Teologia e cosmologia, diálogo seguindo Teilhard

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25 Setembro 2019

"O que a evolução/criação nos reserva no futuro? Aqui está a pergunta que fascinava Teilhard e à qual ele tentou apaixonadamente dar uma sua pessoal resposta que na época não podia, como não pode hoje, estar disjunta da revelação cristã que abre a esperança para o advento da basileia ton ouranon, do Reino dos Céus.", escreve Piero Benvenuti, em artigo publicado por Avvenire, 19-09-2019. A tradução de Luisa Rabolini.

Piero Benvenuti é professor Emérito de Astrofísica na Universidade de Pádua, foi o responsável científico para a Agência Espacial Europeia, presidente nacional do Instituto de Astrofísica e membro da Agência Espacial Italiana. Em 2015 foi nomeado secretário geral da União Astronômica Internacional, um cargo que ainda ocupa. É um interessado ativo no diálogo entre ciência e teologia, docente do curso sobre criação e evolução na Faculdade Teológica do Triveneto de Pádua, e em 2011, foi nomeado por Bento XVI consultor ao Pontifício Conselho para a Cultura.

Eis o artigo. 

Em novembro de 2017, durante a primeira sessão da Assembleia Plenária do Pontifício Conselho da Cultura, cujo tema era “O futuro da humanidade”, o nome de Teilhard de Chardin foi mencionado várias vezes, tanto que o espírito do jesuíta parecia pairar no auditório. Talvez tenha sido ele quem me inspirou a propor aos participantes, após o intervalo do café da tarde, escrever ao papa Francisco para que considerasse a possibilidade de revogar o Monitum de 1962, que ainda grava sobre suas obras. Afinal, não apenas os renomados membros do Conselho consideravam a intuição profética de Teilhard extremamente relevante e oportuna na discussão do futuro do Homem e do Cosmos, mas até os últimos pontífices haviam mais vezes citado seus pensamentos em suas Encíclicas.

A proposta foi recebida com entusiasmo, manifestado por um espontâneo caloroso aplauso, e no dia seguinte a carta, aprovada pela Assembleia, foi assinada por mais de quarenta participantes e enviada ao Santo Padre através dos canais oficiais. A resposta, recebida há algum tempo traz a assinatura do Secretário de Estado, Cardeal Pietro Parolin, relata a opinião da Congregação para a Doutrina da Fé que não considera oportuna a remoção do Monitum pois “... não perdeu seu significado como advertência para uma avaliação serena de algumas propostas filosófico-teológicas questionáveis nos textos escritos pelo Padre Pierre Teilhard de Chardin". Apesar da opinião negativa, a resposta esclarece o significado do Monitum, atualizando-o: antes de tudo, comenta positivamente os esforços do jesuíta em aproximar construtivamente o progresso da ciência com a fé cristã e conclui exortando os estudiosos “... a aprofundar o estudo das ambiguidades presentes nos escritos do autor, com os votos de que se consigam maiores esclarecimentos”. Esta última exortação importante – consta na resposta - é compartilhada pelo Papa Francisco e é significativo que coincida temporalmente com a publicação da constituição apostólica Veritatis gaudium, cujo proêmio representa um poderoso convite à renovação dos estudos teológicos.

Essa coincidência estimula algumas reflexões sobre a relação entre a cosmologia moderna (ou seja, a filosofia da natureza) e a teologia. Não há dúvida de que, além de alguns aspectos controversos do pensamento de Teilhard, seu principal mérito consista em ter intuído o valor revolucionário da inesperada característica fundamental do cosmos, ou melhor, sua evolução unitária e global. Uma intuição duplamente meritória, levando em conta que na época estávamos apenas no alvorecer da nova cosmologia, nascida em 1927 por obra de outro padre católico, o belga George Lemaître. De fato, resolvendo as equações da relatividade geral de Einstein aplicadas a todo o universo, Lemaître demonstrava, teoricamente e verificava experimentalmente, que o cosmos se expandia e estava, portanto, "em devir". Para provar que o fato fosse totalmente inesperado, basta recordar a reação instintiva de Einstein que, embora reconhecendo a correção da solução matemática de Lemaître, lhe disse sem meios termos: "Sua hipótese física é abominável" ... para depois retratar-se quando outros dados observacionais dissiparam qualquer dúvida sobre a natureza evolutiva do universo.

Não é de admirar que, mesmo no campo teológico, as consequências dessa revolução cósmica tenham sido difíceis de aceitar à primeira vista, mas hoje não é mais assim: a história do universo que se desenrola há quase 14 bilhões de anos através de fases muito distintas, com acelerações e desacelerações temporais, diversificando-se em uma trama de estruturas e organismos imprevisíveis, até atingir a consciência, tudo isso requer obrigatoriamente uma revisão radical da filosofia da natureza, até agora herdeira da tradição grega. Para usar um termo caro a Thomas Kuhn, estamos diante de uma mudança de paradigma, semelhante à que antecede as grandes revoluções científicas e, como naqueles casos, o abandono de esquemas mentais consolidados, como a clara divisão entre matéria inanimada, vida vegetal, vida animal e finalmente - essencialmente diferente – o ser consciente, pode ser traumática e requer coragem e honestidade intelectual.

Diante dessa nova situação, a teologia não pode mais permanecer inerte: já é positivo ter recuperado, graças aos estímulos da nova cosmologia, o conceito de Criação que Tomás de Aquino havia identificado com lucidez já no século XIII: "Resulta com clareza a incongruência daqueles que buscam a criação com argumentos derivados da natureza do universo ou de sua evolução ... A criação, de fato, não é uma mutação, mas é a própria dependência do ser criado em relação ao princípio que o faz existir. Pertence, portanto, à categoria de relação" (Summa contra Gentiles, II 18). Se, para Tomás, a Creatio é o contínua e, portanto, um ato atemporal que sustenta na existência toda a realidade, hoje sabemos que ele também possui a característica de estar em devir, de ainda não ter atingido à realização: como uma fonte viva do cosmos em evolução nos surpreendeu ao longo de 13,8 bilhões de anos, fazendo emergir estruturas cada vez mais diversificadas e complexas, inesperadas e imprevisíveis, mas todas parte da mesma única narrativa.

O que a evolução/criação nos reserva no futuro? Aqui está a pergunta que fascinava Teilhard e à qual ele tentou apaixonadamente dar uma sua pessoal resposta que na época não podia, como não pode hoje, estar disjunta da revelação cristã que abre a esperança para o advento da basileia ton ouranon, do Reino dos Céus.

Pergunta ainda mais atual para o homem de hoje que não só conheceu o caráter evolutivo do universo do qual faz parte, mas também está aprendendo os mecanismos de sua evolução e pode controlá-los e direcioná-los.

Nossa convocação como co-criadores é cada vez mais urgente e requer o apoio de uma Teologia da Natureza adequada. Esta última poderia ser um dos primeiros resultados do apelo sincero da Veritatis gaudium por uma renovação dos estudos teológicos. Infelizmente, a segunda parte da Constituição Apostólica, embora contida pelo estilo necessariamente mais formal de uma normativa universitária, não parece abraçar completamente o impulso inovador do proêmio. Fala-se, indubitavelmente, da necessidade de uma maior interdisciplinaridade nos estudos, mas a referência é genérica para "... outras ciências, em primeiro lugar as ciências humanas" e, de qualquer forma, não se refere às Faculdades propriamente teológicas para as quais a máxima atenção, no que se refere à interdisciplinaridade, permanece ainda focada no estudo da filosofia. É sintomático que a Cosmologia e a Filosofia (ou Teologia) da Natureza nunca sejam mencionadas, como se a primeira fosse comparável a qualquer outra disciplina científica e a segunda não fosse mais matéria de estudo da Filosofia, mas unicamente da Ciência. A mudança de paradigma intuída por Teilhard é hoje tão evidente que deveria ser aprofundada com determinação em pelo menos algumas Faculdades teológicas, que poderiam especializar seus estudos em direção a uma nova Teologia da Natureza, também seguindo as muitas sugestões contidas na encíclica Laudato si'.

Nessa perspectiva, seria desejável e certamente acolhida com entusiasmo uma estreita colaboração com as Faculdades científicas laicas que tratam de Cosmologia e matérias correlatas, desobstruindo assim o terreno de toda separação artificial entre Ciência e Fé. Se essa hipótese não for realizada, o já agora insuperável desenvolvimento de uma nova Teologia da Natureza ocorrerá de qualquer forma, mas se materializará fora das Universidades Católicas com imagináveis desagradáveis consequências que seria oportuno evitar a todo custo.

 

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