A sedução das máquinas. Entrevista com César Hazaki

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01 Novembro 2019

Embora vários argumentem que Years and years, a série distópica, almeja evitar que o futuro apocalíptico que revela se torne realidade, de qualquer modo, a degradação na qual o mundo está submerso é diretamente proporcional à deterioração da família protagonista, os Lyons. Nesse futuro próximo (2024-2029), todas as principais crises atuais - o aquecimento global, o Brexit, as notícias falsas, a guerra comercial entre Estados Unidos e China, o desenvolvimento dos partidos de ultradireita e as crises migratórias - são levadas aos piores resultados possíveis.

Obviamente, os avanços tecnológicos e os dilemas que eles geram não são deixados de fora dessa distopia. Como é o caso de um dos personagens mais jovens, Bethany Bisme-Lyons, uma adolescente que, não satisfeita com a loteria biológica, torna-se transumana e sonha em viver para sempre transformada em dados e habitando a nuvem.

Recentemente, a desenvolvedora de software Amie DD foi notícia por ter implantado um chip RFID que lhe permite abrir seu carro Tesla Model com um simples movimento do braço.

Há anos, o psicanalista César Hazaki estuda e escreve sobre o assunto. Seu último livro, Modo cyborg. Niños, adolescentes y familias en un mundo virtual (Topía), analisa a aposta tecnológica do capitalismo, as consequências da hibridização entre os seres humanos e as máquinas e como a velocidade das mudanças transforma as regras do jogo. A esse respeito, o autor conversou com a Revista Ñ em seu consultório.

A entrevista é de Bibiana Ruiz, publicada por Clarín-Revista Ñ, 30-10-2019. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Seu livro é crítico, mas nada pessimista. Como interpretar o presente e o futuro de uma forma positiva?

A ideia do livro não é um beco sem saída, não é um apocalipse que indique que estamos perdidos. Muito pelo contrário, aponta para a denúncia, para tentar colocar nome nas coisas e sobre esses nomes poder simbolizar o mundo. Se alguém não simboliza o mundo em que vive, não pode pensá-lo. É preciso começar a trabalhar.

Por que você acha tão difícil formular conceitos críticos?

Primeiro, porque há um retrocesso do pensamento crítico. Segundo, porque há muitas pessoas que ainda acreditam que, com sistemas de pensamento anteriores a isso que nos avassala com a velocidade que nos conduz, podem explicar o que está acontecendo e, na realidade, atrasam. Existem coisas do pensamento anterior que todos nós usamos, mas atrasam porque isso é totalmente diferente, tem outras qualidades. Por isso, não é algo que possa ser pensado por uma única pessoa, ou dez. Eu insisto em convocar uma massa crítica.

E terceiro, nós, que estudamos essas coisas, temos um problema muito sério, que é a velocidade com que esses fenômenos acontecem. Quando estamos prestes a agarrar a perna traseira do coelho, rapidamente, o mesmo deu um salto e o temos novamente dez metros à frente. Então, o trabalho de pesquisa é sobre um objeto muito móvel. Tampouco é o caso de fazer o que os luditas fizeram quando o capitalismo começou. Hoje, as máquinas não podem ser quebradas. Nós vivemos neste mundo de máquinas. O que acontece aqui é que os donos das máquinas são um grupo muito pequeno de bilionários que se apropria do mundo dessa maneira.

Ir contra os que estão por trás das máquinas é a questão, ver o que estão fazendo, por que estão fazendo, para que serve, mas não dizer que as máquinas não servem. Nunca a humanidade - exceto em uma grande catástrofe - pode retroceder em cinquenta anos. É preciso saber usar, trabalhar, saber que se seremos ciborgues, que sejamos ciborgues com pensamento crítico, não ciborgues medíocres conduzidos como em Admirável Mundo Novo, não por meio de um comprimido, mas de imagens.

Você menciona que vivemos em uma onda tecnofílica. A que se refere?

É preciso pensar por que isso aconteceu. Primeiro, porque há uma grande sedução: os públicos, os usuários estão apaixonados pelas máquinas. Essa paixão faz com que sobretudo os telefones celulares se transformem em fetiches. São como trevos de quatro folhas, como pé de coelho, que se está na mão, irão trazer notícias extraordinárias. E a realidade é que isso não ocorre.

O exemplo está nos encontros sexuais, na quantidade de pessoas que entram em depressão porque não recebem os likes que precisam. Ou seja, existe um nível importante de frustração, mas mesmo assim o fetiche tecnológico funciona como algo que completa tudo aquilo que nos falta. Por aí, uma grande sedução é exercida, mas os milhares de milhões de postagens de fotos e vídeos que não têm qualquer possibilidade de relevância fazem com que a vida se torne mais insignificante. Então, como modelo atraente – adereço novo que já não é mais tanto, mas, ao mesmo tempo, sim, é e haverá mais em muito pouco tempo - deu um salto enorme.

Outra coisa que conseguiram fazer é que o único objeto do capitalismo que está quase tão distribuído como a quantidade de seres humanos são os celulares. Não há outra coisa. Nem todo mundo tem um carro, um quadro ou uma máquina de lavar. Ou seja, conseguiram um objeto que se tem acesso com relativa facilidade. O que nós não conseguimos entender é que o custo que pagamos por isso não é o valor do celular, pagamos por isso a entrega de todos os nossos dados.

Essa é a aposta tecnológica do capitalismo, que você fala no livro.

Sim. Parece gratuito postar uma foto, mas é muito caro, porque os algoritmos acabam sabendo antes de mim o que eu preciso, e me oferecem. Não sei se necessito, mas posso ter certo desejo. E é isso que faz com que seja um ótimo negócio e um grande suporte ao sistema, porque é a maneira como o consumismo é o modelo predominante no mundo, embora a maioria das pessoas não possa consumir. Mas, o consumo imaginário, sim, existe. Então, se eu tenho um dispositivo para poder consumir imaginariamente, o algoritmo irá me oferecer algo de acordo com determinada circunstância, e essas máquinas fornecem uma situação de pertença ao consumismo.

Você acredita que as pessoas percebem esse uso de seus dados e o controle permanente?

A percepção provavelmente exista, mas para fazer algo, seria necessário começar a romper esse estado de sedução em que estamos, e isso, por alguma razão, ainda não aconteceu.

Mas esses estados de sedução nunca duram para sempre. O que acontece, então, neste caso?

Para sair dos estados de sedução, precisa ocorrer crises, diferentes formas de crise. Sair do estado de sedução das máquinas é sair do estado da parte mais hegemônica do capitalismo. Porque alguém pode ficar sem trabalho ou trabalhar em condições paupérrimas, e não consegue imaginar que exista outra forma de organização social ou de grupo que permita estabelecer ou plantar sementes em outra direção.

O capitalismo ainda é uma condição hegemônica em relação a qual não existem formas, modelos ou grupos de grande resistência que digam, falem ou proponham modelos diferentes. E a tecnologia é a prótese perfeita para esse modelo de suportar este mundo, adaptando-se ao serviço do senso comum, que é a maneira mais medíocre de aceitar o mundo hoje. Não é possível pensar outro mundo se não há uma crise e pensadores que, ao mesmo tempo, apresentem algumas chaves para que possamos avançar de outra maneira.

O transumanismo é uma forma de suportar o mundo?

O ano de 2045 é apresentado como o ponto em que as máquinas poderão realizar qualquer trabalho humano. Eu entendo o transumanismo como a fase para a qual o capitalismo se dirige, nesta ideia de se apropriar de tudo, mas, ao mesmo tempo, de destruição do planeta, sem que se possa viver nele. Entendo o transumanismo como a ilusão da imortalidade sob determinadas condições que possam se dar aqui ou em outro planeta. Reaparece a ideia de imortalidade sob um conceito muito novo na história, que se alcance por meio de dispositivos técnicos o que o imperador acreditava que conseguiria fazendo uma pirâmide, a imortalidade. Os transumanistas não pensam em nada além de que estarão de corpo presente, ou seja, estarão como máquina e descartando o degradado, o corpo. A ilusão transumanista é essa, continuar quase perdendo o biológico e se tornando cada vez mais um ciborgue, máquinas inteligentes que funcionam se autoreproduzindo por sua própria capacidade de inteligência.

Nota da IHU On-Line: O Instituto Humanitas Unisinos – IHU promove o seu XIX Simpósio Internacional. Homo Digitalis. A escalada da algoritmização da vida, a ser realizado nos dias 19 a 21 de outubro de 2020, no Campus Unisinos Porto Alegre.

XIX Simpósio Internacional. Homo Digitalis. A escalada da algoritmização da vida.

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