Fantuzzi, o jesuíta amigo de Fellini e Pasolini

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26 Setembro 2019

Morreu, aos 82 anos, Padre Virgilio Fantuzzi, o jesuíta do cinema italiano. Crítico de cinema do Civiltà Cattolica, ele mantinha estreitos contatos com Rossellini e Bertolucci.

A entrevista é publicada por Avvenire, 24-09-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Sem sua caneta, sua coragem e sua profundidade, uma parte do mundo católico nunca teria entendido até o fundo alguns ícones do cinema. Suas análises críticas no La Civiltà Cattolica representaram um farol para muitos. Nesta terça-feira, morreu em Roma o padre Virgilio Fantuzzi, escritor emérito e crítico de cinema de "La Civiltà Cattolica",. Tinha 82 anos. Ele morreu após uma longa doença. Era amigo de Pasolini, Fellini, Olmi e muitos outros diretores.

No Facebook, a revista dos Jesuítas dedicou-lhe este post: "Para quem conhece a espiritualidade de Santo Inácio, há uma expressão clássica que é ‘procurar e encontrar Deus em todas as coisas’. O padre Virgilio Fantuzzi procurava-o no âmbito do cinema. Esta foi a sua missão".

Para o padre Antonio Spadaro, diretor de "La Civiltà Cattolica", Fantuzzi foi "um homem que me ensinou sobre o cinema, mas acima de tudo a liberdade de espírito, que para ele sempre foi a chave para ler todas as coisas (até os filmes) à luz do Evangelho".

Autor, entre outros, dos livros Pier Paolo Pasolini (1978), Cinema sacro e profano (1983), Il vero Fellini (1994), Paolo Benvenuti (2004), Fantuzzi ensinou Análise de Linguagem Cinematográfica na Universidade Gregoriana de Roma. Sua última publicação no La Civiltà Cattolica é de 20 de abril passado, dedicado à restauração da obra-prima da Fritz Lang Metropolis.

O padre Fantuzzi nasceu em Mântua em 1937 e ingressou na Companhia de Jesus em 1954, sendo ordenado sacerdote em 1969. Após concluir seus estudos em Filosofia e Teologia em Roma (Pontifícia Universidade Gregoriana), especializou-se em Semiologia do cinema em Paris (Sorbonne, École Pratique des Hautes Études) com Christian Metz. Tornou-se crítico de cinema de La Civiltà Cattolica em 1973, ensinando de 1975 a 2007 Análise de Linguagem Cinematográfica na Pontifícia Universidade Gregoriana.

Além de Fellini, Pasolini, Rossellini e Bertolucci, ele se relacionou com Luchino Visconti, Suso Cecchi d'Amico, Peppino Rotunno, Vittorio De Sica, Michelangelo Antonioni, Gian Luigi Rondi, mas também com Marco Bellocchio e Martin Scorsese. Fantuzzi foi verdadeiramente a testemunha privilegiada de uma época única.

Reproduzimos a seguir a entrevista que Filippo Rizzi fez por ocasião de seu aniversário de 80 anos, publicada em 15 de fevereiro de 2017.

Ele sempre foi visto e considerado como um historiador e especialista em arte, especialmente em pintura, que emprestou sua paixão àquela disciplina que teria cadenciado, mas também moldado, a sua vida como sacerdote e estudioso: a crítica de cinema. É a história e o enredo - "semelhante à aventura de um romance" (gosta de defini-la assim) - do padre Virgilio Fantuzzi, nascido em 1937, histórico colunista de "La Civiltà Cattolica" (na qual ele escreve sem interrupções desde 1973 até o presente) e reconhecido por todos os especialistas da área como o "jesuíta do cinema", que justamente hoje chega à marca dos 80 anos de vida.

Uma meta que esse padre originário de Mântua - com que me encontrei para a entrevista em Roma, na Villa Malta, sede da "La Civiltà Cattolica" - viveu como pretexto privilegiado para abrir com ele o álbum de suas memórias sobre os encontros e os fatos, frequentemente anedotas que o viram protagonista ou marginal, mas espectador agudo de eventos que envolveram personagens como Luchino Visconti, Suso Cecchi d'Amico, Peppino Rotunno, Vittorio De Sica, Michelangelo Antonioni, Gian Luigi Rondi ("de quem recentemente celebrei o funeral, relembrando como ele foi o contato indireto da relação de Fellini com o mundo de nós, jesuítas ... exatamente nos mesmos anos da preparação de um filme imbuído de espírito franciscano como La Strada, tão amado, por coincidência, pelo Papa Francisco ... “) até os diretores conhecidos de “perto” como Marco Bellocchio, Martin Scorsese (“de quem particularmente apreciei agora a realização do Silêncio por sua adesão à espiritualidade inaciana, no entanto, tendo bem presente toda a sua filmografia anterior, começando com Mean Streets e A última tentação de Cristo e nunca esquecendo seu background católico e seu senso de pecado") ou o "meu grande amigo Bernardo Bertolucci" de quem - justamente o crítico de cinema de "La Civiltà Cattolica" - soube fazer uma "leitura ampla e não muito censuradora quase como um ‘confessor’ - e ele diz quase sorrindo - de uma obra complexa e controversa como O último tango em Paris ...”.

Eis a entrevista.

Sua pesquisa e sua paixão pelo mundo da grande tela, nascida na escola de Christian Metz e sua semiologia do cinema, tiveram como estrelas polares principalmente três cineastas conhecidos em profundidade e com quem manteve contato até sua morte: Roberto Rossellini, Federico Fellini e Pier Paolo Pasolini. Por que razão?

Em especial por sua inerente mensagem evangélica. Mesmo apreciando a busca de viés existencial de grandes cineastas como Visconti, Antonioni e De Sica, que aliás tive a oportunidade de entrevistar para uma revista sul-americana, nesses três artistas identifiquei a raiz do significado e daquelas pulsões, dos “verdadeiros poderes de sedução", que são capazes de despertar em mim homens como Rossellini, Pasolini e Fellini. Foram as perguntas sobre a minha vocação, sua curiosidade, o desejo de descobrir como eles realizavam seus filmes, seu "método de cinema", mas também o fato de dedicarem a mim muito do seu tempo (quantas noites passei em Roma com eles falando sobre a sétima arte e os "tipos humanos", como diria Fellini) para me fazer, em certo sentido, um seu discípulo.

Na filmografia de Rossellini, Pasolini e Fellini, o senhor sempre vislumbrou um olhar particular por sua atenção aos desvalidos, àqueles esquecidos por Deus. Pode explicar o porquê?

Eram encontros a meio caminho entre o meu e o mundo deles. Se você rever as obras-primas desses grandes artistas, como Roma cidade aberta, com seu pano de fundo em certo sentido cristológico, Francesco Giullare di Dio, Amore de Rossellini, Accattone de Pasolini ou La Strada de Fellini percebe-se a conexão entre esses três autores e seu caminho comum de busca do autêntico através do humilde: um reflexo de espiritualidade em pessoas que buscam vislumbres de luz em suas vidas. Graças a essas obras-primas e à narração dessas pietas presentes nessas produções, eles representaram para mim modelos a imitar também para minha vida como jovem jesuíta ainda em formação.

Como conheceu esses três grandes artistas e que dívida de gratidão ainda sente por eles...

Se conheci de perto Roberto Rossellini, devo isso a meu coirmão e futuro cardeal de Milão, Carlo Maria Martini, que me permitiu participar do trabalho de reedição dos textos do drama da RAI Atos dos Apóstolos de 1969, dos quais o então jesuíta piemontês era, junto com o padre Stanislas Lyonnet, um dos consultores bíblicos. Desde então, nasceu uma amizade que durou até sua morte em 1977. Todos os anos, a família "alargada" dos Rossellini quer que eu recorde, em minha função de "sacerdote da casa" aqui no La Civiltà Cattolica, com uma missa a memória de meu amigo Roberto. Com Pier Paolo, por outro lado, foi em 1964 que fiquei fulgurado com seu filme O Evangelho segundo São Mateus: lá vi uma coerência e uma fidelidade ao texto do Evangelho que nunca havia encontrado em outros filmes. A ele devo a participação nas discussões do grupo editorial da revista "Cinema e film". Dele ficou para mim - que se declarava "não crente" - sua atenção à minha história e aquele seu constante me perguntar "por que eu me tornei sacerdote". Sempre me impressionou como ele considerasse importante a questão da pedagogia e da linguagem em suas obras. Federico sempre o considerei alguém da casa, graças à comum amizade com meu coirmão Angelo Arpa, o "padre de Fellini". Tenho muitas lembranças sobre ele, incluindo as frequentes ligações dedicadas a discussões pessoais de muitas de minhas resenhas de seus filmes, como o fato de ele ter me permitido assistir a sets de filmagem importantes (ainda me lembro de suas palavras “pode vir quando quiser ... ") como Satyricon ou A voz da lua. Entre os aspectos que mais me agradaram foi poder publicar, alguns anos antes de sua morte, uma entrevista com Fellini no La Civiltà Cattolica, que em certo sentido representava uma homenagem e um ato de gratidão a esse mestre do cinema que apenas alguns anos antes, em 1960, foi cortado na mesma revista sem a possibilidade de repensamento, por causa do La Dolce Vita, pelo jesuíta Enrico Baragli.

Após a morte de Angelo Arpa, Nazareno Taddei, Eugenio Bruno, Enrico Baragli, o senhor é, de certo modo, a última testemunha de uma geração de jesuítas apaixonada pelo cinema ... Que legado deixa para a posteridade?

Acredito que comigo a cortina se fecha num certo sentido sobre um mundo que não existe mais. Por ocasião da apresentação de eventos como um filme de Fellini, a presença de um jesuíta experiente tornava-se quase institucional. Sinto-me, em certo sentido, como "uma velha ferramenta arqueológica" em relação a um mundo em mudança, penso nas redes sociais e na internet, que, no entanto, tenta apesar de tudo manter acesa aquela luz e magia que é a crítica de cinema, e oferecer mesmo para quem é menos equipado, aquelas chaves de leitura não só para apreciar um filme, mas também para tentar entendê-lo.

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