Jesus é o “companheiro constante de minha vida”. Entrevista com Gerald O'Collins

Revista ihu on-line

Caetano Veloso. Arte, política e poética da diversidade

Edição: 549

Leia mais

Mulheres na pandemia. A complexa teia de desigualdades e o desafio de sobreviver ao caos

Edição: 548

Leia mais

Clarice Lispector. Uma literatura encravada na mística

Edição: 547

Leia mais

Mais Lidos

  • Müller também se recusa, na 'TV do diabo', a participar do Sínodo

    LER MAIS
  • Aquele que veio para desconstruir e devastar - Frases dia

    LER MAIS
  • Desmatamento na Amazônia já chega a quase 9 mil km² em 2021, mostra Imazon

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


15 Agosto 2019

Gerald O’Collins é um padre jesuíta e teólogo sistemático australiano, trabalhando atualmente como professor adjunto da Universidade Católica Australiana. Estudou na Xavier College e na Universidade de Melbourne antes de entrar para a Companhia de Jesus em 1950 e ser ordenado ao sacerdócio em 1963. É doutor em teologia pela Universidade de Cambridge, licenciado em teologia sacra pela Heythrop College, mestre e bacharel em letras clássicas pela Universidade de Melbourne.

De 1973 a 2006, O’Collins lecionou na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma. Antes, ensinou teologia durantes semestres alternantes na Jesuit Theological College, em Melbourne, e na Weston School of Theology, em Boston, entre os anos de 1969 e 1973.

É autor e coautor de mais de 60 livros, incluindo o recente “Christology: Origins, Developments, Debates” (Baylor University Press, 2015), que é uma continuação da obra original intitulada “Cristologia”.

A entrevista é de Sean Salai, SJ, publicada por America, 02-12-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis a entrevista.

No último dia 15 de junho, o senhor publicou uma espécie de continuação de seu livro original intitulado “Cristologia”. O que o fez a escrever um segundo livro sobre cristologia?

O meu livro original “Cristologia", agora em edição revisada pela Oxford University Press, buscou ensinar coisas básicas a alunos e professores, o que me restringiu de cobrir questões bíblicas, históricas e teológicas essenciais. Então, o admirável diretor da Baylor University Press, o Dr. Carey Newman, quis um livro meu, e pensei: “Sim, vale a pena mapear os debates recentes sobre Jesus, ilustrando como Pedro e Paulo são guias centrais para a fé em Cristo, e fazendo um balanço de alguns temas que dizem respeito ao diálogo fundamental de hoje com membros de outras religiões”. E assim surgiu este segundo livro chamado “Christology: Origins, Developments, Debates” (Cristologia: origens, desdobramentos, debates, em tradução livre).

O que é a cristologia e qual a coisa mais importante que os católicos podem saber a respeito?

Na disciplina de cristologia, perguntamos: “Quem foi e é Jesus?” e “O que ele tem feito por nós e pelo mundo?” As nossas respostas moldam o nosso senso católico e a nossa identidade cristã. Se não compreendermos corretamente Jesus, não compreenderemos corretamente a Igreja.

Neste livro de 2015, quais lições ou graças o senhor extraiu dos debates recentes em cristologia?

Me permita mencionar três desdobramentos que são bem-vindos. Primeiro, Larry Hurtado e outros estabeleceram com firmeza que, desde os primeiros anos do cristianismo, Jesus era adorado e reconhecido como verdadeiramente divino. Segundo, a cristologia de Jon Sobrino, SJ, e de outros teólogos da libertação, promoveram a causa da transformação social através da prática da justiça e da paz. Terceiro, Han Urs von Balthasar incentivou o reconhecimento da beleza de Cristo como um dado central.

O senhor é um teólogo sistemático. O que estas palavras significam e o que é distintivo em sua abordagem neste campo?

A teologia sistemática se põe a esclarecer termos, formular perguntas centrais e organizar os dados básicos da fé cristã em um todo coerente. Desde o começo de minha carreira teológica, baseei-me nas Escrituras e em fontes históricas, e aproveitei a obra de filósofos destacados. Desde o início da década de 1980, fiz da experiência o “leitmotif” de minha teologia. Finalmente sempre procurei empregar uma linguagem direta e acessível quando escrevi os meus livros e artigos. Lamento que ainda hoje muitos teólogos continuem a escrever em uma linguagem que carece de uma comunicação vívida.

Pesquisas recentes indicam que os jovens católicos querem uma experiência de Deus a partir da própria religião e não de um conjunto de princípios. O Papa Francisco, companheiro jesuíta, parece reforçar esta atitude quando fala sobre a fé em termos de encontro com Jesus Cristo que é a verdade. Dada esta ênfase evangélica sobre as relações, e não sobre as ideias, como descreve o papel da teologia na Igreja Católica hoje?

Grande parte da teologia católica tira proveito da ajuda dada por excelentes estudos bíblicos e pela pesquisa histórica, sem mencionar as contribuições advindas das ciências humanas e naturais. Esta teologia, porém, deveria ser mais relacional, experiencial e orante. O que significa seguir os cristãos dos ritos orientais, permitindo que o Espírito Santo extraia o melhor em nossas experiências e relações, fazendo também a teologia servir à nossa adoração comum e à nossa oração pessoal. A teologia ocidental ainda precisa dar mais espaço ao “Deus intermediário”.

Nestas cinco décadas trabalhando como teólogo acadêmico, quais os grandes desdobramentos e mudanças que o senhor testemunhou na teologia católica?

A teologia católica testemunhou grandes mudanças na medida em que deixou de ser um monopólio clerical grandemente masculino. Apoiado pelo crescimento dos estudos bíblicos e históricos, em geral ela deixou para trás o escolasticismo abstrato e uniu-se ao Beato John Henry Newman no exame de como o magistério da Igreja se desenvolveu ao longo dos séculos. Em grande parte, a liderança no campo teológico passou da Bélgica, França e Alemanha para os Estados Unidos.

Em sua opinião, o que a teologia católica mais precisa hoje?

Movidos pelas necessidades pastorais do nosso mundo e da Igreja, muitos teólogos e teólogas em ascensão relutam em aprender as línguas clássicas e modernas. Mais do que nunca, a teologia católica necessita de homens e mulheres prontos a dedicarem-se plenamente aos estudos.

O magistério, ou a autoridade magisterial dos bispos unidos com o papa, frequentemente restringe o trabalho de teólogos a partir de uma preocupação pastoral de proteger os fiéis contra teorias que parecem demasiado novas ou improvadas. Que dom o magistério oferece aos teólogos?

Os bispos não só conduzem a Igreja como também representam fileiras inumeráveis de católicos. Formam um júri ao qual os teólogos se dirigem quando da testagem dos resultados de seus estudos e ideias. O diálogo com os bispos ajuda a garantir uma teologia saudável.

Muitos teólogos jesuítas, especialmente nos anos anteriores ao Concílio Vaticano II, foram impedidos de publicar e lecionar, mas depois foram tidos como ortodoxos. O jesuíta Karl Rahner chegou a sugerir que os teólogos não estariam fazendo nada realmente de interessante até o momento em que se vissem censurados e aí permanecessem por certo tempo. Que dom os teólogos oferecem ao magistério?

Muito mais que os bispos, os teólogos têm tempo para a leitura, reflexão e discussão. Eles deveriam oferecer aos bispos os frutos de seus trabalhos e, às vezes, uma correção respeitosa.

O seu livro sobre a trindade se chamou “The Tripersonal God”. Quais as principais ideias que o senhor buscou dar à nossa teologia católica da trindade?

Abordei quatro questões em “The Tripersonal God”: O que podemos saber do nosso Deus trino? Como devemos adorar o nosso Deus? O que Deus nos chama a fazer? O que podemos esperar receber através da “graça do Nosso Senhor Jesus Cristo, do amor de Deus Pai e da comunhão do Espírito Santo”?

O seu livro recentemente publicado “Jesus Our Priest” destaca o triplo ofício de Cristo como sacerdote, profeta e rei. Para o senhor, que imagem captura mais vivamente esta teologia do sacerdócio de Jesus?

Uma fotografia da catedral copta no Egito mostra Cristo, o Sumo Sacerdote, em glória estendendo suas mãos feridas ao universo.

Nas últimas décadas, alguns teólogos cristãos rearticularam o nosso antigo desconforto com a realidade histórica e física da ressurreição de Jesus Cristo, procurando explicar este evento em termos metafóricos ou psicológicos. Mas, em seus livros sobre a ressurreição, o senhor insiste que as próprias Escrituras impossibilitam interpretar a ressurreição de Cristo como outra coisa senão um evento que aconteceu a um corpo físico. Com base em sua pesquisa, o que há de errado com as teologias recentes que buscam reinterpretar a ressurreição em termos não literais?

As teologias que buscam uma interpretação “superespiritual” da ressurreição de Cristo propõem a sobrevivência deste eu interior ou, pior ainda, esta “ressurreição” é apenas um modo de falar sobre a continuação, por nós, dos ideais de Cristo. Elas interpretam equivocadamente a robusta proclamação do Novo Testamento segundo a qual ele ressurgiu corporalmente do túmulo para uma vida nova de glória. Sem aceitar um túmulo vazio, não acreditamos no Cristo vivo e poderoso que transformará os seres humanos e o mundo.

Um desafio teológico na questão da ressurreição, assim como em muitos dos milagres relatados nas Escrituras, é que parecemos incapazes de explicar precisamente como ocorreu. Resumindo a sua própria obra, o que acha que realmente aconteceu a Jesus Cristo na ressurreição?

Quando Jesus ressurgiu de corpo e alma dentre os mortos, sua vida histórica ressurgiu com ele. A sua existência material foi transformada e suspendida de todos os limites que experienciamos em nossa vida terrena. Com a capacidade humana de Cristo de se relacionar e se comunicar maximizada, a ressurreição prefigurou a atividade transformadora de Deus que irá, finalmente, transformar e redimir todo o universo criado. É isto em linhas gerais. Não é fácil exprimir e traduzir em detalhes. Afinal, ao lidar com a ressurreição estamos diante do maravilhoso mistério pascal que ultrapassa o nosso intelecto.

No livro “The Survival of Dogma” (A sobrevivência do dogma), o falecido cardeal jesuíta Avery Dulles apontava que a nossa teologia católica da Eucaristia poderia ser mais refinada, tendo acrescentado que as recentes teorias como a da “transfinalização” e “transignificação” não conseguiram dar alternativas satisfatórias ao dogma clássico da transubstanciação. A esta altura da história em que se encontra o dogma católico, de que forma o senhor pensa que a nossa teologia da Eucaristia pode se desenvolver num sentido positivo e que continue a honrar o magistério tradicional?

O Beato Papa Paulo VI sabiamente dizia que “depois da transubstanciação as espécies do pão e do vinho tomam nova significação e nova finalidade”. Como o maior dos sacramentos e o ato central de adoração na vida da Igreja, a Eucaristia jamais pode ser expressa inteiramente. Mario Farrugia e eu gastamos muitas páginas no livro “Catholicism” (Oxford University Press, 2015) tentando resgatar teologicamente uma apreciação tradicional e contemporânea da Eucaristia.

Nas igrejas católicas orientais, a teologia se desenvolveu em sentidos que parecem muito mais próximos do cristianismo ortodoxo do que do catolicismo romano, resultando numa fé que é plenamente católica e, ao mesmo tempo, completamente livre de influências tomistas. Hoje, o que em nossa teologia os católicos do rito latino podem aprender com a tradição católica oriental?

A tradição católica oriental valorizou o papel do Espírito Santo na vida da Igreja e manteve um sentido vívido de beleza, divino e humano. Esta teologia dos ícones muito tem a ensinar aos católicos e teólogos ocidentais.

Qual a coisa mais importante que o senhor aprendeu com a teologia?

Ao longo dos anos, aprendi a necessidade de “cuidar o que falo” na presença de Deus. Nós teólogos precisamos ter cuidado com as palavras que empregamos.

Como a sua identidade e formação jesuíta influencia o modo como faz teologia?

Os Exercícios Espirituais de S. Inácio, que modelam a formação e a identidade dos jesuítas, são totalmente centrados em Jesus. Isto influenciou profundamente a minha teologia e também me levou a pôr o nome de “Jesus” nos títulos de 10 ou mais livros que escrevi.

Quem é Jesus para o senhor?

O companheiro constante de minha vida, Jesus é Aquele em quem quero centrar todo o meu pensamento e amor.

Quando encontrar Jesus na próxima vida, o que espera acontecer?

Espero ser simplesmente arrastado pela beleza singular de Cristo. Espero e rezo para que ele perdoe os meus pecados e, talvez, ainda me agradeça por me pronunciar em seu nome nos meus escritos e em minha docência.

Quem são os personagens que lhe inspiram na Igreja, sejam vivos ou mortos?

Encontrei inspiração nos alunos a quem lecionei na Universidade Gregoriana que, como o Beato Oscar Romero (ex-aluno), foram martirizados pela prática da fé que tinham: Patrick Gahizi, SJ, a Irmã Luz Marina Valencia Treviño e outros. Bons Samaritanos de hoje, eles se puseram a ajudar os feridos e pagaram o preço mais alto pelo seu amor.

Como reza?

Os salmos e frases do Novo Testamento (p.ex., “o amor sempre persevera”) são o que melhor nutrem a minha vida de oração.

Como a sua fé mudou ou evoluiu com o passar dos anos?

Quando entrei para a Companhia de Jesus, pensava demais sobre a minha própria salvação eterna. Tive de aprender a importância central do serviço amoroso para com o outro.

Qual a sua passagem bíblica favorita, e por quê?

Tenho com grande estima o hino de São Paulo ao amor em 1 Coríntios 13, e parece que ele ganha vida sempre quando substituo “amor” pelo nome de Jesus. Afinal, ele era e é o ágape que Paulo celebra.

Como o senhor descreveria a teologia do Papa Francisco?

O Papa Francisco está tentando implementar o magistério do Vaticano II: por exemplo, um comando colegiado e uma preocupação radical pelos pobres proposto pelo concílio.

Se pudesse dizer algo ao Papa Francisco sobre a teologia católica hoje, o que diria?

Por favor, incentive mais teólogos como o Cardeal Walter Kasper a darem um passo à frente e ajude-os a serem ouvidos.

Qual arrependimento tem do passado?

Gostaria de ter feito mais pelos enfermos, famintos e encarcerados.

O que espera para o futuro?

Espero que o bom Senhor continue a me ajudar servir os outros nos anos que me restam.

O que deseja que as pessoas aprendam a partir de sua vida e obra?

No momento estou prestes a publicar o terceiro volume de minhas memórias, obra intitulada “From Rome to Royal Park” (Connor Court and Gracewing). Uma autobiografia é, inevitavelmente, um ato de autojustificação. Ainda assim, espero que estes volumes iluminem as pessoas sobre coisas como, por exemplo, de onde vieram a minha vida e a minha teologia, e tudo mais.

Onde encontra Deus mais presente em sua vida hoje?

Vivendo como faço entre milhares de universitários, tanto australianos quanto de outros países, encontro Deus no entusiasmo que demonstram pela vida e em suas esperanças para com o futuro.

Algum pensamento final?

Quero expressar a minha profunda gratidão pela hospitalidade duradoura a mim demonstrada pela revista America e por todos os que viveram ao longo dos anos na America House.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Jesus é o “companheiro constante de minha vida”. Entrevista com Gerald O'Collins - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV