A quintessência da cosmovisão católica conservadora

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08 Outubro 2019

No mês passado, eu chamei a atenção para um artigo da First Things [disponível aqui, em inglês], de autoria de Francis Maier, antigo amanuense do arcebispo Charles Chaput. Nele, ele criticava o Pe. Antonio Spadaro, o professor Massimo Faggioli e eu por escrevermos artigos que ele definiu como “bobagem”. O mesmo Maier proferiu uma conferência [disponível aqui, em inglês] no Seminário St. Charles Borromeo, na Filadélfia, no mês passado, confirmando pelo menos algumas das teses que ele definiu como “bobagem” no artigo da First Things. A palestra é uma pequena obra-prima, realmente uma quintessência da cosmovisão católica conservadora.

O comentário é de Michael Sean Winters, publicado por National Catholic Reporter, 07-10-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A primeira característica do comentário católico conservador é que eles entendem mal a fundação da república estadunidense. Maier afirma: “Os Estados Unidos são, em certo sentido, uma ficção jurídica. Não temos nenhuma etnia comum. Não temos nenhuma longa história nacional. Fomos criados ex nihilo como um experimento racional em liberdade ordenada. E fomos mantidos unidos por um compromisso comum com a lei; lei que sustentamos – ou pelo menos que pretendíamos sustentar – por uma moral bíblica comum”.

O Iluminismo estava em pleno vapor quando o experimento estadunidense começou, e, embora seja verdade que uma moral de inspiração bíblica estava no ar que os fundadores respiravam, também é verdade que o seu entendimento da moral bíblica não os levou a concluir que a escravidão e o assassinato das populações nativas estavam errados.

E, no fim do século XVIII, os católicos romanos derivaram a maioria das suas ideias morais do pensamento da lei natural. E, além disso, a redução da religião à moral na praça pública tem sido uma das consequências de ideias protestantes extraídas dessa mesma Bíblia e do embasamento dos fundadores em ideologias políticas britânicas, um dos pontos que Spadaro levantou no artigo que Maier criticou.

A palestra olha para os anos 1950 como para uma espécie de época de ouro da qual não houve nada além de declínio? “O país que éramos há seis décadas e o país que somos agora são duas criaturas distintas: semelhantes na superfície; diferentes por baixo”, afirma. ‘E uma das diferenças é que agora estamos envoltos em uma espécie de névoa narcótica de ruído e de apetite consumista que nos distrai de entender a nossa situação e de mudá-la para melhor. Nós, católicos, temos sido muito rápidos em aceitar palavras como ‘diversidade’ e ‘inclusão’ como valores positivos – e é claro que são, quando entendidos adequadamente. Mas temos sido muito lentos para entender como e com que fim essas palavras estão sendo usadas contra nós por uma revolução sexual que é profundamente intolerante com a crença cristã.”

Essa visão distópica parece estar perdendo algumas conexões lógicas. O que a “névoa narcótica” tem a ver com “diversidade” ou “inclusão”? Certamente, o marcador do declínio cultural, para os nossos amigos católicos conservadores, sempre se resume ao sexo. Por que não focar em como o “apetite consumista” diminuiu o nosso senso de solidariedade social?

No parágrafo seguinte, Maier critica corretamente o libertarianismo moderno como antitético à crença católica, mas, novamente, concentra-se apenas em questões sexuais e de aborto. As formas de pensar libertárias, combinadas com o apetite consumista, afetam o ambiente de uma maneira imoral? Exploração multinacional de países pobres? E a “revolução sexual” usou a ideia de diversidade contra o “nós” porque era anteriormente intolerante à crença cristã? Os milhões gastos pelas organizações cristãs e católicas nos esforços para impedir que gays e lésbicas obtenham direitos civis básicos têm algo a ver com hostilidade? E por que a “revolução sexual” é personificada, como se pudesse tomar uma decisão de atacar a Igreja ou não?

Voltando à lista: encontramos um mal-entendido agudo sobre o Papa Francisco – e é difícil não vê-lo como um mal-entendido intencional – na palestra de Maier? Ele afirma:

“A verdadeira colegialidade entre bispos muitas vezes pode parecer ocorrer apesar das, e não por causa das, estruturas eclesiais formais. Por que isso é importante? É importante porque torna os argumentos atuais para uma ‘sinodalidade’ descentralizada da Igreja tão problemáticos. Em uma época de confusão, a descentralização pode ser uma má ideia. Mas é uma ideia especialmente ruim quando as criaturas bem-sucedidas de uma burocracia eclesial nacional se tornam – com efeito – a autoridade formativa na vida nacional da Igreja.

“Então, agora, considere-se o plano atual do Vaticano para a reforma da Cúria Romana, descrito no documento Praedicate Evangelium. O objetivo do plano é simplificar e descentralizar as operações vaticanas para servir ao foco na sinodalidade por parte do papa. A sinodalidade como teoria tem algum mérito; tem um sabor semelhante ao princípio católico tradicional da subsidiariedade. Ela procura colocar a tomada de decisões da Igreja mais nas mãos das Conferências locais de bispos, que estão mais próximos das necessidades de seu povo.”

Você vê o problema. A sinodalidade não se refere principalmente a um modelo organizacional diferente. Trata-se principalmente de aprender a escutar e a dialogar. Trata-se de um modelo diferente de construir a colegialidade daquele usado nos EUA ao longo do século XX, que é realmente pesado em burocracia (e houve momentos em que a Conferência dos Bispos dos EUA agiu de maneira sinodal, antes de ser retomada pelos guerreiros culturais).

Em vez disso, a sinodalidade é surpreendentemente mais semelhante ao modelo adotado pelos bispos latino-americanos na última metade de século XX e pelos nossos irmãos na fé orientais ao longo dos tempos. Ela começa não com a burocracia, mas com a oração. Os conservadores podem ter esquecido, mas o papa teve que insistir mais ou menos com os bispos dos EUA para que eles fizessem um retiro em grupo antes de tentarem descobrir uma resposta para o ressurgimento da crise dos abusos sexuais.

É claro, se você acha que já tem todas as respostas e domina os enigmas da salvação, tende a não ver muito valor na escuta ou no diálogo. E é difícil não ver a expressão “uma era de confusão” como um golpe contra Francisco, outro típico ponto de debate conservador, embora uma das coisas que realmente os incomoda sobre Francisco é que a sua crítica ardilosa ao capitalismo e às atitudes farisaicas modernas é muito óbvia, declarada de modo muito simples, muito acessível.

Se você acha que eu estou tirando conclusões sobre o golpe velado contra Francisco, na próxima página encontramos o seguinte:

“A Humanae vitae – que Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI repetidamente reafirmaram – agora está sendo minada novamente. A mudança radical de espírito e de propósito no Instituto João Paulo II de Roma, que se concentra de modo especial no casamento e na família, é muito reveladora. Falar sobre ‘novos paradigmas’ na vida de Igreja muitas vezes mascara a fome de assinar um tratado de paz com o mundo; de tornar o caminho cristão mais congênito e menos embaraçoso. Mas a cruz nunca é congênita e é sempre embaraçosa; no entanto, é a porta inevitável pela qual seguimos a Jesus Cristo.”

De que modo Francisco está buscando um “tratado de paz com o mundo”? Ou de que modo aqueles como o cardeal Pietro Parolin, que falou por primeiro de “novos paradigmas”, ou o cardeal Blase Cupich, que deu uma palestra importante sobre novos paradigmas em Cambridge, estão fracassando em assumir a cruz?

Um item final da lista conservadora: que diatribe estaria completa sem um ataque aos gays? A palestra diz:

“Nossas lideranças da Igreja merecem o respeito devido aos seus ofícios. Mas, quando afirmam que o abuso sexual de crianças pelo clero é principalmente uma questão de ‘clericalismo’, muitos leigos ouvem isso como insultuoso e como algo absurdo. A minha esposa e eu não acreditamos nisso. Nenhum dos nossos amigos com família acredita nisso. E nós não acreditamos nisso porque simplesmente não é verdade. O fato de um homem ter uma orientação do mesmo sexo não significa que ele vai abusar de crianças ou mesmo se sentir atraído por elas. Mas minimizar o papel principal que a homossexualidade desempenhou no problema do abuso clerical é francamente irritante.”

Eu não sei no que a esposa de Maier e seus amigos acreditam ou não. Mas, a maioria dos estudos que eu tenho visto sobre pedofilia indica que ela é um crime de oportunidade, que os agressores atacam as vítimas que são mais acessíveis, de modo que, geralmente, quando ocorre dentro de uma família, é um pai que ataca uma filha e, se ocorre na igreja, é um padre que ataca um menino. Tão importante quanto isso, os argumentos sobre o papel do clericalismo feito por mim e por outras pessoas convidam a Igreja a considerar a cultura na qual tanto o abuso quanto, e mais ainda, o acobertamento dos abusos ocorreu, e por que parecia tão natural para um bispo, liberal ou conservador, por volta de 1975, escutar sobre um caso de um padre que abusou de um menor e dizer a si mesmo: ‘Pobre padre’.”

O chefe de Maier, o arcebispo Chaput, já enviou a sua carta de renúncia e em breve estará deixando o palco eclesial. Eu não sei se Maier se juntará a ele na aposentadoria. Desejo tudo de bom a ambos, mas não posso desejar sucesso a eles e àqueles que os seguem na propagação da sua visão eclesial e cultural.

Os guerreiros culturais católicos conservadores não gostam de Francisco, mas o fato de seguir a eles, e não a ele, nos últimos 40 anos levou a Igreja dos EUA até onde ela está. Eles querem que você esqueça isso, mas o declínio na participação das missas, a queda nas vocações, o acobertamento do abuso sexual clerical, a ascensão de Theodore McCarrick, tudo isso aconteceu sob a vigilância deles, não de Francisco.

“O vento sopra onde quer”, lemos em João 3,8. “Você ouve o barulho, mas não sabe de onde ele vem, nem para onde vai. Acontece a mesma coisa com quem nasceu do Espírito.” Não creio que o colapso do catolicismo cultural do início do século XX tenha sido mais culpa dos guerreiros culturais conservadores do que dos “anos 1960” ou “da revolução sexual”.

Esse tipo de coisa é complexa, e uma variedade de eventos, tendências e mudanças conspiram para que isso ocorra. Mas estou bastante cansado de vê-los culpando Francisco por semear confusão, quando a certeza deles dificilmente ajudou, não é verdade?

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