O Vaticano nomeia comissário para os Arautos do Evangelho, a Associação brasileira envolvida em estranhos exorcismos sob investigação desde 2017

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30 Setembro 2019

“Deficiências” no que diz respeito ao estilo de governo, à vida dos membros do Conselho, à pastoral, à formação de novas vocações, à administração, à gestão das obras e à captação de recursos. Em suma, não faltaram motivos para levar a Santa Sé a nomear um novo comissário para a associação Arautos do Evangelho, juntamente com os dois ramos da vida consagrada masculino e feminino, ou seja, a Sociedade de vida apostólica clerical "Virgo Flos Carmeli" e a Sociedade de vida apostólica feminina "Rainha Virginum".

A reportagem é de Salvatore Cernuzio, publicada por Vatican Insider, 28-09-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Na manhã do último sábado, a Congregação para os Institutos de vida consagrada anunciou, através de um comunicado, a decisão de submeter a observação essa associação internacional de fiéis de direito pontifício, a primeira a ser indicada pela Santa Sé no novo milênio (22 de fevereiro de 2001), cujos membros, presentes em 78 países do mundo, são reconhecíveis pela vestimenta, uma espécie de hábito curto com uma grande cruz branca e vermelha no peito, semelhante àquela usada pelos cavaleiros medievais, e as botas pretas. Um traje também usado pelas mulheres.

O olho do Vaticano já há anos estava focado nessa associação em que se pratica o celibato e há uma dedicação ao apostolado. Em 23 de junho de 2017- como recorda uma nota divulgada pela Sala de imprensa da Santa Sé - a Congregação liderada pelo Cardeal João Braz de Aviz, de acordo com o Dicastérios para os Leigos, família e vida, tinha ordenado uma visita apostólica aos Arautos e às duas sociedades de vida apostólica derivadas da associação que tinham recebido o reconhecimento pontifício em 2009.

Ambas foram fundadas por Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias, um ex-membro da associação católico-tradicionalista e contrarrevolucionária TFP (tradição, família e propriedade), criada na década de 1950 por Plínio Correa de Oliveira, professor e pensador católico brasileiro, mais conhecido como "Dr. Plínio". Justamente com a morte de Correa, em 1995, a TFP tinha se desmembrado e de um de seus ramos que se tornou completamente autônomo haviam surgido os Arautos do Evangelho. Na cúria romana encontraram apoio entre alguns bispos e cardeais.

Monsenhor Clá ocupou o cargo de superior até onze dias antes do início da investigação da Congregação para a Vida consagrada. Acabou renunciado com uma carta, tornada pública, em que ele explicava em linhas gerais as razões para sua escolha, sem, contudo, entrar no mérito da investigação aprofundada que envolvia o Instituto.

Apesar das vozes dos críticos do pontificado reinante, que enquadravam a decisão do Vaticano como uma discriminação contra realidades eclesiásticas conservadoras, logo afloraram problemáticas internas à Associação. Começando com uma espécie de culto secreto e extravagante feito de teorias milenares que envolviam Nossa Senhora de Fátima, o fim do mundo e o triunfo de monsenhor Clá Dias, além de testemunhos de Satanás em pessoa, não aprovados pela Igreja católica.

Para denunciar tais fatos havia os depoimentos de vários ex-membros, que também falavam de adoração pelos membros a uma espécie de trindade composta por Plinio Correa de Oliveira, sua mãe Dona Lucília, considerada quase santa, e pelo próprio fundador. Um culto que ia muito além daquele da personalidade.

Isso era demonstrado por um vídeo divulgado em 2017 na Web, que havia sido obtido pelo Vatican Insider, que fora o primeiro a lançar luz sobre o caso. No vídeo, Scognamiglio Clá Dias estabelecia um diálogo, às vezes surreal, com cerca de sessenta de seus sacerdotes e praticava rituais de exorcismo autoproduzidos.

O vídeo, embora não indicasse uma data, parecia remontar a fevereiro de 2016, uma vez que em um dos discursos era mencionada a visita do papa ao México. Não era um vídeo gravado em segredo, considerando a estabilidade da imagem e a panorâmica inicial que mostrava toda a sala onde estavam o fundador dos Arautos e o grupo de padres.

Em particular, chamava a atenção a cena em que, durante uma das entrevistas, Clá Dias extraiu um pacote contendo a transcrição de uma conversa entre um padre e o diabo durante um exorcismo. O monsenhor entregava o pacote a um padre que o lia em pé ao seu lado. As palavras transcritas continham várias divagações: o fato de que o "Doutor Plinio", do céu ao lado da Virgem Maria, fosse o autor das mudanças climáticas e do aumento do calor; alegadas profecias de um meteorito que iria cair no Oceano Atlântico arrasando a América do Norte; o anúncio do desaparecimento do Papa Francisco que teria "morrido caindo" e que seria substituído pelo próprio Clá Dias.

Diálogos que chegavam às raias do absurdo, mas que, no entanto, como mostrado no vídeo - não eram contestados de forma alguma. Pelo contrário, tudo parecia endossado e, a partir de uma pergunta do padre ao diabo, também ficava claro que as perguntas eram feitas "por ordem de Monsenhor Clá".

O vídeo logo havia sido tirado da web, como também outros vídeos que mostravam mais exorcismos. O Vaticano, portanto, quis ver claramente. Enquanto isso, o fundador, como mencionado, tinha entregue logo a sua demissão e os Arautos tentaram responder às polêmicas dizendo que se tratava de um vídeo de uma reunião íntima e, portanto, destinada ao uso privado e que os conteúdos haviam vazado pela má intenção de um ex-membro.

Na época, também havido uma intervenção da associação Tradição Família e Propriedade que, através do diretor do escritório romano Juan Miguel Montes, destacava a clara distância entre a TFP e sua "costela". “Os Arautos do Evangelho não continuam o pensamento, as práticas e a ação que caracterizaram Plinio Corrêa de Oliveira, fundador moral desta vasta família espiritual; aliás, eles se organizaram usando uma denominação que ele não conheceu antes de sua morte em 1995", explicava uma nota, acrescentando: "Nada parecido com o que é narrado nos vídeos e nas notícias que ultimamente circulam sobre os Arautos do Evangelho, jamais aconteceu diante do fundador da TFP brasileira ou sob seu conhecimento em nenhuma das associações da TFP”.

Depois de mais de dois anos de investigação e depois de ter "cuidadosamente estudado" as conclusões dos visitantes, como pode ser lido na nota da Assessoria de Imprensa do Vaticano desta última semana, e principalmente depois de ter obtido a aprovação do Papa, o Dicastério para Vida Consagrada encontrou todas os elementos que levaram à decisão do envio do comissário. No cargo de comissário foi nomeado o arcebispo emérito de Aparecida, cardeal Raymundo Damasceno Assis, que será acompanhado por dois assistentes: José Aparecido Gonçalves de Almeida, bispo auxiliar de Brasília, e pela irmã Marian Ambrósio, superiora geral das Irmãs da Divina Providência.

 

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