Para o Sínodo, “o verdadeiro ponto de partida são os povos amazônicos, o Povo de Deus na Amazônia”. Entrevista com cardeal Michael Czerny

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10 Setembro 2019

No primeiro dia de setembro deste ano, o papa Francisco surpreendeu a Igreja e o mundo com a nomeação de treze novos cardeais. Uma das maiores surpresas foi o padre Michael Czerny, s.j., que reconhece ter ficado atônito com a notícia, a qual pouco a pouco começa a assimilar.

A entrevista é de Luis Miguel Modino, publicada por Religión Digital, 10-09-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

O jesuíta trabalhou nos últimos anos como subsecretário da Seção de Migrantes e Refugiados do Vaticano, junto ao scalabriniano Fabio Baggio. Atualmente o neocardeal é um dos secretários especiais do Sínodo para a Amazônia. Dali que sua nomeação surpreendeu nas periferias de São Paulo. Ele passou um mês conhecendo a realidade da Igreja da Amazônia, participando em reuniões de bispos, se preparando para o Sínodo. Na Bolívia, Brasil, Colômbia e Peru, descobriu muitos elementos comuns, o que “me anima e me dá esperança para o Sínodo”, no que vê que “o verdadeiro ponto de partida é o Povo de Deus na Amazônia, os povos amazônicos”.

Uma atitude fundamental durante o Sínodo é a escuta: “Precisamos passar o Sínodo escutando”, insiste o padre Czerny. A escuta atenta é o que permitirá assumir a mudança radical que faz falta. Se trata de um passo fundamental no processo de discernimento: descobrir no outro e junto ao outro o que Deus está querendo nos dizer, entendendo que há outro ponto de vista além do meu, e que “Deus nos fala através de sua Graça, operando em nós”, à qual devemos estar atentos.

Eis a entrevista.

O papa Francisco acaba de nomeá-lo cardeal, que foi uma surpresa para muitos. Nesse primeiro dia de setembro, quando, na madrugada, soube da notícia, qual foi sua reação inicial?

Estava tão surpreso que não podia reagir. É um fato totalmente novo e grande, e fiquei atônito. Somente agora, depois de uma semana, creio que começo a assimilá-lo.


Neocardeal Michael Czerny, cardeal Cláudio Hummes e o arcebispo de Puerto Maldonado dom David Martínez de Aguirre. Foto: Luis Miguel Modino

Uma das grandes atenções do papa Francisco é a realidade dos migrantes e refugiados. Você, como subsecretário da Seção Migrantes e Refugiados, se converteu em uma das grandes vozes na sua defesa a nível mundial. Pensa que sua nomeação como cardeal significa um reconhecimento a todos os que, não somente no Vaticano, mas em todo o mundo, trabalham nessa dimensão de prevenção do tráfico, do acompanhamento e ajuda aos migrantes e refugiados?

Para responder cito algo que me tocou muito. Desde o Mar Jônico, um navio de resgate bloqueado a apenas 20 km de Lampedusa: “Sua nomeação – e a de dom Matteo Zuppi, arcebispo de Bologna – foi acolhida hoje com um grito de alegria por toda a tripulação e os migrantes a bordo. Todos celebramos, porque sentimos como se fosse uma carícia do papa Francisco para nós e a todos os migrantes, refugiados e descartados do mundo”.

Junto com você foram nomeados outros doze cardeais, nove eleitores e elegíveis e outros três eméritos. O que destacaria em conjunto a essas nomeações?

Realmente não sei, a providência me pôs aqui. Eu recebi a notícia nos subúrbios de São Paulo, não tive contato com os demais novos cardeais, e não estou seguindo de perto as notícias. Sim, sei que o papa Francisco disse que as nomeações tem a ver com a universalidade da Igreja e com a diversidade entre nós, não somente geográfica, mas também de temas ou trajetórias ministeriais e missionárias. Se vê a pluralidade da Igreja.

Vocês vão receber o chapéu cardinalício no próximo 5 de outubro, véspera do início do Sínodo para a Amazônia. Você acredita que com isso o papa Francisco quer expressar alguma coisa de cara ao Sínodo?

Eu suponho que não. O Santo Padre tem um enorme respeito pela integridade e a independência do processo sinodal. Não penso que nos nomeou com um olho no Sínodo.

Você é um dos secretários especiais do Sínodo para a Amazônia e durante um mês percorreu a América Latina e participou de diferentes encontros de algumas conferências episcopais e do CELAM. O que percebeu nesses encontros, nesse conhecimento da realidade mais próxima da América Latina e, em concreto, das Igrejas da Amazônia?

A primeira coisa que me chama a atenção é a base comum de todas as reuniões. Assisti reuniões oficiais em quatro países diferentes (Brasil, Colômbia, Peru e Bolívia), e uma reunião organizada pelo CELAM, o conselho regional para toda América Latina e Caribe. Ou seja, cinco reuniões sobre o mesmo tema, e cada reunião diferente. Diferente em sua organização, em seu desenvolvimento, no tom. No entanto, todas as reuniões foram sobre o mesmo assunto; o território Amazônico e seus povos, e sobre a mesma problemática da ecologia integral, e sobre os novos caminhos que necessitamos. Isso me anima e me dá esperança para o Sínodo: podemos contribuir cada um desde a sua própria situação, envolvimento, inserção, território. O que cada um está vivendo e sobretudo sofrendo com seu próprio povo. Quando conversam juntos, estão falando desde essa variedade de perspectivas sobre o mesmo, e isso me dá esperança que o Sínodo vai poder abraçar as muitas problemáticas de uma maneira construtiva.

Falando de problemáticas, que você percebe nessas reuniões, e da informação que receberam fruto do processo de escuta, quais seriam as principais problemáticas no campo da ecologia integral e dos novos caminhos para a Igreja?

A primeira resposta que pode parecer abstrata, porém não é, é que se trata da unidade e a complementariedade entre os dois temas do sínodo, entre esses novos caminhos de “a Igreja” e de “uma ecologia integral”. Apesar de parecerem temas muito separados, na realidade não são. Estamos descobrindo quanto estão integrados, quanto são complementares, e como se desenvolvem juntos. Quando são abordados conjuntamente, então podemos captar melhor os desafios, e temos mais possibilidades de descobrir novos caminhos reais de mudança, não somente ideias sobre o tema.

A segunda resposta é a importância de partir e de voltar em cada discussão à realidade que vivem, e sofrem, os povos amazônicos e seu território, e não deixar de escutar esses clamores dos pobres e da terra que clamam por nossa ajuda. Alguém poderia pensar que o Sínodo se convoca devido à crise ecológica e os terríveis incêndios na Amazônia. Não exatamente. O verdadeiro ponto de partida são os povos amazônicos, o Povo de Deus na Amazônia e também seu território. Para esses povos, eles não possuem o território, mas sim que são parte dele. A Igreja, então, quer descobrir cada vez mais como acompanhar esses povos, a quem foi enviada como missionária, como profeta, há vários séculos.


Michael Czerny

Um dos aspectos mais destacados do Sínodo e da sinodalidade que quer impulsionar o papa Francisco é a escuta como ponto básico para o diálogo. Qual é a importância do grande processo de escuta que se levou a cabo na Amazônia em direção ao Sínodo?

O difícil da “escuta” não é tanto o escutar, mas sim o silenciar. Alguém pode dizer, “escutamos, agora vamos falar”. Para pessoas com um “background” e uma educação moderna, calar-se é muito difícil. Então, o fato de ter radicalmente optado pela escuta como primeiro passo é indispensável, e me impressiona muito. Passamos o Sínodo escutando, não somente os bispos, mas também os auditores que vão representar todo o povo amazônico.

Essa atitude de escuta está muito presente na vida do papa Francisco. Contam que na primeira reunião do conselho pré-sinodal ele praticamente não falou. Em uma entrevista, um bispo argentino dizia que quando se encontra com ele, a primeira coisa que o Papa lhe fala é “Eu não te conto nada, tu que me contas, quero te escutar”. Vocês diziam que se surpreendeu que em alguns dos encontros em que participou os bispos escutavam de boca fechada o que as pessoas diziam. Está se instalando, pouco a pouco, a Igreja assumindo, pouco a pouco, essa atitude como fundamental no processo de evangelização?

Oxalá, oxalá. Penso que parte do milagre do Sínodo é que alguns ajudem os outros a escutar. Cada um volta para sua casa tendo aprendido a se calar e a escutar. O grande desafio vem depois. O teólogo P. Carlos dizia que o processo sinodal tem três fases: a preparação/consulta (2018-19), a celebração da assembleia/discernimento em outubro, e a recepção e atuação, a mais importante e prolongada (2020 em diante).

Você insiste muito no tema do discernimento, algo muito próprio da espiritualidade inaciana. Qual é o discernimento que deveria ser levado a cabo dentro dos processos sinodais?

Retornamos em certo sentido à palavra escutar, mas agora é escutando minha própria experiência espiritual. Na aula sinodal com todos, no meu pequeno grupo de discussão, andando e retornando ao lado de um colega, vejo o que me tocou, o que me comoveu e presto atenção à experiência espiritual, emocional e profundamente humana que me leva a agradecer a Deus. Reconheço algo que eu não sabia, que agora essa pessoa me ajudou a captar. Eu pensava assim e agora vejo que há outro ponto de vista. Estar atentos aos movimentos de graça dentro de nós, reconhecemos uma mudança espiritual e interna, e isso é questão de discernimento, porque é lá que Deus consegue se comunicar com todos e cada um de nós na assembleia.

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