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08 Setembro 2019

“Os benefícios da biotecnologia não serão universais, mas elitistas, e isso poderá promover a divisão entre humanos com condições de desfrutar a eugenia seletiva e os excluídos”, avalia Josep L. Barona, doutor em Medicina, professor de história da ciência na Universidade de Valência e membro do Instituto de História da Medicina e Ciência López Piñero, em artigo publicado por El Diario, 02-09-2019. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Pensamos que a modernidade nos fez reconhecer que os seres humanos são iguais e respeitáveis. É o que parece ter surgido da Declaração Universal dos Direitos Humanos, contida na Carta de Genebra de 1948. Se olharmos para o presente, se diria que a globalização contribui ainda mais para o acesso de todos a mercadorias, ideias e informações. Mas, essa percepção é uma ilusão, vale a pena parar para refletir e, para começar, proponho uma afirmação contundente: a globalização e a tecnologia não contribuem para a igualdade, mas, ao contrário, para a desigualdade entre elites onipotentes e o resto dos humanos.

É verdade que as desigualdades existem desde a Antiguidade. Em seu último livro, o historiador Yuval Harari lembra que há mais de 30.000 anos os caçadores-coletores enterraram alguns membros em tumbas suntuosas com enxovais, joias e propriedades, enquanto outros foram enterrados em buracos miseráveis. Pensemos nos grandes impérios da Antiguidade, nas sociedades agrícolas e pecuárias do Neolítico, nas sociedades urbanas, hierárquicas e escravagistas, onde pequenas elites monopolizavam a riqueza, controlavam a ordem e o pensamento através da religião.

Uma ordem supostamente sagrada, natural e divina. Reconheçamos que desde a antiguidade os seres humanos construíram comunidades hierárquicas e desiguais. O Antigo Regime era um modelo de dominação quase sempre foi patriarcal, estabelecendo desigualdades entre nobres e plebeus, homens e mulheres, fiéis e pagãos, burgueses e proletários, pais e filhos, livres e escravos, heterossexuais e o restante.

No entanto, a modernidade - especialmente o Iluminismo – tornou a igualdade um valor intrínseco de todo ser humano, um ideal associado à universalidade dos direitos, que se transformou em movimento social e político em todas as utopias libertárias e no comunismo marxista, com o movimento operário e sua ameaça de revolução.

Ajudou, é claro, o poder das massas operárias e de suas organizações durante a industrialização, de modo que o sindicalismo revolucionário, as mil formas de socialismo e socialdemocracia, o reformismo, o laicismo, todos eles propiciaram governos envolvidos na garantia da saúde, da educação e do bem-estar, como um direito inalienável do homo civicus, da cidadania e a civilização. Qualquer que seja o nosso relato do século XX, concordaremos que, em maior ou menor grau, contribuiu para a redução das desigualdades legais e sociais, entre classes, raças e gêneros.

Mas, no início do século XXI, a situação está mudando radicalmente. Todos os indicadores assinalam que as elites minoritárias monopolizam os benefícios econômicos da globalização e o poder no mundo. O 1% mais rico possui metade da riqueza do mundo, as 100 pessoas mais ricas possuem mais que os 4 bilhões mais pobres. A globalização está gerando três categorias de seres humanos: a elite imensamente rica e poderosa, os trabalhadores e os excedentes (pobres, desempregados, idosos).

Em um contexto de revolução da indústria da saúde, quem se beneficiará com o aumento da inteligência artificial e da robótica, da bioengenharia, da genômica, da medicina regenerativa, da agricultura transgênica e do domínio dos big data? Trabalhadores assalariados, desempregados e pobres que migram como ratos fugindo da miséria terão o mesmo acesso à vida, alimentação e saúde que o onipotente 1%? O sistema global é atualmente um atentado contra não apenas a igualdade, como também ao direito à vida e a saúde.

As elites tradicionais baseavam seus privilégios na ordem religiosa, social e econômica: algo externo à inteligência, órgãos e os genes. No futuro, uma parte minoritária poderá melhorar seus genes, tecidos, órgãos, e viver mais e melhor. A biotecnologia pode criar um novo paraíso para as elites, oferecendo-lhes um grau de privilégio sem precedentes: a superioridade biológica através da eugenia.

Enquanto a indústria da saúde estiver em mãos privadas e usufruir do atual sistema de patentes, tão lucrativo, e enquanto não houver uma indústria pública e democrática, o acesso ficará vetado aos insolventes. Os benefícios da biotecnologia não serão universais, mas elitistas, e isso poderá promover a divisão entre humanos com condições de desfrutar a eugenia seletiva e os excluídos.

Assim, o 1% mais rico não apenas acumulará a maior parte da riqueza e do poder, como também monopolizará os benefícios do melhoramento biológico de seus genes, seus tecidos, seus órgãos, sua beleza, sua saúde e sua longevidade. Confesso que não gosto de fazer ficção científica, mas essa questão não é sobre isso, respeitado leitor. Ao contrário, como diria algum banqueiro político corrupto: “aqui não há armadilha, nem crime, é o mercado, amigo!” (Ou melhor, “é o mercado, estúpido"?)

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