Polônia: totalitarismo de gênero ou novos pogroms?

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20 Agosto 2019

Na Polônia de Kaczynski, dominus do partido conservador Direito e Justiça (PiS) atualmente no poder, expressão dos soberanistas na Europa, e em vista das eleições legislativas em 13 de outubro, a discussão sobre gênero não podia evitar o viés ideológico. Também para a Igreja Católica, envolvida em um debate público acalorado.

A reportagem é de Lorenzo Prezzi, publicada por Settimana News, 18-08-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Tudo decorre do confronto violento entre uma manifestação de cerca de 800 ativistas LGBT (gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros) em uma "marcha da igualdade" em Bialystok (20 de julho) e alguns milhares de contra-manifestantes, controlados com dificuldade pela polícia. O arcebispo da cidade, D. Tadeusz Wojda, em 7 de julho, advertiu aqueles que insultavam os valores cristãos, profanavam seus símbolos e recorriam a blasfêmias, e indicava a marcha como "uma iniciativa estranha à nossa terra e à nossa sociedade".

A violência dos confrontos por parte dos extremistas de direita sugeriu ao bispo e ao porta-voz da Conferência Episcopal que se distanciassem de "toda forma de agressão". Posição criticada pelo Catholic News Service (24 de julho) como sendo do tipos Pilatos, "com declarações banais sobre a oposição à violência". O clima tinha se superaquecido com cerca de quarenta contra-manifestações, uma festa popular em favor da família tradicional e uma coleta de assinaturas, organizada por membros do partido no poder.

Entre junho e julho, marchas similares para os direitos LGBT aconteceram em 20 cidades do país. Em contraste, nos últimos meses, cerca de quarenta municípios e assembleias regionais declararam seu território "livre da ideologia LGBT". Às paródias à Nossa Senhora, aos símbolos cristãos e às apresentações obscenas se contrapõem declarações do tipo “LGBT significa pedófilos, zoófilos, necrófilos”, destinados a “transformar os seres humanos em erotomaníacos estéreis”, até denunciar o perigo para a nação: “chegam com bandeiras arco-íris para roubar nossos valores, uma ameaça para a Polônia”.

A ideologia do passado e a nova praga

Em 17 de maio, por ocasião do dia mundial da homofobia, a multinacional Ikea havia demitido um funcionário pelas críticas feitas contra as diretrizes antidiscriminatórias em relação aos homossexuais anunciadas pela empresa. Em um comentário, a pessoa em questão citou Lv 20.13 “Quando também um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão; o seu sangue será sobre eles". O Conselho Permanente do Episcopado criticou a decisão da Ikea e a doutrinação da empresa, defendendo a liberdade de pensamento do funcionário.

Em 1º de agosto, por ocasião do 75º aniversário da revolta de Varsóvia, o arcebispo de Cracóvia, Marek Jedraszewski, comparou a "praga vermelha" do comunismo russo com a "epidemia" da cultura homossexual. A primeira não existe mais, "mas uma nova está nascendo, àquela criada pela cultura LGBT e pelas bandeiras arco-íris, uma ameaça aos valores e à solidez social e familiar de nossa nação", um novo perigo para a família e os valores da tradição popular.

As declarações levantaram muitas críticas dos círculos homossexuais, da oposição política e de algumas vozes católicas. Uma manifestação diante do episcopado e uma segunda diante da Nunciatura em Varsóvia exigiam a renúncia do bispo. Em defesa do metropolita, interveio o presidente da Conferência Episcopal, o arcebispo Stanislaw Gadecki de Poznan, com uma declaração de tom moderado e claro. Depois de ter reconhecido às minorias sexuais o legítimo título cristão de irmãos e irmãs e o respeito por todos, ele se recusa a aceitar uma ideologia que "visa derrubar os costumes sociais e as relações interpessoais". O justo contraste à discriminação dos homossexuais não pode ignorar o crescimento de uma ideologia que nega a diferença de gênero e busca o reconhecimento jurídico do casamento homoafetivo e da adoção em casais homossexuais. Segundo ele, a forma e a agressividade das críticas do bispo de Cracóvia são indicativas de um totalitarismo ideológico que reivindica a liberdade de expressão ao negá-la aos outros.

Em torno da posição do presidente dos bispos poloneses formou-se um amplo consenso que liga os episcopados dos países vizinhos. O primeiro a intervir foi o arcebispo de Praga, cardeal Dominik Duka, evocando uma proximidade da ideologia de gênero com programas ateus e satânicos. Depois dele expressaram-se no mesmo sentido o presidente do episcopado eslovaco, D. Stanislav Zvolensy, que recordou a particular sensibilidade das Igrejas centro-europeias diante a censuras pela liberdade de opinião por parte das ideologias. Depois foi a vez do arcebispo András Veres, presidente dos bispos húngaros. Finalmente, também interveio o cardeal da Cúria Zenon Grocholewski, ex-prefeito da Congregação para a Educação Católica.

Visegrado católica?

Um consenso que foi amplamente e tendenciosamente manipulado pela atual maioria do governo polonês, que já por ocasião das recentes eleições europeias havia usado a denúncia da ideologia de gênero e o perigo do reconhecimento dos casais homossexuais, rejeitando as próprias recomendações da Organização Mundial da Saúde.

A Igreja Católica polonesa está tendo dificuldade para sair das sombras das posições mais atrasadas devido à explosão de acusações de pedofilia ao clero (cf. SettimanaNews: "Polônia, os bispos, a pátria e a pedofilia"), por sua resistência a uma abordagem pastoral aos crentes homossexuais e para os muitos silêncios dos últimos anos. Em particular, como recordou nestas páginas o falecido D. Tadeusz Pieronek, não apenas sobre a imigração, mas também sobre o estado de direito (cf. SettimanaNews: "Polônia fora da União Européia?"), sobre a independência do judiciário, sobre a falta de respeito por oposições e minorias, sobre a vontade de limitar a liberdade da mídia e sobre a pretensão de modelar o relato da história do país ("Polônia, outro sinal preocupante").

Em um contexto popular centro-europeu ainda fortemente crítico em relação a alguns dos "novos direitos", com excessiva facilidade propostos como "evidentes" pelas elites locais e europeias, é difícil escapar da oposta denúncia de "novo totalitarismo" e "novos pogroms". Em detrimento das minorias mais expostas.

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