A guerra do cacau: Gana e Costa do Marfim aliados dos trabalhadores do campo contra a exploração de trader e grandes marcas (e a falsa sustentabilidade)

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16 Outubro 2019

É doce para todos, exceto para os agricultores que o cultivam. As favas de cacau, o ingrediente básico do chocolate, são uma fruta preciosa para a economia mundial, que construiu sobre esse produto um mercado de cerca de 50 bilhões de dólares por ano.

A reportagem é de Nicola Scevola, publicada por Business Insider Italia, 14-10-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Pena que desses valores aos principais produtores - que são os pequenos agricultores que cultivam cacau na Costa do Marfim e no Gana, que juntos garantem mais de 60% do suprimento global de favas – apenas uma fração mínima chegue a seus bolsos.

Mapa à esquerda mostra a Costa do Marfim e mapa à direita indica a localização de Gana
(Fontes: Enciclopédia Global e Portal História e Geografia, respectivamente)

Mas a situação está prestes a mudar, com prováveis repercussões no custo final das barras de chocolate que acabam em nossas mesas.

Para superar a pobreza endêmica que atormenta seus trabalhadores do campo, pela primeira vez os dois países africanos uniram suas forças para impor preços mais justos aos grandes compradores que revendem as favas a marcas somo Nestlé, Ferrero, Mars, Mondelez e Hershey.

No início do verão, representantes de Gana e da Costa do Marfim tentaram impor um preço mínimo. Mas diante do muro oposto pelos compradores desistiram, optando por a adoção de um valor fixo de US$ 400 por tonelada a ser adicionado ao preço de mercado a partir da safra 2020/21.

Na intenção dos governos de Abidjan e Accra, o dinheiro assim acumulado será usado para criar um fundo para combater a pobreza dos agricultores locais, estabilizando as cotações do cacau e compensando eventuais quedas abaixo de um determinado limite.

Segundo o Banco Mundial, 55% dos agricultores da Costa do Marfim vivem com cerca de 1,15 € por dia, abaixo da linha de pobreza absoluta. E quase 80% dos lucros gerados pelo mercado de chocolate ficam nas mãos de quem transforma as favas e distribui os produtos finais, duas fases das quais o país está praticamente excluído.

Porém, embora a maioria dos produtores de chocolate tenha apoiado publicamente a iniciativa de Gana e Costa do Marfim, alguns traders responderam com desconfiança, prevendo que o novo imposto os levaria a fazer mais negócios com produtores sul-americanos, criando assim um excedente de oferta da África que poderia reduzir ainda mais os preços.

Os dois países responderam anunciando nos últimos dias a imposição de um teto limite à produção local de 2 milhões de toneladas a partir da próxima temporada. Para ter um termo de comparação, a Costa do Marfim estima fechar a produção deste ano em 2,2 milhões de toneladas de cacau. E a manobra parece ter valido a pena: os primeiros contratos para a venda da safra 2020/21, que incluem o imposto de US $ 400 por tonelada, já foram assinados.

Mas a guerra africana do chocolate não termina aí. Os dois vizinhos também dirigiram suas atenções às certificações que deveriam garantir a sustentabilidade dos produtos. Até hoje, em vez de depender de empresas externas, muitos produtores, como Mars e Nestlé, preferiam exibir marcas de sustentabilidade faça-você-mesmo, adotando programas voluntários que deveriam valorizar a lucratividade das plantações, garantindo benefícios às comunidades locais. Essas autocertificações são preciosas nos mercados ocidentais, cada vez mais atentos ao meio ambiente e à sustentabilidade dos produtos. Mas, de fato, não melhoraram a situação dos pequenos produtores das favas.

Segundo um relatório do ano passado, o nível de exploração do trabalho infantil nos dois países da África Ocidental está aumentando constantemente e hoje envolve 2,1 milhões de crianças.

A ponto de, nos últimos meses, dois senadores dos EUA terem pedido ao governo de Washington que proibisse as importações no mercado local chocolate produzidas pela exploração infantil, uma manobra que, se implementada, corre o risco de dobrar as economias dos produtores africanos. Também por esse motivo, os governos de Accra e Abidjan decidiram tomar as rédeas da situação, impondo novos padrões e limitando a possibilidade das grandes marcas de autocertificarem seu chocolate como sustentável. Se depois isso realmente conseguir mudar para melhor a situação dos pequenos produtores de cacau, ainda precisa ser provado. O certo é que o cabo-de-guerra é acompanhado com interesse, inclusive pelas nações produtoras de café, outro setor que teria muito a aprender sobre como redistribuir para as bases parte dos ricos rendimentos do mercado global.

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