Mulheres e Igreja: uma conexão crucial que se perdeu no Sínodo Amazônico

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03 Novembro 2019

"Embora tenha havido alguns sinais de esperança na inclusão das vozes das mulheres e no reconhecimento de alguns homens de que as mulheres precisam de uma maior participação na Igreja, o Sínodo deste ano nos obriga a perguntar: a Igreja Católica pode realmente ajudar os povos da Amazônia a se libertarem da discriminação, da opressão e da violência de gênero, ao mesmo tempo em que continua replicando o mesmo modelo patriarcal fundamental de injustiça nas suas próprias estruturas."

O comentário é de Jamie L. Manson, mestre pela Yale Divinity School, onde estudou teologia católica e ética sexual, publicado por National Catholic Reporter, 01-11-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Nos últimos dias do Sínodo Amazônico, houve um pequeno protesto em frente ao Castel Sant’Angelo. Sete membros da Women’s Ordination Worldwide (WOW) exibiram um cartaz com a seguinte frase: “Mulheres empoderadas salvarão a Igreja. Mulheres empoderadas salvarão a Terra”.

É claro que eu conheço bem essas mulheres e as suas manifestações romanas. Eu caminhei em protesto com elas ao longo da Via della Conciliazione e, no ano passado, comentei seu confronto com a polícia romana quando se posicionaram do lado de fora da Praça de São Pedro, exigindo com ousadia que as mulheres pudessem votar no Sínodo.

Embora a manifestação deste ano tenha sido mais breve e menos dramática do que nos anos anteriores, a mensagem delas falou uma verdade que às vezes era apenas aludida e, na maioria das vezes, evitada durante todos os briefings com a imprensa dos quais participei durante o Sínodo.

Essas mulheres fizeram uma conexão crucial que a maioria dos participantes do Sínodo tinha muito medo de fazer ou estava inconsciente a esse respeito. Ou seja, que o genocídio cultural infligido contra os indígenas, o sofrimento singular das mulheres na região e a destruição catastrófica da Amazônia estavam todos enraizados na crença patriarcal na superioridade dos homens.

“O apelo à justiça ecológica não pode ser separado do apelo à igualdade espiritual e sacramental”, disse a WOW em um comunicado.

Elas estão exatamente certas. Embora a palavra “patriarcado” muitas vezes gere calafrios ou suspiros, a sua definição é bastante simples. O patriarcado é qualquer sistema no qual os homens detêm o poder, e as mulheres são amplamente excluídas dele. Em uma estrutura patriarcal, homens poderosos dominam as mulheres, as crianças, a natureza e às vezes outros homens.

A sujeição dos povos nativos e o esforço de apagar a sua identidade cultural, as suas tradições e práticas, e as suas terras ancestrais estão todos enraizados na crença na superioridade dos homens brancos.

Os níveis desproporcionais com os quais as mulheres sofrem com a pobreza, a violência, o abuso e a falta de instrução são uma consequência direta da ideologia sexista.

A devastação dos recursos vivificantes fornecidos pela nossa Terra é um resultado direto da ideia patriarcal de que os homens têm o direito ao domínio total sobre a natureza para sua própria gratificação.

Durante o mês passado, enquanto eu estava em Roma, ouvi com frequência os Padres sinodais lamentarem o tratamento degradante da Amazônia e dos indígenas da região, principalmente das mulheres. No entanto, nenhum deles parecia consciente do fato de que, na raiz de todo esse sofrimento, está a ideia fundamental de que homens e mulheres não são iguais – a própria ideologia que eles perpetuam em sua rígida insistência de que as mulheres não são dignas da ordenação, da liderança e do poder decisório na sua própria Igreja.

Como disse Miriam Duignan, porta-voz do WOW, sucintamente, “as consequências dessa injustiça maciça são de grande alcance para além da Igreja”.

Obviamente, não é que as mulheres do Sínodo – que, em um flagrante ato de patriarcado, tinham voz, mas não voto no encontro – não tenham repetido insistentemente sugestões e lembretes disso.

No mesmo dia do protesto da WOW, Judite da Rocha, coordenadora nacional do Movimento das Vítimas de Barragens, do Brasil, fez comentários na coletiva de imprensa diária do Vaticano que fizeram claramente a conexão entre o sexismo e o tratamento dado às mulheres e às terras amazônicas.

“Há a sensação de que os homens cuidam da Terra, e as mulheres cuidam dos detalhes”, disse Rocha.

Ela disse que essa disparidade de papéis gera violência doméstica, assédio sexual e exploração.

“As mulheres e o seu trabalho são assumidos como óbvios”, disse ela, e muitas vezes elas nem ganham um salário mínimo pelo seu trabalho.

Em uma coletiva de imprensa no dia seguinte, a Ir. Roselei Bertoldo falou sobre o seu trabalho com as mulheres que são traficadas, outro flagelo que mulheres e crianças enfrentam como resultado da crença patriarcal de que seus corpos existem para a gratificação dos homens.

Durante as perguntas e respostas, a sua voz profética emergiu, enquanto ela dizia à mídia que “quem vai aos lugares mais remotos da Amazônia, que permite que o processo de evangelização ocorra, são as mulheres”.

A voz que as mulheres tiveram neste Sínodo “não é o resultado do nosso silêncio”, disse ela.

“Nós somos a Igreja e fazemos a Igreja”, continuou ela. “Pedimos para participar de forma mais eficiente no nível da tomada de decisões. Estamos começando este caminho. Não ficaremos quietas. Queremos espaço e estamos começando a construir esse espaço.”

Bertoldo, irmã missionária do Imaculado Coração de Maria, disse que elas tentam realizar o seu ministério com os homens, mas, “em algumas áreas, há aberturas, em outras, há menos”.

Essa irmã estava dizendo dentro da Sala sinodal aquilo que as mulheres da WOW estavam dizendo do lado de fora das suas paredes.

“Não haveria Igreja na Amazônia se não fosse pelas mulheres”, disse Duignan. “É uma questão de justiça urgente que o papel que as mulheres estão desempenhando seja reconhecido.”

Embora alguns dos clérigos nessa mesma coletiva de imprensa, como o bispo boliviano Ricardo Ernesto Centellas Guzmán e o cardeal indiano Oswald Gracias, tenham falado da necessidade de uma maior participação das mulheres, nenhum deles deu a impressão de que as mulheres seriam ou deveriam ser vistas como iguais aos olhos da Igreja.

Essas pequenas aberturas dadas às mulheres nos briefings de imprensa foram escritas em grande escala no documento final do Sínodo, que recomenda a ordenação de homens casados na região amazônica, mas continua discutindo se o diaconato para as mulheres deve ser reinstituído.

Essa questão terá que voltar à pauta. O Papa Francisco, em declarações imediatas após o Sínodo, disse que “tentaria” reagrupar a sua comissão sobre o estudo da história das diáconas.

Não é de se admirar, é claro, que os homens casados tenham recebido alguma justiça nesse Sínodo, enquanto as mulheres tiveram que escutar, mais uma vez, para esperar e ser pacientes, enquanto os homens deliberam e decidem o destino delas. Se alguma mulher tivesse direito a voto, teria sido esse o resultado?

Os trabalhos desse Sínodo foram, pelo menos de certa maneira, um reflexo perfeito do motivo pelo qual as mulheres continuam sofrendo na Amazônia.

Do mesmo modo que o trabalho das mulheres na terra é assumido como óbvio e explorado com a ausência de um salário mínimo, o trabalho das mulheres de construir a Igreja é explorado por homens que se recusam a reconhecer o trabalho delas no ministério sacerdotal.

Embora tenha havido alguns sinais de esperança na inclusão das vozes das mulheres e no reconhecimento de alguns homens de que as mulheres precisam de uma maior participação na Igreja, o Sínodo deste ano nos obriga a perguntar: a Igreja Católica pode realmente ajudar os povos da Amazônia a se libertarem da discriminação, da opressão e da violência de gênero, ao mesmo tempo em que continua replicando o mesmo modelo patriarcal fundamental de injustiça nas suas próprias estruturas?

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