A Amazônia e a doutrina eclesial: desenvolvimento verdadeiro e desenvolvimento aparente. Artigo de Andrea Grillo

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • O testamento de Dom Jacques Noyer, bispo francês. “O celibato eclesiástico é uma falsa aventura”

    LER MAIS
  • “O pior de tudo em Manaus é a sensação de impotência”

    LER MAIS
  • As grandes mulheres por trás das vacinas contra o Covid

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


30 Outubro 2019

“O desenvolvimento da doutrina, no qual se inspira a elaboração sinodal e a interpretação papal de hoje, não é de modo algum comparável com a ousada mediação diplomática desejada pelo Papa Bento XVI em relação aos bispos lefebvrianos cismáticos e que havia suscitado tantas justas perplexidades na comunhão episcopal, pressagiando, já à época, a ineficácia daquele gesto.”

A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, em Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Justina, em Pádua. O artigo foi publicado por Come Se Non, 28-10-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O documento que encerrou a assembleia especial do Sínodo dos Bispos, dedicada à Amazônia, despertou um amplo interesse em torno do desenvolvimento da doutrina e da disciplina eclesial.

Em relação às posições mais extremas, daqueles que não podem conceber qualquer variação da disciplina e da doutrina eclesial, sem gritar imediatamente ao escândalo e à traição, é justo ressaltar, até mesmo com força, que a tradição prevê, estruturalmente, uma atualização das normas disciplinares e também das formulações doutrinais. A continuidade da tradição exige, de modo estrutural, uma atualização. A continuidade inclui e reclama sempre algumas necessárias descontinuidades.

Até mesmo as publicações jornalísticas oficiais, como é o caso do Vatican News, podem desempenhar um papel valioso nessa obra de informação. Nesse sentido, também circulou nessa terça-feira o artigo de Sergio Centofanti, intitulado “O desenvolvimento da doutrina é um povo que caminha unido” [disponível aqui, em italiano].

Também faz parte das estratégias comunicativas mais afirmadas tentar citar textos dos “antecessores de Francisco” para valorizar as escolhas do atual pontífice. Repito, isso também é possível, às vezes oportuno e às vezes até necessário. Depende apenas de quais são as fontes escolhidas.

Neste caso, lendo o texto do artigo, deparei-me com uma citação tão curiosa quanto mal escolhida. Relato aqui as palavras do artigo, que podem ser lidas precisamente em suas linhas iniciais:

“São significativas a esse respeito as palavras de Bento XVI na Carta escrita em 2009 sobre o caso da remissão da excomunhão dos quatro bispos consagrados pelo arcebispo Lefebvre, fundador da Fraternidade Sacerdotal São Pio X: ‘Não se pode congelar a autoridade magisterial da Igreja no ano de 1962 – isso deve ficar bem claro para a Fraternidade. Mas, para alguns daqueles que se assinalam como grandes defensores do Concílio, também deve ser reevocado à memória que o Vaticano II traz consigo toda a história doutrinal da Igreja. Quem quer ser obediente ao Concílio deve aceitar a fé professada ao longo dos séculos e não pode cortar as raízes das quais a árvore vive’.”

Se quisermos apoiar o caminho de um Sínodo e a obra de atualização de um papa, não podemos citar um texto tão condicionado por uma difícil e paradoxal mediação com aqueles que precisamente negam toda mudança possível.

Nesse texto, que aqui é citado com desenvoltura demais, o Papa Bento XVI tentava assegurar uma saída e esperava uma reconciliação, com aqueles que defendiam abertamente a negação do Concílio Vaticano II, como precisamente os quatro bispos lefebvrianos dos quais ele havia removido a excomunhão. Mas, enquanto negava a possibilidade de congelar a atividade magisterial em 1962, ao mesmo tempo, ele contribuía com tal congelamento, afirmando a vigência contemporânea de dois ritos não harmonizáveis entre si.

O desenvolvimento da doutrina, no qual se inspira a elaboração sinodal e a interpretação papal de hoje, não é de modo algum comparável com essa ousada mediação diplomática desejada pelo Papa Bento XVI em relação aos bispos cismáticos e que havia suscitado tantas justas perplexidades na comunhão episcopal, pressagiando, já à época, a ineficácia daquele gesto.

Com efeito, não se pode garantir a tradição da Igreja dizendo, ao mesmo tempo, duas coisas opostas: se se diz que não se pode congelar o magistério, mas depois o próprio magistério abre o congelar e pretende conservar, a -20 graus, o rito que o Concílio pediu explicitamente para reformar, não se obtém nenhum outro resultado do que o de paralisar a tradição litúrgica e de desautorizar o magistério pós-conciliar.

Muitos outros textos de Bento XVI poderiam ter sido citados para justificar, de modo razoável e cristão, a evolução da disciplina e da doutrina eclesial. Nesse sentido, o autor do artigo também se moveu com razão e, após esse início infeliz, citou muitos outros exemplos, muito mais convincentes, retirando-os da longa história da doutrina cristã.

Por sua vez, parece bastante curioso que, no início – com uma retomada que também aparece no fim –, tenha-se querido citar precisamente um texto que, já pelo seu teor literal, introduz, de fato, uma imobilidade formal na tradição. E se, para uma carta escrita como justificativa da remissão de quatro excomunhões, aquelas palavras podiam até ser parcialmente admissíveis, eu absolutamente não vejo como se possa utilizar aquelas mesmas palavras para comentar o atual caminho de abertura a novos horizontes da evangelização, do serviço e da celebração eclesial.

A questão hoje é totalmente diferente. Aqui, não devemos nos envergonhar da reforma realizada, como se ela tivesse que ser quase marginalizada, mas sim pela reforma fracassada, a ser recuperada com urgência. O magistério deve retornar com autoridade, não apenas com palavras, mas com os fatos. E, sobretudo, com a coerência entre as primeiras e os segundos.

Por essas grandes diferenças, concordo plenamente com a ideia de propor reflexões sobre o desenvolvimento da doutrina e da disciplina eclesial, mas discordo decisivamente da natureza contraditória da fonte que abre e encerra o discurso. Porque precisamos de desenvolvimentos verdadeiros, não de desenvolvimentos aparentes.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

A Amazônia e a doutrina eclesial: desenvolvimento verdadeiro e desenvolvimento aparente. Artigo de Andrea Grillo - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV