“O poder capitalista nunca foi tão frágil como agora. É uma panela fervendo”. Entrevista com Antonio Negri

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22 Novembro 2019

Na entrevista abaixo, o pensador e cientista político Antonio Negri aborda questões atuais sobre a construção política e estratégias atuais para os movimentos sociais: da nova conformação da governança europeia à guerra contemporânea, da centralidade da “justiça climática” à necessidade de determinar formas de contrapoder e organização política transnacional.

A entrevista é de Marco Baravalle, publicada por El Salto, 20-11-2019. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Recentemente, você publicou um artigo chamado “Europa e nós”. Inicia fazendo uma avaliação das últimas eleições europeias, que contribuem para dar um salto qualitativo na governança e que se inserem nessa fase histórica caracterizada pelo Brexit, os populismos e Trump. Qual é o significado desta última fase europeia?

Houve uma mudança de perspectiva. Se até agora os estados nacionais tinham sido fundamentais na construção da Europa, hoje, esta se torna fundamental na determinação e liderança dos Estados nacionais. Dito nesses termos, a coisa parece pouco realista, mas não é, em absoluto.

Existe uma classe política europeia que no processo está estabilizada, utilizando as diferentes ferramentas que foram construídas com uma perspectiva federal para a Europa e que sempre foram utilizadas para uma orientação fortemente neoliberal, tanto nos orçamentos, como na gestão do modo de vida europeu. Esse período de “promoção” para cima das elites nacionais acabou. Hoje, existe uma classe política europeia, um ponto de vista europeu que precede os outros.

Diria que, deste ponto de vista, a crise de soberania e a do Brexit devem ser bem-vindas. Demonstram que não poderíamos a não ser permanecer juntos na Europa e, assim, consolidar os instrumentos centrais.

Dito isto, trata-se de abrir novamente o discurso. O discurso não é: “aceitamos a Europa como ela é”. O problema é diferente: não podemos prescindir deste campo europeu para avançar e lutar por nossos ideais. Hoje, temos que avançar nesse campo político, e isso é necessário para obter mais direitos, mais salários, mais liberdade.

Ainda está por vir um movimento totalmente europeu e radical, embora, do nosso ponto de vista, o que ocorre no campo da justiça climática é potencialmente isto: um movimento que, até onde vimos, está ciente de que o espaço da intervenção para um desafio tão grande é no mínimo continental ou, caso contrário, esse espaço não pode existir. Do seu ponto de vista, analisou muito de perto o movimento dos ‘Coletes Amarelos’ na França. Como podemos construir formas de movimento transnacionais? Por outro lado, que desafio para os movimentos essa irreversibilidade da governança europeia apresenta?

O certo é que somente no campo europeu será possível, de agora em diante, fazer política. Já não se faz política fora desse campo. Isso é algo que deve ser explicado de maneira absolutamente massiva. Fora do campo europeu, não se faz mais que fanfarrice. Por isso, todas as posições que até ontem pareciam libertadoras – pela esquerda - contra a Europa, parecem-me completamente inúteis e destinadas a perder. Os movimentos, como de costume, se encarregam de dar esse passo à frente, descartando o que é retórico e inútil.

Como construir esse movimento? Como dar a esses movimentos - por exemplo, sobre o aquecimento global - a capacidade de se movimentar e construir uma força política efetiva? Penso que o trânsito é muito difícil e exige de nós um enorme esforço. E também acredito em outra coisa: que somente no campo do contrapoder é possível definir esse trânsito.

Não podemos pensar em transformar a classe política europeia em uma classe política “limpa”. Não devemos limpar a Europa, do ponto de vista do clima ou dos inumeráveis problemas que se abrem. Simplesmente, precisamos estabelecer uma relação de forças com o capitalismo que se organizou em torno da Europa. Devemos construir contrapoder neste âmbito. Estabelecer contrapoder significa, como sempre, voltar a abrir a chave da qual capital se serve para buscar nos trancar.

O capital sempre tem duas cabeças: é poder de comando, mas sempre precisa sofrer a resistência daqueles que produzem. E, neste campo, devemos abrir o contrapoder, impor novas vias de desenvolvimento. Obviamente, isso se aplica à justiça climática, mas também a muitos outros aspectos, em particular ao problema da igualdade e - algo que não é secundário -, ao da guerra, porque, quando está em perigo, o capital sempre se lança na guerra. Veja o que faz Erdogan: com a trama turca em crise, recorreu à guerra imediatamente.

Com Michael Hardt, brincamos e dizemos que nosso próximo panfleto levará o nome do lema que Lenin estabeleceu para os sovietes de 1917: pão, terra e paz. E, de fato, o pão é o problema da igualdade, a terra - entendida não como land, mas como earth - é o problema da justiça climática; e a paz...

Você antecipou minha pergunta seguinte, que tem a ver com a Turquia e Rojava, que para muitas e muitos foi um farol nos últimos anos. Um exemplo de revolução com uma tendência não estatal, laica (em uma região atormentada como o Oriente Médio), ligada à ideia de Confederalismo Democrático. O que pode acontecer agora na região?

O que foi extremamente importante em Rojava - para aqueles que estudaram por muito tempo os escritos de Öcalan, que é tudo menos um escritor de contos - é o ataque à soberania, ao papel do “pai” e da propriedade, a esses três fetiches A organização só pode ocorrer nesses termos, quando consegue criar instituições não soberanas, não patriarcais e não proprietárias.

São coisas que Rojava viu nascer. Tentarão destruir, mas é algo que permanece nos corpos e nos corações de milhões de pessoas. E acredito que se trata de avançar nesse campo. Mencionávamos antes a fórmula de Lenin, agora temos a de Öcalan. Parece-me que a intersecção na construção de movimentos é essencial e só pode se basear nessas três coisas, nesses três “não” explosivamente criativos, nos quais devemos traçar linhas estratégicas.

Voltando ao seu artigo sobre a Europa, sabemos que não é uniforme. Você fala de três áreas que correspondem a muitas áreas políticas: o norte da Europa, liderado pelos alemães, o Bloco de Visegrado e a Europa mediterrânea, com Macron, na medida do possível, como “porta-bandeira” de uma nova hipótese de “esquerda autoritária”. O que acontece nessa divisão e que desafios nos apresenta?

Estou bastante convencido de que o Bloco de Visegrado será gradualmente demolido, restando algumas peculiaridades, por parte do “bloco central” - e isso começou com a perda de Budapeste e outras cidades importantes. Por sua vez, o “bloco central” terá que encontrar uma forma de renovação e dinamismo interno, terá que ir além do ordoliberalismo que os alemães impuseram até agora.

Deste ponto de vista, o que acontecerá no sul da Europa é extremamente importante. Em Portugal e Espanha, na França, na Itália e na Grécia enfrentamos uma situação terrivelmente difícil, porque não há mais forças políticas que, de certo modo, possam “nos dar uma mão”. Sempre fui a favor de considerar as forças políticas como o que são, sem nunca me confundir com elas do ponto de vista da autonomia, mas sempre reconhecendo que existem e que devemos lidar com elas. E agora estamos em uma situação extremamente difícil.

Qual é o caminho? Não podemos traçá-lo, mas podemos dizer uma coisa: o poder capitalista nunca foi tão frágil como agora. É uma panela fervendo. Por enquanto, só ouvimos o "glu, glu, glu". Não sabemos se tanta fervura acabará explodindo, mas sabemos que dentro dessa fragilidade temos que construir contrapoder. E só na medida em que construamos contrapoder, será possível apontar um caminho institucional a percorrer e poderemos abrigar esperanças em um processo de libertação. Mas, é preciso insistir nisso: tem que explodir!.

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