Poderosas abadessas medievais

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26 Novembro 2019

Mulheres, o futuro de Deus? Em uma sociedade sob domínio masculino, entrar em um convento significa ter um espaço de liberdade para as mulheres. Quanto ao poder, parece reservado a jovens de alta linhagem chamadas a governar, espiritual e temporalmente, florescentes abadias.

A reportagem é de Emmanuelle Giuliani, publicada por La Croix, 22-11-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Leva o belo nome de Fidelma de Kildare. Nascida da imaginação do romancista Peter Tremayne, essa religiosa da igreja do século VII brilha pela inteligência e competência no direito civil e criminal, uma sagacidade que lhe permite resolver vários casos policiais. Uma personagem da ficção, é claro, mas cujas aventuras historicamente muito documentadas tiram em parte o véu que encobre a condição de mulheres - ou pelo menos de algumas delas - no cristianismo medieval.

Sem chegar ao ponto de afirmar que a vida religiosa é sinônimo de liberdade para o chamado sexo fraco, a questão da emancipação das mulheres nos conventos medievais merece ser abordada.

Temperando, dessa maneira, a nossa representação contemporânea (vamos pensar na La Religieuse de Diderot) de fechamento monástico opressivo, destinado a afastar a pecadora potencial - Eva, e não Maria - de uma sociedade que a considera um ser inferior e impuro. "Em uma Idade Média muito patriarcal, a mulher é 'controlada' passando da tutela do pai para àquela do marido ou do irmão mais velho, observa Jacques Dalarun, historiador e diretor de pesquisa do CNRS. Assim, parece-me que o mosteiro pode se tornar para ela um enclave de relativa realização, certamente em um local fechado. Mas um fechamento que, mais que uma prisão, é uma proteção contra os perigos".

Na hierarquia do convento, a função da abadessa e as prerrogativas reservadas a ela são destinadas a mulheres da "alta sociedade", "um negócio para grandes damas, rainhas e princesas que às vezes trazem ao convento dotes consideráveis", continua o historiador. Essas mulheres são excluídas do presbiterado e, portanto, têm necessidade dos homens para as celebrações eucarísticas e sacramentais, mas adquirem um verdadeiro destaque. "Eles administram grandes propriedades, exortam as irmãs e podem estar na origem de uma extraordinária produção artística e intelectual".

Vamos lembrar a personalidade de Hildegard de Bingen (1098-1179), "a grande abadessa renana do século XII, grande mística, mas também erudita estudiosa racional, cuja autoridade e prestígio foram muito fortes em sua época", como ressaltava o medievalista Jacques Le Goff em uma entrevista publicada no La Véritable Histoire des femmes. Com seus talentos como herborista, suas composições musicais e seus escritos literários, Hildegard, fundadora de diversas abadias, impõe-se como uma figura importante no pensamento medieval. Ela seria canonizada em 2012.

Outro espírito excepcional, cujas aventuras sentimentais às vezes fazem esquecer sua sabedoria, Heloisa (por volta de 1092-1164), abadessa clarividente do Paraclet em Champagne, garantiu sua prosperidade espiritual, intelectual e material por 35 anos, como verdadeira "manager" e também de notável pensadora política.

E depois, dois séculos mais tarde, Catarina de Siena (1347-1380), respeitada doutora da Igreja, negociadora da paz entre o papa então em Avignon e a poderosa cidade de Florença.

"Embora os grandes edifícios monásticos tenham sido construídos principalmente por homens, observa Béatrice de Chancel-Bardelot, curadora do Museu Cluny em Paris, e embora 90% dos santos até o final do século XII fossem homens, exemplos de fundações femininas merecem toda a nossa atenção". A pesquisadora trabalhou em particular sobre a figura de Jeanne de Grance, filha do rei Luís XI. Separada do marido, Luís XII, quando este sobe ao trono, cria a ordem franciscana de Annonciade em Bourges, “graças à intercessão de seu confessor que foi defender a causa junto ao papa - explica Béatrice de Chancel-Bardelot. Honrando as dez virtudes e alegrias da Virgem, trata-se de uma ordem não dolorista. Mais tarde, outros conventos da mesma ordem foram fundados especialmente no sudoeste da França”.

Nessa antologia, a abadia de Fontevraud aparece como um "caso" a parte. Os estatutos estabelecidos por seu fundador, Robert d'Arbrissel, estabelecem que a ordem será dirigida por uma mulher - a primeira abadessa é Petronille de Chemillé - que tem autoridade sobre as religiosas e os religiosos. "É claramente afirmado por Robert que a abadia de Fontevraud será sempre posta sob a direção feminina, ressalta Jacques Dalarun. Além disso, a abadessa deve ser eleita pelas coirmãs e escolhida entre as conversas e não entre as virgens. Robert prefere o governo de uma mulher que conheceu o mundo e, portanto, será mais capaz de exercer um governo competente, tanto no âmbito espiritual quanto temporal".

Mesmo sem tê-lo provado cientificamente, o historiador expressa uma hipótese sedutora e muito plausível sobre o papel político dos conventos femininos, em especial na Itália, onde as grandes cidades estão frequentemente em conflito por acertos incessantes e desestabilizadores entre famílias inimigas. "É impressionante ver representantes dessas famílias antagônicas vivendo, podemos imaginar, em bom acordo, nos mesmos conventos. Aquelas religiosas podem então exercer uma função pacificadora cujos benefícios se estenderiam mesmo fora do convento".

Mesmo sem assumir uma visão idílica, as pesquisas históricas tendem a revalorizar o lugar das mulheres na organização eclesial medieval. Para Jacques Le Goff, o século XIX e seus valores burgueses foram muito mais repressivos que o Ancien Régime: "Na Idade Média, existem essencialmente nobres e camponeses. Não são os mais duros contra as mulheres". 

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