Populismo está empurrando a democracia para a beira do precipício, alerta novo cardeal

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25 Setembro 2019

A democracia está sob ameaça devido à crescente onda de populismo, de acordo com um novo cardeal luxemburguês que pede que a Igreja se oponha às forças antidemocráticas presentes na política.

A reportagem é de Christopher Lamb, publicada por The Tablet, 24-09-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O arcebispo Jean-Claude Hollerich, que será criado cardeal pelo Papa Francisco no dia 5 de outubro, disse que as respostas simples oferecidas pela política populista não resolverão os problemas complexos e acabarão deixando as pessoas ainda mais decepcionadas.

“A Igreja tem um ponto de vista muito claro. Somos contra o populismo, somos a favor dos direitos humanos, somos a favor da democracia. E a democracia está em perigo, porque a civilização está mudando”, disse ele à The Tablet.

A entrevista foi publicada no dia em que a Suprema Corte da Grã-Bretanha decidiu que a suspensão do Parlamento por parte do primeiro ministro, Boris Johnson, era ilegal, embora Hollerich tenha falado com a The Tablet antes que a decisão fosse anunciada.

O cardeal-nomeado Hollerich, 61 anos, presidente da Comece (a Comissão das Conferências Episcopais da União Europeia), disse que o ritmo da mudança causada pela digitalização levanta questões sobre como as democracias podem funcionar no futuro.

“O populismo, nesse sentido, é muito perigoso, porque as perguntas não são mais feitas”, disse. “Você dá uma resposta muito simples – e respostas simples são populares hoje em dia. É muito mais difícil apresentar uma situação complexa e encontrar soluções complexas. Mas as pessoas também ficarão desiludidas.”

Ele continuou: “Eu não vejo como o populismo pode sobreviver com a democracia, porque as soluções que esses partidos apresentam não se sustentam e não resistirão ao teste, porque as situações são muito mais complexas. Portanto, é um momento muito, muito perigoso na história da democracia, e, se você olhar para a história em geral, os séculos de direitos humanos e democracia são muito escassos na história humana. Então, eu acho que a Igreja deveria ter um ponto de vista muito claro”.

O prelado jesuíta, que passou 23 anos morando e trabalhando no Japão, assumiu uma posição dura contra os líderes populistas da Europa, acusando-os de fomentar o medo contra os migrantes. E, antes das eleições europeias deste ano, ele escreveu um artigo descrevendo Steve Bannon, ex-estrategista-chefe do presidente Donald Trump, e Aleksandr Dugin, consultor político russo vinculado ao Kremlin, como “sacerdotes desses populismos”.

Em toda a Europa, diz ele, há sinais de grandes mudanças, desde a ascensão do partido de extrema-direita Liga Norte na Itália, até o caos causado pelo Brexit e a ascensão da política populista na Grã-Bretanha.

“Se você olha de fora para o que está acontecendo no Reino Unido, você simplesmente não consegue mais entender”, afirmou.

“O que está acontecendo? O primeiro-ministro contra o Parlamento, perdendo a maioria parlamentar, discussões intermináveis. Um Parlamento que não quer um Brexit sem acordo, mas também não quer um acordo. Então, é muito confuso, mesmo se você olhar para isso com a melhor das intenções.”

Embora lamente o Brexit, o novo cardeal diz que respeita o resultado do referendo de 2016 e quer que o Reino Unido e a União Europeia encontrem um acordo. É errado, disse ele, que um país da Europa seja punido ou marginalizado, pois isso vai contra a “ideia europeia” que inspirou o bloco.

“Se o Reino Unido não for membro da União Europeia, ele ainda é um país europeu, e precisamos ter boas relações”, explicou. “Então, devemos fazer tudo para ter o melhor acordo, compromissos devem ser encontrados, e isso é muito importante para mim.”

O compromisso, disse ele, não deveria ser visto como “algo ruim”, mas sim como algo que permita que as pessoas vivam juntas.

Hollerich se opõe a um Brexit “sem acordo” atualmente sendo levantado como um cenário possível pelo governo de Boris Johnson e que conta com o apoio de políticos católicos, incluindo Iain Duncan-Smith e Jacob Rees-Mogg, líder da Câmara dos Comuns.

“Pessoalmente, eu tenho dificuldades com isso [um Brexit sem acordo]”, disse ele. “Eu acho que seria ruim para o Reino Unido, seria ruim para a União Europeia e seria ruim para as pessoas mais pobres. Porque as pessoas ricas sempre podem se virar. Mas as pessoas pobres sofrerão com isso, e eu acho que, em política, devemos nos concentrar mais nos pobres do que nos ricos.”

Ele enfatizou, no entanto, que a Igreja não deve impor uma opinião política a ninguém e disse que “sempre serei um defensor da liberdade de expressão, mesmo que as pessoas digam coisas diferentes das que eu penso”.

O arcebispo Hollerich ingressou na Companhia de Jesus em 1981 e, seis anos depois, começou a lecionar na Universidade Sophia, em Tóquio, Japão. Ele ocupou uma série de altos cargos na universidade fundada pelos jesuítas, até ser nomeado arcebispo de Luxemburgo em 2011.

Ele ficou “surpreso” ao ser escolhido como cardeal, acrescentando: “Eu acho que há pessoas mais importantes na Europa do que eu”. Há menos de 500.000 católicos no mini-Estado.

Luxemburgo também não é exatamente a periferia da Europa, se você olhar para a riqueza do país. Estamos mais no pico do que na periferia”, afirmou. “Nós somos a periferia da fé, isso é muito claro.”

O cardeal diz que não é “um cardeal da Europa”, mas sim “um cardeal da Igreja Católica, que é universal”, acrescentando que os problemas europeus não devem ser postos no “nível mundial”. Outros continentes da Igreja, diz ele, têm preocupações completamente diferentes do que a Europa e os Estados Unidos.

“Eu acho normal que haja menos cardeais europeus”, explicou Hollerich. “Eu acho que a Igreja universal deve refletir mais a universalidade da Igreja.”

O arcebispo de Luxemburgo impressionou o papa jesuíta, que ainda este ano viajará para o Japão, e escolheu o cardeal Hollerich para participar do Sínodo da Amazônia no próximo mês. Hollerich chamou a atenção durante o Sínodo sobre a juventude, com suas intervenções inteligentes e ponderadas. Sua abordagem missionária, global, de alcance geral espelha a deste pontificado.

No verão europeu, o arcebispo viajou para a Tailândia e o Camboja com 65 jovens em uma peregrinação para “encontrar Deus e um novo continente”. Ele disse que incentiva os jovens a desenvolver uma vida de oração e encontrar Deus na vida cotidiana. Muitos jovens atraídos pelo cristianismo, diz o novo cardeal, lutam para praticar a oração sozinhos, independentemente de serem mais tradicionais ou progressistas.

“Eu acho que o caminho de discernimento do papa é muito importante, porque a realidade não é preta e branca, existem muitas nuances no meio. Temos que ver a realidade e encontrar Deus na realidade”, disse ele. “Isso não se limita apenas às grandes liturgias, embora eu goste muito das grandes liturgias.”

Sem encontrar Deus na vida cotidiana, disse ele, “tornamo-nos secularizados” e, “às vezes, a abordagem mais conservadora do cristianismo pode ser a mais secularizada”.

Por esse motivo, a liturgia se torna ainda mais importante, principalmente para os jovens que se sentem atraídos pelas expressões tradicionalistas do catolicismo no rito antigo da missa.

“O único lugar em que eles encontraram Deus, muitas vezes, é na liturgia. Então, eles querem preservar esse lugar”, disse ele. “E sabemos que, se você quiser voltar a um encontro com Deus que você teve e criar o ambiente exato, ele não acontecerá novamente. Porque Deus é maior do que o ambiente em que O encontramos.”

Ele continuou: “Então, eu acho que é necessária uma maior liberdade espiritual, porque as pessoas fecham as cortinas espirituais, porque se sentem à vontade”.

O novo cardeal disse que, “por trás de uma certa fachada” dos jovens tradicionalistas, “existem as mesmas ansiedades, as mesmas esperanças”. Ele diz que as lideranças da Igreja devem “tentar dialogar realmente com eles e ver aquilo com que eles se importam e o que eles temem”.

A resistência ao Papa Francisco por parte de setores conservadores e tradicionalistas, argumentou ele, está vindo de pessoas que pensam em “sistemas fechados”, que estão olhando para o passado, mas também se sentem atraídas pela tendência da política identitária.

“Eu acho muito perigoso pensar em sistemas fechados”, disse Hollerich. “Mas também está na moda hoje em dia pensar nesses sistemas. Você tem a mesma coisa na política, é um fenômeno dessa nova civilização, da digitalização, que está surgindo.”

“Então, eu acho que essa resistência ao Santo Padre está enraizada no passado, mas também tem alguma razão na atual civilização ou na mudança cultural que estamos experimentando. O momento identitário se torna mais importante e, se você precisar dessa identidade simples para ser você mesmo, você se sente imediatamente ameaçado.”

Ele acrescentou: “Se você aceitar que as nossas identidades são sempre múltiplas, que também estão mudando no tempo e na história, é muito mais fácil aceitar a mudança”.

Hollerich explicou que o papa “não pensa em sistemas fechados” e “coloca o Evangelho sobre a mesa e depois diz que devemos, todos juntos, caminhar em um caminho sinodal e assumir as consequências desse Evangelho”.

Um problema com sistemas fechados de pensamento é que, quando “você muda um ponto minúsculo, toda a estátua que eles ergueram desmorona. Então, eles não podem admitir que haja pequenas alterações, porque, caso contrário, todo o sistema entra em colapso”.

No dia 5 de outubro, na Basílica de São Pedro, Francisco colocará o barrete vermelho no novo cardeal luxemburguês que, por sua vez, promete ser fiel e obediente ao Sumo Pontífice.

“Para mim, trata-se de estar a serviço do Santo Padre e da Igreja universal”, disse Hollerich sobre o seu novo papel. “E isso também significa estar a serviço de todas as mulheres e homens que compõem esta Igreja.”

Isso exige, acrescentou, uma “conversão constante”, que é “ainda mais urgente quando você é cardeal. Você não pode encontrar mais desculpas para não fazer isso”.

A mesma urgência é necessária à Igreja, que pode superar as crises internas, concentrando-se nas verdades centrais da fé cristã.

“Todos precisamos de uma conversão depois de escutar o Evangelho. E, se concordarmos com a conversão pessoal, com a conversão pastoral da Igreja, com a conversão ecológica e com as outras conversões que somos chamados a fazer, eu acho que superaremos muitos problemas.”

 

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