‘BirthStrike’ e ‘NoFutureNoChildren’: greve de nascimento e emergência climática

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10 Outubro 2019

"Hoje em dia nascem cerca de 140 milhões de bebês no mundo todos os anos. Evidentemente, reduzir o número de nascimento é uma condição necessária para enfrentar a crise climática e ambiental, mas não é uma condição suficiente. Somente com a mudança no modelo de produção e consumo e o decrescimento das atividades antrópicas (especialmente o decrescimento do consumo dos ricos) o mundo terá alguma chance de evitar um apocalipse ecológico", escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate, 09-10-2019.

Eis o artigo.

Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria” - Machado de Assis (Memórias póstumas de Brás Cubas)

“Filhos? Melhor não tê-los!”. Assim começa o Poema Enjoadinho de Vinicius de Moraes. Mas numa época em que a taxa de fecundidade era alta e existia uma ideologia pronatalista e familista muito forte no Brasil, o poeta completou: “Mas se não os temos, Como sabê-los?”.

Agora no século XXI, diante de um mundo, na terminologia de Herman Daly, cada vez mais cheio – com cada vez mais gente e cada vez menos árvores e biodiversidade – tem crescido o número de mulheres (e homens) que decidem não ter filhos (Childless ou Childfree). Uma das novidades atuais diante da crise climática é o surgimento da Greve de Nascimentos. Um grupo fundado na Inglaterra propõe uma solução radical e contundente: “ninguém deveria mais procriar”.

O movimento BirthStrike (Greve de Nascimentos) foi fundado pela cantora britânica Blythe Pepino, em 2019, visando problematizar as questões sobre nascimentos, população e crise ecológica. O objetivo é debater a gravidade das mudanças climáticas, o efeito das atividades antropogênicas sobre o meio-ambiente e o impacto que cada nova pessoa tem e sofre em relação à crise ambiental.

Segundo o jornal The Guardian (12/03/2019): “Blythe decidiu anunciar publicamente sua decisão – tornando, estrategicamente, o político pessoal – de criar o movimento BirthStrike, uma organização voluntária para mulheres e homens que decidiram não ter filhos em resposta ao ‘colapso climático e ao colapso da civilização’. Ao fazer isso, ela espera canalizar a dor que sente por sua decisão ‘em algo mais ativo, regenerador e esperançoso”.

Em apenas duas semanas, 140 pessoas, a maioria mulheres no Reino Unido, declararam sua ‘decisão de não ter filhos devido à gravidade da crise ecológica’, diz Pepino. Mas também pedimos que as pessoas entrem em contato para dizer: ‘Obrigado por falar sobre algo sobre o qual eu não sabia que poderia falar com minha família’, acrescenta ela. Muitos desses BirthStrikers estão envolvidos com a Extinction Rebellion, que jogou baldes de tinta vermelha do lado de fora de Downing Street para simbolizar ‘a morte de nossos filhos’ em decorrência da mudança climática (The Guardian, 12/03/2019).

O grupo Rebelião ou Extinção (Extinction Rebellion) tem três demandas centrais: 1) que o governo “conte a verdade à população declarando uma emergência climática e ecológica”; 2) que o governo “zere as emissões de gases de efeito estufa até 2025”; 3) que o governo “crie uma assembleia popular, formada por cidadãos comuns e escolhidos aleatoriamente, e siga suas decisões sobre o meio ambiente” (BBB, 07/10/2019).

Ao contrário da meta utópica de deixar um Planeta melhor para as futuras gerações, a realidade está sendo distópica e a Terra pode entrar numa situação de catástrofe ambiental num futuro não muito distante. Desta forma, cresce o conflito intergeracional e já está em questão os direitos das gerações que ainda não nasceram (Taylor, 01/10/2019). Como mostrou Alves (Ecodebate, 04/10/2019), 92% da população de 2100 ainda não nasceu, mas vai herdar uma “Terra arrasada” em decorrência da degradação ambiental provocada pelo crescimento demoeconômico dos últimos 250 anos.

Neste contexto, uma adolescente de 18 anos, Emma Lim, da Universidade McGill em Montreal, está liderando um movimento ambiental chamado #NoFutureNoChildren. Sua campanha insta os colegas adolescentes a não ter filhos, em um esforço para motivar o governo a tomar medidas sérias contra o aquecimento global. “Eu sempre, sempre quis ser mãe, desde que me lembro”, disse Lim, “Mas não trarei uma criança para um mundo em que ela não estará segura”.

Segundo artigo de Ben Cost (NYPost, 19/09/2019) o objetivo de Lim é: “Gostaria que o governo desenvolvesse um plano abrangente para manter a temperatura abaixo de 1,5 graus Celsius de aquecimento”. O “BirthStrike” e o “#NoFutureNoChildren” se junto ao GINK (Pessoas com inclinação verde e sem filhos) e ao PANK (Professional Aunt No Kids – Tia profissional sem filhos).

De fato, nos últimos 250 anos (entre 1769 e 2019) a população mundial cresceu 9,2 vezes, a economia internacional cresceu 134 vezes e a renda per capita global cresceu 14,6 vezes. Houve uma melhoria geral das condições de vida da população mundial. Mas todo o enriquecimento humano ocorreu às custas do empobrecimento ecológico, sendo que, o fim da natureza será o fim da civilização humana.

Por conta disto, o crescimento das atividades antrópicas fez com que a produção e o consumo da humanidade ultrapassasse a capacidade de carga da Terra. O uso e a queima generalizada dos combustíveis fósseis aumentou a emissão de gases de efeito estufa (GEE) e acelerou o processo de aquecimento global, que ameaça não só a vida humana, mas todas as formas de vida da Terra. O ser humano está provocando a 6ª extinção em massa das espécies, um extermínio “silencioso” que ocorre no Antropoceno.

Cada nova criança nascida nos países ricos significa aumento da Pegada Ecológica, queda da biocapacidade e elevação das emissões de GEE. Por isto, recentemente, a congressista estadunidense Alexandria Ocasio-Cortez, do Partido Democrata, defensora do “Green New Deal”, concordou com a ideia da Greve de Nascimentos diante do sombrio cenário catastrófico que se anuncia para o planeta. É neste sentido que o artigo de Astra Taylor (The Guardian, 01/10/2019) questiona se a crise climática viola os direitos das crianças que ainda não nasceram e diz que o vandalismo ecológico coloca questões éticas fundamentais para as gerações atuais.

A decisão de não ter filhos tem dois tipos de impactos. O primeiro é que menos nascimentos significam menos emissões de gases de efeito estufa, menos demanda por água, comida, moradia, transporte, etc. Evidentemente, são as crianças dos países ricos que mais contribuem para a crise climática, sendo muito menores, em termos per capita, as emissões provenientes das crianças dos países pobres. Todavia, a contribuição do crescimento do volume de jovens nos países pobres é grande para a perda de biodiversidade.

O outro impacto é inverso, ou seja, a crise climática e ambiental vai afetar todos os jovens e o impacto negativo será maior nos países pobres, onde há muita carência de recursos para mitigar e adaptar os efeitos da degradação ecológica. Colocar crianças no mundo para sofrer não é uma decisão racional e nem emocional.

Portanto, reduzir o número de nascimentos tem dois impactos: 1) contribui para mitigar o aquecimento global; 2) contribui para reduzir o número de pessoas que vão sofrer com a catástrofe ambiental global que se anuncia no horizonte de médio e longo prazo.

Em debate recente (15/07/2019), o jornalista George Monbiot – que não concorda muito com o primeiro impacto, defendeu as propostas do movimento ‘BirthStrike’ com base no reconhecimento do segundo impacto. Ou seja, ele disse que as pessoas precisam pensar bem antes de colocar novas crianças no mundo, pois o cenário ecológico que se avizinha é terrível.

Também o movimento “Rebelião da (ou) Extinção”, inspirado nas ideias de Henry Thoreau, vai nesta linha e utiliza a resistência pacífica (não-violenta) e a desobediência civil para engajar as pessoas na luta contra o colapso climático e ambiental, evitando o holocausto ecológico e o risco de extinção da raça humana e demais espécies. O objetivo da “Rebelião da Extinção” é exercer pressão sobre os governantes e fortalecer a sociedade civil no sentido de enfrentar o caos climático e a degradação dos ecossistemas. A “Rebelião da Extinção” se baseia no fato, cientificamente estabelecido, de que a humanidade não está apenas destruindo o ambiente natural, mas também, na trajetória atual, caminhando para a extinção em um futuro não muito distante. Assim, urge conscientizar as autoridades a tomar ações drásticas e mudar de rumo do desenvolvimento enquanto ainda seja possível.

Hoje em dia nascem cerca de 140 milhões de bebês no mundo todos os anos. Evidentemente, reduzir o número de nascimento é uma condição necessária para enfrentar a crise climática e ambiental, mas não é uma condição suficiente. Somente com a mudança no modelo de produção e consumo e o decrescimento das atividades antrópicas (especialmente o decrescimento do consumo dos ricos) o mundo terá alguma chance de evitar um apocalipse ecológico.

E quem vai liderar a luta contra o “conto de fadas do crescimento” (Thunberg, 23/09/2019) é a juventude atual que se sente traída pela inação das elites nacionais e dos líderes globais e, principalmente, aqueles ainda nem nascidos que vão reclamar da herança maldita deixada pelos ancestrais e que nada ou muito pouco fizeram para mudar o quadro de colapso climático e ecológico.

Referências:

ALVES, JED. A dinâmica demográfica importa no crescimento econômico e na degradação ambiental, Ecodebate, 03/05/2019

ALVES, JED. O bom para o desenvolvimento humano é ruim para a natureza, Ecodebate, 27/05/2019

ALVES, JED. Países ricos emitem mais CO2, mas as emissões crescem mais nos países emergentes, Ecodebate, 26/09/2018

ALVES, JED. PANK: Professional Aunt No Kids (Tia profissional sem filhos), Ecodebate, 18/02/2015

ALVES, JED. GINK: Pessoas com inclinação verde e sem filhos, Ecodebate, 13/02/2015

Elle Hunt. BirthStrikers: meet the women who refuse to have children until climate change ends, The Guardian, 12/03/2019

Dilvin Yasa, ‘It’s given me freedom’: Three women on being childless by choice, August 17, 2019

Libby Emmons. Why does our culture want us to stop having babies?, 23/08/2019

George Monbiot. Should I have Children? Extinction Rebellion, 15/07/2019

Ben Cost. Teens pledge to stop having babies over climate change, NYPost, 19/09/2019

Astra Taylor. Bad ancestors: does the climate crisis violate the rights of those yet to be born? The Guardian, 01/10/2019 

THUNBERG, Greta. Our House Is On Fire, The Guardian, 20/01/2019

THUNBERG, Greta. If world leaders choose to fail us, my generation will never forgive them, The Guardian, 23/09/2019

Juliana Gragnani. Extinction Rebellion, o movimento que quer parar Londres em mega protesto ambiental e já está presente no Brasil, BBC, 07/10/2019

Women Go On BirthStrike Because Of Climate Change

BIRTH STRIKE BLOG

Childfree Blogs and Websites

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