homem pode cometer. Enterrar o talento, fugir da própria responsabilidade, do próprio desejo, fazer prevalecer o fechado sobre o aberto, a destruição sobre a criação, a morte sobre a vida. É o que Jesus diz, dessa vez não na forma da pergunta, mas da afirmação imperativa: "Coragem, sou eu, não tenham medo!" (Mc, 6,50).

E a ideia fixa de Monti? É a de todo autêntico cristão. Pode-se dizer com a pergunta na boca de Legião, o homem possuído pelo demônio que vagava dia e noite entre os túmulos, nas montanhas, gritando furiosamente, batendo-se com pedras: "Ah, que temos a ver contigo? Jesus Nazareno?" (Mc, 1,24).

Monti retoma: "Quem é Jesus para mim?" Essa é a ideia fixa dele. É uma questão de responder a uma pergunta fundamental: "Quem vocês dizem que eu sou?" (Mt 16,13-16). Então, continua o monge de Bose, como em um poema de amor: "O que temos entre nós e você, entre nós e o Nazareno?" Pergunta chave que torna possível ou impossível o evento de Jesus, porque Jesus não foi um simples episódio da história. Se sua palavra e suas perguntas nos questionam hoje, é apenas porque alguém permanece fiel ao evento de sua palavra. Se essa palavra não se esgotou ao longo do tempo, mas repercutiu ao longo dos séculos, é apenas porque alguém sabe responder à pergunta "o que temos entre você e eu?" É a preocupação de Monti: a fé não repousa em uma dogmática, mas no testemunho.

Por esse motivo, a paixão pela pergunta de Jesus não é a mesma de Sócrates. A maiêutica socrática tende a fazer aflorar da latência uma verdade já existente. Diversamente, a palavra de Jesus impõe uma relação diferente com a verdade, porque a verdade não está na ordem da demonstração, mas do testemunho, do encontro com um amor novo.

Ludwig Monti é, acima de tudo, um apaixonado por Jesus; ele não procura Jesus para ter benefícios ou vantagens, mas apenas para encontrá-lo. Ele quer permanecer fiel ao evento. Esta é para ele a única pergunta que importa: "Qual é a tua relação com Jesus? Quem é Jesus para ti?".

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