Cardeal venezuelano: documento sinodal é forte na ecologia, mas fraco na eclesiologia

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26 Setembro 2019

Segundo o cardeal venezuelano Jorge Urosa, o documento preparatório da próxima assembleia dos bispos em Roma sobre a região amazônica é defeituoso e fraco porque Cristo está mal representado.

Ainda segundo o religioso, arcebispo emérito de Caracas, o documento conhecido como instrumentum laboris equivoca-se ao referir Jesus Cristo como “o Bom Samaritano”.

“Jesus Cristo nunca se apresentou como o Bom Samaritano”, disse Urosa ao sítio Crux em entrevista concedida no último dia 23 de setembro. “O Bom Samaritano é a pessoa que temos de imitar para ajudar a outros. Jesus Cristo se apresentou como o Redentor, como o Caminho, a Verdade e a Vida, como a Ressurreição, como a Luz do Mundo. É um defeito, uma fraqueza deste documento que é o instrumentum laboris”.

A entrevista é de Inés San Martín, publicada por Crux, 25-09-2019. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Na entrevista, Urosa destacou dois objetivos principais do Sínodo dos Bispos para a Amazônia a ocorrer entre os dias 6 e 27 de outubro: “O primeiro é promover uma ecologia integral para a região amazônica. E o segundo é propor novos caminhos para a Igreja nessa região”.

A defesa da Amazônia é muito importante, disse o cardeal, e “graças a Deus a Igreja está tendo iniciativas muito valiosas” para protegê-la. “No entanto, o problema da Amazônia, do ponto de vista eclesiológico, não foi bem abordado”.

Além disso, argumentou, a maioria dos que falam do sínodo “tocam somente nos aspectos ecológicos e socioculturais, e muito pouco nos aspectos eclesiológicos e pastorais. Existe um equilíbrio, porque o trabalho principal da Igreja é a evangelização, levar o Evangelho de Jesus Cristo ao mundo, a todas as populações”.

Urosa não participará no sínodo. No entanto, oito prelados da Venezuela estarão presentes no evento, entre eles o Cardeal Baltazar Porras, sucessor de Urosa como arcebispo de Caracas. Baltazar foi nomeado pelo Papa Francisco como um dos três delegados presidentes do encontro.

Essa não é a primeira vez que Urosa expressa sua preocupação por um sínodo. Em 2015, segundo foi informado, ele teria sido um dos cardeais que assinaram uma carta dirigida ao Papa Francisco que levantava algumas dúvidas concernentes a temas que vinham sendo discutidos no Sínodo dos Bispos sobre a Família.

Durante a entrevista ao Crux, o cardeal também falou da situação na Venezuela, dizendo que o presidente Nicolás Maduro “tem que abandonar” a liderança do país.

Urosa se referiu ainda às críticas que Francisco tem recebido de alguns setores com respeito à sua renúncia a desafiar abertamente Maduro: “O papa vem agindo e está permanentemente preocupado com a situação no país, mas não é a linha política do Vaticano confrontar os governos diretamente”.

De acordo com Urosa, “o papa apoiou a atitude direta de crítica permanente do governo pelos bispos venezuelanos porque o papa sabe que realmente entendemos a situação”.

Ao descrever a posição dos bispos, o cardeal falou que se trata de uma “confrontação” contra Maduro porque “não há outra solução”.

Eis a entrevista.

Como está a situação na Venezuela?

Está muito mal porque o governo é incapaz de administrar o país, e a administração dos recursos da Venezuela está piorando. Um exemplo que mostra o progresso terrível da economia é que há pouco mais de um ano 1 dólar custava 60 bolívares soberanos. Hoje, um dólar custa 21 mil bolívares soberanos. Isso indica que a economia está sendo mal administrada e os que mais sofrem são os pobres.

Isso explica por que há uma emigração contínua, particularmente entre os jovens e em todas as classes sociais. As pessoas deixam a Venezuela porque infelizmente não conseguem sobreviver.

A situação está muito, muito mal.

O senhor passou vários dias em Roma. Conversou com alguém no Vaticano sobre a situação no seu país?

Falei com [Dom Edgar Pena Parra] o substituto [da Secretaria de Estado do Vaticano], que é venezuelano. Ele está muito preocupado, mas estamos plenamente alinhados, graças a Deus. O papa apoiou a atitude direta de crítica permanente do governo pelos bispos venezuelanos porque sabe que realmente entendemos a situação.

Há os que criticam o papa pelo fato de que, embora tenha apoiado a conferência dos bispos, ele não é direto em sua crítica a Maduro...

A Santa Sé, o Vaticano e o papa não adotam normalmente posições diretas contra os governos. Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI não tomaram uma posição de confrontação contra o governo de Cuba, nem irá o Vaticano fazer contra a Venezuela.

O papa proferiu repetidas vezes mensagens claras, tanto em público quanto em privado, ao governo. Sei de pelo menos duas cartas privadas em que o papa exigiu de Maduro mudanças concretas em relação com o progresso do país.

O papa vem agindo e está permanentemente preocupado com a situação no país, mas não é a linha política do Vaticano confrontar os governos diretamente. E é importante sabermos isso.

A Igreja na Venezuela é administrada pelos bispos, em plena harmonia como papa, e estamos, devemos dizer, contra este governo. Houve um momento em que a nossa atitude era crítica, mas não de confronto.

Hoje, [a atitude dos bispos] é a de confrontação porque não há outra solução. O governo está mal, o governo deve cessar, deve se retirar, porque cada dia que passa a situação do povo piora. Este regime não tem capacidade para governar a Venezuela. Ele deve sair.

Os bispos disseram recentemente que o diálogo entre o governo e uma oposição minoritária não ajuda a Venezuela. O que ajudaria a Venezuela hoje?

É preciso dizer que este novo diálogo é uma farsa. Foi feito um diálogo entre os grupos que representavam uma maioria e tivemos um progresso, embora tenha sido difícil. Mas Maduro decidiu se retirar das conversas e escolheu, em vez disso, investir em um diálogo personalizado, com a participação de figuras da oposição que foram muito importantes e que tiveram um desempenho valioso em outras ocasiões, mas que agora não têm representação.

É um diálogo vazio, sem representatividade.

Em poucas semanas começa o Sínodo da Amazônia. A Venezuela faz parte deste sínodo.

Sim, há uma parte da Venezuela que está na área geográfica da Amazônia.

O senhor vê a necessidade de um sínodo sobre a Amazônia?

Este sínodo tem dois objetivos principais. O primeiro é promover uma ecologia integral para a região amazônica. E o segundo é propor novos caminhos para a Igreja na região.

Do ponto de vista da questão ecológica, sociológica e cultural, um sínodo não seria necessário. No entanto, o papa quis convocar um sínodo para a Igreja refletir a respeito e dar uma contribuição. E existe a outra parte – eclesiológica e missionária – que é, propriamente falando, a parte eclesial. Mas, claro, tudo terá um desenvolvimento sinodal.

Há vários aspectos que importam ressaltar e foram mencionados no chamado Instrumentum laboris. Gosto de distinguir entre o sínodo e o Instrumentum laboris preparado para o sínodo. É um documento que passa por esses dois aspectos. Aborda questões ecológicas e socioculturais, além de questões missionárias e eclesiais.

Do ponto de vista ecológico, está muito bom. Mas, quanto às questões eclesiológicas e missionárias, possui muitos pontos falhos. O que será um problema para o sínodo, pois o Instrumentum laboris de alguma maneira define o tom [das discussões].

O aspecto ecológico é interessante e faz uma defesa necessária do território amazônico, do meio ambiente e das populações amazônicas que não são só indígenas. Tem havido uma exploração extrativista de matéria-prima, o que vem prejudicando a ecologia da região, que impacta o mundo todo. Um fato infeliz foram os terríveis incêndios ocorridos este ano. A defesa da Amazônia é muito importante, e graças a Deus a Igreja está tendo iniciativas muito valiosas.

No entanto, o problema da Amazônia, do ponto de vista eclesiológico, não foi bem abordado. Além disso, a maioria dos que falam do sínodo “tocam somente nos aspectos ecológicos e socioculturais, e muito pouco nos aspectos eclesiológicos e pastorais.

Existe um equilíbrio, porque o trabalho principal da Igreja é a evangelização, levar o Evangelho de Jesus Cristo ao mundo, a todas as populações, tanto indígenas como urbanas na Amazônia: há milhões vivendo em cidades como Manaus, Belém do Pará, Iquitos, não apenas indígenas em áreas isoladas.

Estas pessoas requerem uma evangelização direta, explícita, aberta de Jesus Cristo. E isso é pouco abordado no documento.

O documento apresenta uma população amazônica quase idílica, o homem perfeito, o nobre selvagem de Jean-Jacques Rousseau. São pessoas normais, seres humanos com os mesmos problemas, virtudes e defeitos como todas as pessoas no mundo. E para elas também temos que levar o Evangelho.

O texto fala muito sobre acompanhar, seguir, compreender e dialogar, mas pouco sobre a necessidade de anunciar o Evangelho de Jesus Cristo. E isso, de certo modo, explica a realidade do crescimento das igrejas pentecostais e evangélicas na região, enquanto o catolicismo na Amazônia não cresce com a mesma força.

Devemos fazer um estudo sério, realizar uma profunda análise da realidade eclesial da população da Amazônia. Devemos nos perguntar por que os evangélicos e pentecostais crescem, e a Igreja não. Isto deveria convidar os Padres Sinodais à reflexão.

O Instrumentum laboris precisa ser muito bem revisado porque possui muitos defeitos e omissões, e aqui devemos insistir no verdadeiro objetivo e missão da Igreja, que é levar o Evangelho de Jesus Cristo ao mundo. Não nos pedem para levar a cultura ocidental aos povos nativos. O que nos pedem é levar o Evangelho de Jesus Cristo a todas as criaturas. Não se trata de suplantar uma cultura com outra, mas levar o Evangelho aos povos originários da Amazônia.

Trata-se de um esforço de evangelização forte e intenso nessa região.

Como se pode realizar este esforço? Há pouco estive na região amazônica do Equador, e aí alguém me contou que, se não conseguimos levar os sacramentos a uma pessoa por falta de padres, então ela pode decidir sair e a Igreja tem de dar a sua bênção para isso...

Temos vivido na Venezuela, desde meados do século XIV até meados do século XX, uma situação de grande escassez de padres em grande parte do território, no entanto viveu-se a fé e ela foi mantida. Não se trata apenas de receber ou não os sacramentos, mas da experiência de fé que havia, que chegava através dos catequistas às famílias, que as comunicavam aos seus filhos.

O problema não é a escassez ou não de padres, mas está na evangelização que se pode fazer, não somente com os padres, mas também com os catequistas. E essa foi a salvação nas planícies e na região do leste venezuelano.

O problema da falta de padres não é a causa da falta de crescimento. O problema é que talvez – e enfatizo a palavra talvez – tem havido pouca ênfase na evangelização, na catequese, na experiência de fé das famílias.

Há um missionário salesiano uruguaio, o Pe. Martin Lasarte, que participará no sínodo, e ele tem assinalado estas realidades. O trabalho missionário deve fundamentalmente se orientar à evangelização. Porque, embora seja verdade que os missionários têm feito um trabalho louvável do ponto de vista social e econômico na defesa dos povos amazônicos, é também verdade que, nestes mesmos locais, que têm sido ajudados pelos missionários, as igrejas evangélicas crescem e a Igreja Católica, não.

Há um problema aí, e ele deve ser abordado: tem a ver com anunciar o Evangelho de Jesus Cristo a estes povos, com a cultura que eles têm, mas não inibir os missionários católicos de anunciar o Evangelho por respeito à cultura amazônica. Tivesse sido este o caso entre os séculos XVI e XVII, a Igreja Católica não teria crescido. Ela cresceu porque os missionários anunciaram Jesus Cristo aos povos indígenas e mestiços da América Latina.

O senhor mencionou que, no Instrumentum laboris, a questão eclesiológica possui omissões e falhas. O que quer dizer?

Me refiro ao fato de que ele não insiste especificamente nos temas evangelizadores e missionários. Não há uma análise da realidade da Igreja [na Amazônia]. Há uma análise da situação ecológica, econômica e cultural, mas não da situação da Igreja. Não se fala de Jesus Cristo como aquele que dá a explicação da realidade do homem, como diz o Concílio Vaticano II.

Refere-se a Jesus Cristo como o “Bom Samaritano”. Cristo nunca se apresentou como o Bom Samaritano. O Bom Samaritano é a pessoa que temos de imitar para ajudar a outros. Jesus Cristo se apresentou como o Redentor, como o Caminho, a Verdade e a Vida, como a Ressurreição, como a Luz do Mundo. É um defeito, uma fraqueza deste documento que é o Instrumentum laboris.

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