Greta Thunberg e o espírito de democracia

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30 Setembro 2019

Sarantis Thanopulos, psiquiatra e psicanalista greco-italiano, e Ferdinando Menga, professor de Filosofia do Direito, autor de vários livros, entre os quais, Lo scandalo del futuro. Per una giustizia intergenerazionale, Edizioni di Storia e Letteratura, Roma 2016, comentam o movimento Fridays for future, liderado por Greta Thunberg. O diálogo foi publicado por il manifesto, 28-09-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.


Eis o diálogo.

Ferdinando Menga: "O primeiro desafio que Greta Thunberg e os Friday for future lançam às nossas democracias liberais é envolver, como atores extremamente ativos e corajosos do protesto, uma miríade de sujeitos muito jovens, aos quais nem mesmo é reconhecida plena capacidade jurídica. Além disso, como se trata de protestos principalmente voltados para o bem-estar de indivíduos futuros, o que está sendo desafiado é justamente o tempo com o qual operam as democracias atuais, todas voltadas a ações de curto prazo devido à espasmódica preocupação com as reeleições. A situação totalmente inquietante frente à qual, portanto, se encontram as democracias ocidentais contemporâneas é que o genuíno anseio pelo futuro é tirado dos clássicos lugares institucionais, para se tornar uma prerrogativa daquela que poderíamos chamar de aliança entre os vulneráveis ​​de hoje e os vulneráveis ​​de amanhã”.

Sarantis Thanopulos: “O protesto dessas pessoas muito jovens contra a surdez do mundo adulto mede a negligência que está devastando a democracia. Quando os cidadãos pisoteiam o futuro dos filhos, vivendo em um tempo estanque que apaga o juízo, sem passado e com o presente fluindo sob seus pés, não se entende quais decisões deveriam tomar e qual é o interesse comum que os une. O direito de decidir está agora alienado pela ditadura das sondagens de opinião: um ataque à liberdade de pensar, a medição obsessiva das mudanças humorais da ‘opinião pública’, a entidade mais imóvel e manipulável que exista. A democracia não sobreviverá à demagogia da opinião pública, à contínua montagem das emoções do momento. Quem de nós confiaria a decisão de algo tão importante da própria vida a tais emoções, sem se recomendar à divina providência?"

Ferdinando Menga: "O sucesso de Greta e seus amigos é certamente um sinal de desconforto e inquietação, mas também tem um grande valor propulsor, a partir do qual as democracias poderiam obter a injunção para reativar sua vocação mais profunda, deslocando o centro de gravidade do presente para o futuro, ou seja, recuperando uma visão político-cultural que não seja mais apenas voltada ao cálculo econômico imediato. Decorre disso a exigência de se contrapor às presentes ondas populistas e soberanistas, que, presumindo dar voz às fantasmagóricas necessidades presentes no corpo social, rejeitam em princípio o longo prazo das mediações, as visões mais amplas e, de fato, endossam as mesmas lógicas liberais contra as quais se insurgem apenas a palavras. Em vez disso, o verdadeiro desafio da democracia reside na sua capacidade de construir o mundo como local de acolhimento para aqueles que Hannah Arendt definia de ‘os recém-chegados’".

Sarantis Thanopulos: “As visões mais amplas nascem nos vulneráveis ​​que não ficaram tempo demais na vulnerabilidade ​​para se tornarem cínicos ou resignados. A vulnerabilidade é a percepção aguda de um risco que, ao mesmo tempo, revela um aspecto inalienável da própria existência.

A evidência de uma natureza saqueada cria desconforto para os adolescentes, porque coloca em foco a sua percepção de um mundo construído ao acaso. A rebelião contra a opacidade libera seu olhar. A consciência de que o que está em jogo é a vida inteira (e não o tempo de amanhã) estende internamente a sua perspectiva, antes que a configurem externamente. A aliança entre os adolescentes de hoje e os de amanhã pode ser um salto no escuro criada pelo vazio dos adultos. No entanto, a força dos ‘recém-chegados’ – os adolescentes e os migrantes - reside precisamente na vulnerabilidade que os leva a imaginar, perseguir e compreender o futuro. O aliado deles é o viajante em nós: defende a terra como seu local de desembarque contínuo, fonte perpétua de seu sentido do mundo".

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