Não é uma questão de ética, mas de como imaginamos Deus

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13 Setembro 2019

“Eu venho para esta conversa como negro, padre gay e teólogo.” Essa foi a frase de abertura do Pe. Bryan Massingale, na conferência do dia 4 de julho no 50º aniversário do DignityUSA, um grupo que se descreve assim: “Celebrando a plenitude e a santidade dos católicos LGBTQI”. O DignityUSA também organizou um encontro de quatro dias da Global Network of Rainbow Catholics antes do congresso.

A reportagem é de Tom Roberts, publicada por National Catholic Reporter, 10-09-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Como outros, eu percebi a palestra como uma “saída do armário” pública. Mas, como explicou Massingale, professor de Ética Teológica e Social da Fordham University, em uma troca de e-mails e em uma conversa telefônica, na verdade, não foi isso.

“Eu não fiz isso porque sentia a necessidade de algum grande anúncio”, escreveu ele em um e-mail. “Como eu disse na minha reflexão, a manchete não é ‘Padre sai do armário’. (...) Por muitos anos, eu estou ‘fora do armário’ e sou honesto sobre a minha sexualidade com aqueles a quem eu amo e que me amam. Além disso, minha orientação não é uma ‘notícia de última hora’ para muitos outros que me conhecem mais casualmente.”

Qualquer que tenha sido a sua intenção, esse ilustre estudioso e autor soube como chamar a nossa atenção. A sua história pessoal de uma crescente conscientização e autodescoberta é preenchida pela fúria e pela angústia de alguém que responde a um chamado a uma vocação que, desde o início, simultaneamente, convida-o a ter um profundo anseio por Deus enquanto o prepara para uma inevitável rejeição no cerne da sua humanidade.

O título de Massingale para a palestra foi “O desafio da idolatria para o ministério LGBTQI”, e essa é a chave para a parte mais profunda da sua mensagem. O que a idolatria tem a ver com isso? O mesmo que Deus tem a ver com isso – e isso é tudo.

Foi durante um retiro inaciano em 1982, pouco antes da sua ordenação como diácono, enquanto ele meditava sobre o primeiro relato da criação no Gênesis, que ele “notou que, quando a criação foi concluída, não havia uma única pessoa negra. Nem havia quaisquer pessoas gays. Enquanto eu olhava para a humanidade, para todas as pessoas criadas à imagem de Deus, não havia ninguém que se parecesse comigo. Ou que amasse como eu. Não havia nada na criação que me espelhasse”. Ou, pelo menos, não depois de anos de educação católica e do modo como eles haviam moldado a sua imaginação e a sua compreensão sobre si mesmo e sobre Deus.

“A minha própria oração traía que eu não acreditava nisso. Eu não acreditava que Deus pudesse ser imaginado como negro. Ou como gay. E, certamente, não como ambos ao mesmo tempo.”

Vale a pena citar detalhadamente o núcleo da sua intuição:

“O grande desafio que enfrentamos como pessoas minorizadas sexualmente não é um problema de ética sexual. Nós temos a tendência de pensar – e nos dizem isto – que os nossos problemas na Igreja e na sociedade decorrem da nossa não conformidade com o código moral da Igreja.

“Mas a Igreja tem uma solução para esse problema. Se você pecar, pode se confessar. Você recebe o perdão e a absolvição. (...) O nosso problema mais profundo – aquele que mais nos causa dor, alienação e autoalienação – é que nos contaram uma história falsa sobre Deus e nos foram dadas imagens falsas de Deus. Esse é o nosso problema.

“Subjacente a todas as lutas que enfrentamos em todo o mundo e às histórias que ouvimos ao longo desta assembleia – histórias de expulsão de paróquias, ostracismo das nossas famílias e, em geral, de não ser bem-vindo –, subjacente a todas essas experiências, está uma história que o catolicismo conta sobre si mesmo.

“O cerne dessa história é que ser católico é ser heterossexual. ‘Católico’ = ‘hetero’. O catolicismo oficial conta uma história em que apenas as pessoas heterossexuais, o amor heterossexual, a intimidade heterossexual, as famílias heterossexuais – só eles podem espelhar inequivocamente o Divino. Somente eles são verdadeiramente sagrados. Genuinamente santos. Somente eles são dignos de aceitação e respeito sem reservas. Todas as outras pessoas e expressões de amor, de vida familiar, de intimidade e de identidade sexual são sagradas (se é que o são) apenas por tolerância ou exceção.

“Com efeito, contaram-nos que somos ‘pensamentos posteriores’ na história da criação, e não uma parte do plano original. Em outras palavras, somos ‘filhos de um deus menor’. (...) Sim, certamente precisamos repensar a ética sexual oficial da nossa Igreja. Mais ainda, precisamos repensar a Deus.

Imagine que vida teríamos nós, aqueles não sobrecarregados por um Deus tão limitado, se a nossa aceitação na comunidade católica dependesse da tolerância de outros seres humanos, e não da suposição do amor não qualificado de Deus por nós. Imagine se a imagem de Deus fomentada pelos líderes religiosos excluísse um elemento da sua identidade humana que é intrínseco a quem você é.

A irmã beneditina Joan Chittister, ao falar sobre a evolução do seu pensamento sobre Deus, diz que aquilo que acreditamos em Deus – o modo como imaginamos Deus – “colore tudo o que fazemos em nome de Deus. Isso dá forma tudo o que pensamos sobre as outras pessoas”. De fato, observa ela, a crença em Deus não é realmente uma grande novidade – isso aconteceu infinitamente ao longo da história. “É o tipo de Deus em que escolhemos acreditar que, no fim, faz toda a diferença.”

As mulheres, compreensivelmente, oferecem algumas das novas e mais profundas intuições para reimaginar o Deus do cristianismo católico que emergiu a partir de séculos de formulação por parte de uma cultura em grande parte secreta, exclusivamente masculina e celibatária.

Em seu livro Quest for the Living God”, a Ir. Elizabeth Johnson, das Irmãs de São José, escreve que as lutas para entender Deus de novas maneiras surgiram nas últimas décadas devido a uma variedade de eventos e forças – como o fato de tentar entender o mal do Holocausto, uma série de questões de justiça social e “a partir do encontro do cristianismo com a bondade e a verdade nas tradições religiosas mundiais”. Aquilo que antes era um território estabelecido, o monarca (sempre masculino) cuja relação com os humanos era uma série de transações e de cálculos de coisas boas e ruins em um balancete cósmico, está sendo pesquisado do zero e reconstruído.

“Por ‘idolatria’”, disse Massingale, “eu me refiro à crença generalizada de que apenas pessoas, amores e relacionamentos heterossexuais são padrão, normativos, universais e verdadeiramente ‘católicos’. Que somente eles podem mediar o Divino e carregar o sagrado. Que Deus só pode ser imaginado como hetero.”

Isso situa a conversa em um novo campo. Massingale transforma a questão “Em qual ética você se inscreve?” para “Em quem Deus você acredita?”.

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