O caso do Instituto João Paulo II: continuidades, descontinuidades, má-fé

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28 Agosto 2019

Um resumo dos “capítulos” anteriores: estamos falando do Pontifício Instituto Teológico João Paulo II para as Ciências do Matrimônio e da Família.

A reportagem é de Fabrizio Mastrofini, publicada por Settimana News, 24-08-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em julho, foram divulgados os novos Estatutos e o novo Ordenamento dos Estudos. Algumas cátedras foram suprimidas, e alguns professores viram seus ensinamentos cancelados. Em particular, o Pe. Livio Melina não detém mais a cátedra de Teologia Moral Fundamental, e também Prof. José Noriega não detém mais a sua cátedra.

Imediatamente, gritou-se o escândalo: “Desse modo, apaga-se e dispersa-se a herança de São João Paulo II e a centralidade do seu magistério da família!”.

Os representantes dos estudantes assinaram uma carta solicitando explicações, e, um dia depois, estava pronto um sítio para a coleta de assinaturas.

No dia 29 de julho, um comunicado de imprensa do Pontifício Instituto (também em inglês e em espanhol) não surtiu efeito algum. No dia 5 de agosto, foi divulgada uma foto do Pe. Melina com o papa emérito, para narrar o apoio do segundo ao primeiro (basta uma foto?). Em meados de agosto, uma carta assinada por dezenas de professores pediu a revisão das mudanças.

Enquanto isso, ao longo desse período, realizou-se uma orquestrada campanha midiática. Os jornais italianos protagonistas foram o Il Foglio e o La Verità. Os sítios foram: La Nuova Bussola Quotidiana e os blogs de Aldo Maria Valli e de Marco Tosatti, com as suas conexões internacionais: LifeSite, Infovaticana (Espanha) e epígonos alemães e poloneses. Por fim, no dia 18 de agosto, chegou o site Settimo Cielo [de Sandro Magister], logo retraduzido em várias línguas.

O clamor levantado foi notável, mas se trata de uma galáxia midiática circunscrita, de marca conservadora, que se caracteriza por ataques contínuos ao Papa Francisco sobre todas as questões e de todos os modos. Parece justamente que o Papa Francisco, para eles, não acertou nenhuma. E mesmo ele quando toma medidas radicais, bem, é muito pouco...

Sem falar do sub-alvo preferido dos sites conservadores: Dom Vincenzo Paglia como Grão-Chanceler do Pontifício Instituto Teológico e presidente da Pontifícia Academia para a Vida. Com excessos paroxísticos que beiram a comicidade (se não fossem fake news dramáticas). Como o incidente que ocorreu com Tosatti em julho: citando a sua costumeira “garganta profunda”, disse que Dom Paglia havia sido indiciado, enquanto, sobre o ponto específico, existe um pedido de arquivamento. Houve uma apressada marcha à ré do ex-vaticanista do La Stampa, mas nenhum arrependimento, porque ele continua “cutucando” o arcebispo.

O que está em jogo

O tema sério se resume na pergunta de fundo: a herança de João Paulo II sobre a família realmente está em questão?

A resposta: é claro que não. Mas onde estão as provas?

A carta apostólica Summa familiae cura, que institui o Pontifício Instituto Teológico João Paulo II para as Ciências do Matrimônio e da Família, vai expressamente na direção de uma continuidade real.

Como escreve o Papa Francisco: “A mudança antropológico-cultural, que influencia hoje todos os aspectos da vida e requer uma abordagem analítica e diversificada, não permite nos limitarmos a práticas da pastoral e da missão que refletem formas e modelos do passado. Devemos ser intérpretes conscientes e apaixonados da sabedoria da fé em um contexto em que os indivíduos são menos apoiados do que no passado pelas estruturas sociais, na sua vida afetiva e familiar”.

E está na linha da Familiaris consortio (n. 31, por exemplo), quando convida os teólogos a se comprometerem cada vez mais com uma eficaz explicação do magistério sobre a família.

Certamente, a Familiaris consortio (1981) apontava decisivamente para a moral matrimonial e para a implementação da Humanae vitae. Em 2019, estamos diante de problemáticas “diferentes”. E, de fato, jornais e sites conservadores silenciam deliberadamente o aspecto fundamental da nova estrutura do Pontifício Instituto, começando pelo nome: “para as Ciências do Matrimônio e da Família”.

A mudança é indicada pelo Papa Francisco na constituição apostólica Veritatis gaudium, que redesenha os ensinamentos transmitidos por universidades e faculdades eclesiásticas. O Instituto João Paulo II se adapta à Veritatis gaudium, e os novos Estatutos e Ordenamentos, de fato, foram aprovados pela Congregação para a Educação Católica. Não é um “golpe” de Dom Paglia, mas sim uma transformação que se destina a investir sobre toda a educação superior católica.

Continuidade e abertura ao novo

E, precisamente no ponto 4c da Veritatis gaudium, existe o programa de uma estrutura formativa que seja capaz de interceptar outros saberes quando fala de “a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade exercidas com sabedoria e criatividade à luz da Revelação. O que qualifica a proposta acadêmica, formativa e de investigação do sistema dos estudos eclesiásticos, tanto a nível do conteúdo como do método, é o princípio vital e intelectual da unidade do saber na distinção e respeito pelas suas múltiplas, conexas e convergentes expressões. Trata-se de oferecer, através dos vários percursos propostos pelos estudos eclesiásticos, uma pluralidade de saberes, correspondente à riqueza multiforme da realidade na luz patenteada pelo evento da Revelação (...). Esse princípio teológico e antropológico, existencial e epistemológico reveste-se de um significado peculiar e é chamado a mostrar toda a sua eficácia não só dentro do sistema dos estudos eclesiásticos, garantindo-lhe coesão juntamente com flexibilidade, dimensão orgânica juntamente com a dinâmica, mas também em relação ao panorama atual fragmentado e muitas vezes desintegrado dos estudos universitários e ao pluralismo incerto, conflitual ou relativista das convicções e opções culturais”.

E então? É claro que também é possível discordar do Papa Francisco. Mas não a ponto de entender mal um desenho orgânico que tenta enfrentar os desafios dos tempos. A Familiaris consortio se conectava aos desafios dos anos 1970 e 1980 após o Sínodo sobre a família de 1980. Após os dois Sínodos de 2014 e 2015 (34 e 35 anos depois de 1980!), na continuidade essencial do ensinamento sobre a centralidade da família na sociedade e na Igreja, implementam-se instrumentos novos.

Então, se é possível discordar (talvez) de procedimentos concretos, congelar a família aos ditames dos anos 1980 é uma operação de retaguarda com outro propósito: deixar a Igreja inteira recuada e “recuante”.

Uma operação, além disso, disfarçada de “catolicismo” (são todos sítios “católicos” ou autoproclamados como tais), enganadora da boa-fé dos fiéis. Que têm, cada vez mais, o dever de aprofundar.

 

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