Carta ao presidente Jair Bolsonaro por respeito à Constituição Brasileira

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26 Setembro 2019

"O seu discurso na Assembleia da ONU foi desrespeitoso; ameaçador a um líder indígenaRaoni, que tem uma trajetória histórica na defesa dos povos indígenas; e ameaçador aos indígenas quando declara, internacionalmente, que não irá demarcar terras indígenas, agride assim a Constituição do país que o senhor governa e passa por cima dos tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário" escreve a Frente Amazônica de Mobilização em Defesa dos Direitos Indígenas

Eis a carta.

É com angústia e vergonha que lideranças indígenas e não indígenas, membros da Frente Amazônica de Mobilização em Defesa dos Direitos Indígenas (FAMDDI) recebem o discurso do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, na 74ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), no dia de hoje, 24 de setembro de 2019, particularmente, em relação aos indígenas brasileiros e, mais especificamente, aos da Amazônia, alvos de ataques sem precedentes desde a colonização.

Presidente Jair Bolsonaro, o senhor certamente deve ter lido a Constituição em vigor no nosso País e, pedimos, com respeito, para que releia os Artigos 231 e 232 desta Carta Magna que o senhor jurou respeitar e cumprir em seu ato de posse. Neles está garantida a plena cidadania dos indígenas brasileiros, com respeito às suas diferenças, às suas crenças, saberes e suas culturas e, principalmente, o direito à terra.

Em seu discurso para o mundo ver, presidente, o senhor volta a acusar os indígenas pelas queimadas que aumentam em proporções jamais vistas na Amazônia e, tal qual um colonizador de outrora e um dominante atual, manipula indígenas iludidos crentes que irão usufruir do pseudo desenvolvimento desenhado pelo sistema perverso de sempre e fermentado pelo seu governo.

No jogo da manipulação, o seu discurso sobre a exploração das terras indígenas é recepcionado pelos exploradores como uma “carta em branco” para invadir, expropriar, arrendar esses territórios, e obter lucro bilionário para bilionários cuja trajetória é a de saquear. Aos povos indígenas restarão as mazelas, doenças, fome e morte. Presidente, o senhor deve saber que a própria atividade defendida por seu governo exclui o indígena e ignora o cuidado com o Meio Ambiente.

A Amazônia precisa, urgentemente, de Governos que queiram preservá-la. Os povos originários têm muito a dizer sobre isso. Conheça- os e saberá. Não veja os povos indígenas de forma pejorativa. Não são “homens da caverna”, como afirmou em seu discurso. Os indígenas são Gente da Floresta, dos Rios, da Natureza. São o sangue, as tradições e parte importante da Cultura do País que o senhor preside. Os povos

indígenas têm a marca do respeito à Natureza, princípio que consagra o desenvolvimento que se realiza pela conexão ecológica.
Senhor presidente, os povos indígenas não são únicos, de fato, mas não use a diferença como arma de destruição, pois reside na diferença o elo divino e natural para o relacionamento humano, crescimento espiritual e alegria de viver.

A FAMDDI luta contra os colonizadores que ergueram preconceitos e discriminação contra os povos indígenas, e continuará lutando contra os preconceitos, a discriminação e as injustiças contra os Direitos dos Indígenas, hoje ameaçados pelo seu governo.

Senhor presidente, a diversidade étnica é a expressão que mantém forte a existência dos povos indígenas e um dos alimentos da luta pela construção do bem viver. Nas aldeias e nas cidades, os indígenas reafirmam o direito de estudar e aprender a mexer num computador, colocar roupas e falar outras línguas sem deixar de ser indígenas. A luta travada é pelo respeito que os indígenas merecem ver realizado no Brasil. O seu discurso na Assembleia da ONU foi desrespeitoso; ameaçador a um líder indígena, Raoni, que tem uma trajetória histórica na defesa dos povos indígenas; e ameaçador aos indígenas quando declara, internacionalmente, que não irá demarcar terras indígenas, agride assim a Constituição do país que o senhor governa e passa por cima dos tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário.

Hoje, senhor presidente, sentimos indignação por sua conduta perante o mundo. Para quem o senhor governa? Isto não é democracia!

Manaus, 24 de setembro de 2019

Assinam esta carta, como membros da FAMDDI:

Associação das Mulheres Indígenas do Rio Negro (AMARN)
Associação dos Docentes da Universidade Federal do Amazonas (ADUA)
Conselho Indigenista Missionário (Cimi Norte I)
Fórum de Educação Escolar e Saúde Indígena (Foreeia)
Serviço de Ação, Reflexão e Educação Sociambiental na Amazônia (SARES)
Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Amazonas (SJP-AM) Serviço e Cooperação com o Povo Yanomami (Secoya)

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