“Francisco não teme um cisma, porque sabe que o ‘passadismo’ responde a um modelo de Igreja que se esgotou”, afirma Carlos Castillo, arcebispo de Lima

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27 Setembro 2019

Ele está há poucos meses no cargo, mas já revolucionou a arquidiocese de Lima. Carlos Castillo Mattasoglio (Lima, 1950) esteve em Madrid, onde foi uma das “estrelas” do Encontro Internacional pela Paz de Santo Egídio e da arquidiocese de Madrid. Intelectual com obra, porém sobretudo um simples pastor, que se alinha abertamente com as reformas de Francisco, deixando para trás, de uma vez, o modelo de uma “Igreja passadista” (em referência ao passado), para caminhar rumo a uma Igreja aberta, sinodal e inculturada.

A entrevista é de José Manuel Vidal, publicada por Religión Digital, 25-09-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis a entrevista.

Acabastes de estar com o Papa, na reunião dos novos bispos. Como encontrou Francisco?

O Papa é uma pessoa que tem uma vivência tão profunda da fé que sempre o encontramos alegre e esperançoso. Tem uma visão histórica das coisas e vê sempre o futuro e de onde pode emergir algo novo. Sempre o encontro alegre e cheio de imaginação; cheio de respostas muito precisas às coisas.

Ademais, ele fez um discurso muito potente aos novos prelados.

Sim, o discurso que nos fez tinha muitos elementos a braccio, como dizem os italianos, isso é, improvisando. Nos disse, em primeiro lugar, “não sejam bispos-príncipes”.

Ou seja, que apesar dos pesares, Francisco está tranquilo.

O encontrei extremamente lúcido com as coisas, em meio à infinidade de problemas que pode haver na Igreja. Porém, como ele disse: ‘não me tiram o sono’.

Nem sequer o tão falado cisma lhe tira o sono?

Em absoluto. Isso é o de menos. A primeira conversa que tive com ele foi sobre a ideia de que uma forma “passadista” de pensar a Igreja está claramente fadada a fracassar. Inclusive se conseguiram vitórias sofridas. O problema “grave” da história da Igreja é que esse modelo se esgotou. E se esgotou dramaticamente pela subversão realizada por modos de comportamento completamente contrários à fé, à caridade e à justiça.

Todos os grupos que declaram “regressemos ao passado”, a que passado se referem?

A um passado que teve sua importância em uma sociedade estável, porém em uma sociedade dinâmica e difícil, em que tudo se sabe e tudo se discute, não se podem manter formas autoritárias e não participativas, nem liturgias distanciadas do povo.

São formas que, evidentemente, querem expressar – ninguém o pode negar – a sinceridade do mistério, pois a contemplação sempre foi muito importante na Igreja: o silêncio. Porém não é o mesmo sentido do profundo que as formas externas em que, digamos, a Igreja se atrofia. Não se abre ao mundo, não dialoga, se crê possuidora da verdade. Temos a verdade, porém é uma verdade aberta.

O outro modelo inculturado, dialogante e aberto, que prega o Papa, vai se formando? Se forma na América Latina? Você vê que se forma na Espanha?

Há setores. E creio que inclusive em uma situação em que se propicia o medo, esses modelos podem se formar. Mas o problema é que, paralelamente, o processo de desenvolvimento 'insustentável' que temos neste momento no mundo levará a um colapso social muito grande. Para uma grande crise econômica, que está assolando o mundo, em que não haverá respostas. Apenas respostas autoritárias. Não haverá respostas democráticas. Parece-me que, neste momento, há uma inspiração por parte das pessoas em buscar uma extensão da democracia em todos os lugares.

O papa às vezes parece até ter medo de uma possível guerra nuclear, quando fala sobre guerras em capítulos.

É claro que isso poderia acontecer e, além disso, isso poderia ser instigado pelos grandes interesses. Por exemplo, a China tem um enorme desenvolvimento, facilitador do desenvolvimento econômico, mas é a nação que mais depreda no mundo. Então, o mundo pode vir em cima. E o que se passa, se isso acontecer? Felizmente, por exemplo, vemos que os coreanos concordaram, não sei por quê. Mas, se a China não entrar em um processo de diálogo, estamos indo para uma possível guerra mundial, porque eles não vão parar o progresso. Eles calcularão quanto perderão e quanto ganharão e se importarão com o resto. Não quero mexer com o governo chinês, mas você sente essas coisas assim.

Além disso, a China tem muita influência no Peru.

Muito. Além disso, por estar do outro lado do oceano, acha que o Peru é um dos lugares onde se pode investir.

Voltando à Igreja, a primavera de Francisco é irreversível? Os últimos cardeais que acabam de nomear vão preparando, pouco a pouco, uma sucessão que possa continuar na mesma linha papal?

Tenho essa impressão, não somente pelas nomeações, mas porque, como tudo que o papa Francisco fala é muito razoável a um espírito comum, sensível, e o levanta; o faz pensar, o faz caminhar, o faz imaginar. As pessoas que decidiram se fechar em seu sistema são as únicas que não escutam. Porém o que o Papa diz é mais razoável para a humanidade. Então, estamos negando-os ao razoável. O minimamente razoável.

E o que disse à Igreja também é o razoável?

Sem dúvida. À Igreja, ele pede saída, uma Igreja mais flexível, mais aberta. Um processo que vai se fazendo pouco a pouco, não que destrói todo o anterior, mas sim que vai sabendo reintegrar em uma nova dimensão aberta e diversificada da Igreja. Nesse sentido tivemos um curso muito bom sobre sinodalidade. Todo o curso desse ano aos novos bispos foi sobre sinodalidade. Também é certo que nem todos os palestrantes estavam à altura, houve vários palestrantes que se deram conta de que estamos indo rumo a uma Igreja que vai fazendo a história e, portanto, esse o sentido claro da eclesiologia. E, em segundo lugar, o povo de Deus tem todos nós por responsáveis, pessoas simples, construindo a Igreja que o Senhor nos inspira.

Falando do Sínodo, o que você espera do Sínodo da Amazônia? O que faria você se sentir satisfeito por ser alcançado neste sínodo?

Que o grupo de igrejas da Amazônia tenha uma conexão com as igrejas urbanas que as ajudam, um fidei e donum e, simultaneamente, uma promoção das novas formas específicas de Igreja que devem ser vividas naquele mundo. Dessa forma, teríamos o exemplo para que esse novo modelo se aplique a todo o mundo e crie novas formas de Igreja muito mais abertas.

Ou seja, que a estratégia, no fundo, é que esse modelo possa servir em outas partes, extrapolar-se?

Um primeiro passo para entendê-lo: tem que se dizer que a Amazônia é o ponto extremo do mundo, onde se está vivendo toda a crise que estamos vendo. Já o incêndio é o grito máximo. Nesse mundo complexo e que, ademais, é o pulmão do mundo, se começa a viver uma fé como os missionários já fizeram. O que acontece é que há dioceses que não têm nem padre. São o povo simples, o povo sensível, se os valorizamos, os acalentamos. Nós vamos aprender, o povo nos ensina. E se podemos fazê-lo repercutir na sociedade para que o povo veja e todos, então, colaboramos, teríamos um diálogo que permita a reforma nas igrejas locais, especialmente nas urbes.

Uma Igreja profética e servidora.

É isso. Nossa forma de ser Igreja já não é suficiente. Em nosso seio há lutas de poder e necessitamos uma reforma religiosa, começando pela religiosidade popular, que não se aproveita a fundo. Às vezes, como no caso de Guadalupe, parece que andamos no piloto automático. Não pode nos interessar somente o culto a Deus e que, depois, cada um faça o que quer, ainda que seja maltratar a sua mulher. Devemos fazer o que nos pede o Papa: “apoiar os movimentos populares, que querem alargar nossa democracia”.

Portanto, uma Igreja nada clerical.

Nossa Igreja há de ser viva, simples e sensível. Temos que ser servidores do povo, e não príncipes rodeados de sacerdotes escaladores. Vivemos uma mudança de época, em que o novo povo construirá as novas formas de ser Igreja. E, logicamente, para isso precisa atacar o clericalismo, que reflete a fé das elites, o sacerdotalismo, que foi o que mais prejudicou Israel.

Já tomou o pulso em Lima?

Um pouco. Sim, com temor e tremor (risos). Porque creio que é uma realidade complexa não somente pelo passado, mas porque é uma sociedade muito desafiadora e temos que imaginar muito o que será o novo.

A experiência que temos com os três bispos, que somos párocos, é que a conhecemos com o povo simples. O diálogo é muito lindo: há muita abertura. Tu sabes que somos um dos países mais religiosos da América Latina e, por sua vez, cremos que nos falta aprofundar o sentido da evangelização, que está presente no coração da religiosidade. O Papa me indicou muito que descobrisse que nossos santos foram profetas e que, além disso, dentro desse profetismo há uma fonte inesgotável de evangelho. E que então, com cuidado, com respeito e com carinho, saibamos resgatar o profético.

Algum espinho em seu começo como arcebispo de Lima?

Claro. As rosas sempre têm espinhos.

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