Abiy Ahmed. O Prêmio Nobel da Paz vai para um evangélico pentecostal africano (novamente)

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16 Outubro 2019

O Prêmio Nobel da Paz foi concedido na sexta-feira, 11 de outubro, ao primeiro-ministro etíope Abiy Ahmed por seus esforços de paz com a Eritreia. Depois de Denis Mukwege no ano passado, o prestigiado prêmio homenageia um cristão pentecostal pela segunda vez consecutiva.

A reportagem é de Henrik Lindell, publicada por La Vie, 11-10-2019. A tradução é de André Langer.

É um Prêmio Nobel da Paz que – “pela primeira vez”, apontam alguns observadores – merece esse nome no sentido mais estrito: ele recompensa de fato um verdadeiro ator da paz entre dois países em conflito. O etíope Abiy Ahmed tomou uma “iniciativa determinante para resolver o conflito de fronteira com a Eritreia”, estimou o Comitê Nobel norueguês. Um conflito que persiste desde uma terrível guerra entre os dois países entre 1998 e 2000.

Chegando ao poder na Etiópia em abril de 2018, o jovem primeiro-ministro (43 anos) iniciou imediatamente a reaproximação com a Eritreia, uma antiga província etíope. Alguns meses depois, em 9 de julho, Abiy Ahmed encontrou-se com o presidente da Eritreia, Isaias Afeworki, em sua capital, Asmara, para pôr um fim ao estado de guerra. Assim que o acordo foi alcançado, as embaixadas foram reabertas, as pontes aéreas foram restabelecidas, as famílias puderam se encontrar novamente e reuniões foram realizadas pela primeira vez em duas décadas.

Mapa mostra a localização dos países africanos (Fonte: Reprodução)

A partir de então, esse verdadeiro vento de esperança deu lugar à frustração: a fronteira ainda está fechada e a Etiópia, que é um país sem litoral, ainda não tem acesso aos portos da Eritreia – um dos desafios do conflito. A verdadeira paz ainda não foi alcançada, mesmo que esteja no caminho certo. Ou seja, é também um incentivo que o Comitê Nobel queria enviar aos dois países, para que pudessem continuar seus esforços, e não apenas colocar em destaque Abiy Ahmed e seu trabalho pela reconciliação. Além disso, “todos os atores que trabalham pela paz e a reconciliação na Etiópia e nas regiões do leste e nordeste da África estão associados ao prêmio.

Os esforços de Abiy para a reconciliação não têm relação apenas com o conflito com a Eritreia, mas também com a situação conflituosa entre as comunidades dentro de seu país. Rompendo com os métodos brutais de seu antecessor, Hailemariam Dessalegn, criou uma comissão de reconciliação nacional, libertou centenas de presos políticos e assinou acordos com grupos rebeldes, incluindo a Frente de Libertação do Povo Oromo (FLO), um movimento separatista armado que luta contra o poder central desde a década de 1970.

Ele próprio um mestiço, mas membro de um partido político que representa principalmente os interesses do maior grupo étnico, os Omoro, multiplica os gestos de paz com os outros grupos étnicos que não o seu e os partidos de oposição que anteriormente eram clandestinos. Seu objetivo é realizar eleições democráticas em maio de 2020, e nomeou uma liderança da oposição, Birtukan Mideksa, como chefe da comissão eleitoral.

Outra iniciativa espetacular: Abiy estabeleceu uma estrita paridade homens-mulheres em seu governo. E vários ministérios importantes foram confiados a mulheres, incluindo a Defesa e o Interior. A Suprema Corte é presidida pela renomada advogada e ativista dos direitos humanos Meaza Ashenafi. Além disso, o país tem uma presidenta: Sahle-Work Zewde.

Uma trajetória inter-religiosa

A trajetória pessoal de Abiy Ahmed é peculiar. Ex-oficial da inteligência e opositor de longa data do antigo regime marxista-leninista, ele vem de uma família pobre. Seu pai era um muçulmano do grupo étnico Omoro, sua mãe era cristã ortodoxa do grupo étnico Amhara. Mais exatamente, ele é o décimo terceiro filho de seu pai, que teve várias esposas, e o sexto filho de sua mãe. Ele próprio casou-se com uma cristã amhara que ele conheceu quando ambos estavam no exército etíope.

No plano religioso, ele tem sido durante muito tempo cristão ortodoxo, como sua mãe, mas converteu-se ao pentecostalismo. Ele é um membro muito ativo da Full Gospel Believers Church, uma comunidade pentecostal etíope. Uma pertença da qual fala muito pouco em público, insistindo em sua determinação de ser o primeiro-ministro de todos os seus compatriotas. Seu testemunho cristão concretiza-se especialmente através do seu trabalho pela paz, notadamente pela criação de uma comissão de reconciliação e pela libertação de presos políticos.

Ele é inclusive conhecido por suas mensagens firmes dirigidas aos cristãos, incluindo os evangélicos, convidando-os a assumirem suas responsabilidades nos conflitos étnicos. Ele também se encontrou com o Papa Francisco no dia 21 de janeiro passado, que o parabenizou por seu trabalho pela paz. Um encontro em que foi enfatizado “o papel do cristianismo na história do povo etíope” e “a contribuição das instituições católicas nos campos da educação e da saúde”.

Abiy Ahmed pode não insistir muito na sua fé, mas seu nome é bem conhecido nos círculos pentecostais na Europa. Por exemplo, na Suécia, onde muitos missionários o conhecem bem e hoje testemunham na revista evangélica de referência Dagen seu orgulho em ver “um dos seus” receber uma das distinções mais prestigiadas que uma pessoa pode receber. Encantados, também observam que este é o segundo ano consecutivo que o Prêmio Nobel é concedido a um pentecostal africano.

Em 2018, foi o ginecologista congolês Denis Mukwege, que se destacou – ele compartilhou o prêmio com a yazidi Nadia Murad, ex-escrava do Estado Islâmico – por sua luta contra a violência sexual como arma de guerra. Obviamente, o Comitê Nobel norueguês não leva em consideração a afiliação religiosa das pessoas que honra, o que torna suas escolhas ainda mais interessantes nos últimos dois anos, porque testemunham o papel positivo que o pentecostalismo pode ter na África e em outros lugares, enquanto essa corrente cristã é frequentemente criticada por seu proselitismo expansionista. De qualquer forma, Abiy Ahmed e Denis Mukwege enviam uma imagem claramente positiva do cristianismo contemporâneo na África

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