“Na África, a simples criação de escritórios de denúncia de abusos sexuais não vai criar automaticamente hábitos”. Entrevista com o padre Jean Messingué

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08 Outubro 2019

Jean Messingué é padre jesuíta, diretor interino do Instituto Teológico da Companhia de Jesus em Abidjã (ITCJ) e diretor do departamento de pesquisa desse mesmo instituto. Especialista em psicologia clínica, Messingué interessa-se pela questão dos abusos sexuais na Igreja, tema que ele aborda nesta entrevista.

A entrevista é de Lucie Sarr, publicada por La Croix, 07-10-2019. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Um motu propio do Papa Francisco obriga as conferências episcopais a criar centros de denúncia de abusos. O que você acha deste texto? Como ele é acolhido na Igreja da África?

Li com muito interesse este Motu Proprio “Vos estis lux mundi”, sobre a gestão dos abusos sexuais na Igreja. Este foi um passo muito importante depois que o Papa Francisco se encontrou com bispos do mundo inteiro em Roma. Esta carta, de fato, é uma ordem dada pelo Santo Padre (criar escritórios de denúncia de abusos) com um tempo de execução (um ano).

Do ponto de vista da recepção, várias conferências episcopais africanas anunciaram medidas para criar centros de denúncia de abusos sexuais de menores e pessoas vulneráveis. Mas eu não posso me apoiar exclusivamente em tais anúncios para analisar a recepção desse motu proprio do papa. Pode ser uma obediência sem necessariamente ser uma adesão à visão e à mensagem. Mas o risco com um texto desse caráter é que nunca sabemos o que as pessoas realmente pensam.

Mas o que é importante neste documento é que a denúncia não é mais apenas uma obrigação moral, mas legal. É um imperativo jurídico para as pessoas consagradas denunciarem qualquer caso de abuso de menores perpetrado por um dos seus. Isso significa que a negligência e a omissão serão consideradas crimes. É possível imaginar que uma pessoa consagrada possa ser processada porque foi informada de um caso de abuso e não o denunciou. Esta é a implicação legal deste texto.

Há uma boa abertura no tempo da execução dos casos e o poder conferido ao bispo metropolitano para tratar os casos que implicariam bispos. Também existe, por parte do papa, a preocupação de capacitar as Igrejas locais e criar estruturas para que os dossiês não se arrastem indefinidamente.

Mas é claro que há pouquíssimos elementos para saber o que a Igreja da África pensa sobre este texto. Talvez ela tenha motivos para se preocupar com a maneira como o assunto é abordado? Talvez ela tenha outra maneira a propor? Nós não sabemos.

Essas medidas contra abusos são aplicáveis na África?

Com o impacto da mídia, é possível. Mas acredito que a criação de escritórios de denúncias não é suficiente. No Ocidente, a prática de fazer as denúncias não é nova. Os pais já sabem que, em caso de abuso, a polícia deve ser informada. É um sistema inteiro.

Entre nós, é tão novo que a criação de escritórios desse tipo não vai criar automaticamente hábitos. Já podemos imaginar todos os incômodos sociais, religiosos e culturais que podem influenciar a decisão de denunciar abusos e que fazem com que possamos criar escritórios sem que nada seja modificado.

Também é preciso dizer que mesmo a questão da denúncia tem consequências e que, se a Igreja da África realmente quer retomar o assunto e colocar a criança no centro, há outros parâmetros que devem ser considerados. Quais são as medidas de cuidado e apoio à família e à criança em caso de denúncia de abuso? Em outros lugares, há estruturas que sustentam a família e a criança. Nós temos essas estruturas?

Na minha opinião, a Igreja da África, em seu contexto, precisa pensar em como implementar concretamente medidas de denúncia dos abusos sexuais, levando em conta as realidades locais para o bem maior da criança e de sua família. Porque, de fato, enquanto não houver tudo isso, as pessoas terão grande dificuldade em denunciar abusos, porque pensarão em todas as consequências. Também será preciso todo um trabalho de conscientização. Sem isso, não passarão de declarações formais.

Quais são os fatores que favorecem os abusos na Igreja na África?

O assunto é difícil. A noção de abuso não é claramente definida e entendida da mesma maneira por todos. Isso é um problema. O que a Igreja da África vê como abuso e o que não quer conceber como abuso? O Papa também aborda a questão do clericalismo, que é alimentada tanto pelos fiéis quanto pela hierarquia. Os fiéis podem recusá-lo, fazê-lo desaparecer.

O clericalismo não sobrevive apenas pela vontade das autoridades, e os cristãos devem estar cientes desse poder. Existe uma visão da Igreja, do sagrado, do consagrado, que não favorece um certo número de coisas. Em resumo, é o nosso modo de ser Igreja na prática – não nos textos – que deve mudar.

Além disso, existe uma consciência global sobre o bem-estar da criança em nível mundial, que é promovida, mas que é relativamente recente, e a Igreja deve integrar essa consciência.

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