“A resistência ao Papa inclui vários cardeais e grupos muito ricos e potentes dos EUA”. Entrevista com Austen Ivereigh

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12 Agosto 2019

Para o jornalista britânico, que prepara um novo livro onde aborda a resistência ao atual Pontífice, assegura que a corte em torno do Papa emérito é fonte de divisão no Vaticano. E sobre o Chile, assegura: “Um dos fatores da crise na Igreja foi a deformação realizada por Sodano”.

Austen Ivereigh conhece bem o papado atual. Não somente publicou em 2014 o livro “Grande Reformador” – considerado uma das mais exaustivas biografias do Papa – mas também cobriu de perto os anos de Francisco no Vaticano, para vários meios de comunicação especializados. E nos últimos três anos trabalhou, não sem certa dificuldade, em uma nova obra cujo nome é revelador: “Wounded Shepherd, Pope Francis and His Struggle to Convert the Catholic Church” (Pastor ferido, o Papa Francisco e sua luta para converter a Igreja Católica). Um trabalho onde aprofunda a resistência que enfrenta Jorge Mario Bergoglio desde sua chegada ao papado em março de 2013, depois da surpreendente renúncia de Bento XVI.

De passagem pelo Chile, onde fez uma conversa na Universidad Católica e participará em um retiro com a comunidade jesuíta local, o também fundador do Catholic Voices conversou sobre o momento atual do Papa, a crise dos abusos e a aberta oposição de setores tradicionalistas que o acusam de herege. Um diálogo onde não se esquivou sobre a situação da Igreja chilena. “O que a Igreja conseguiu entender é que o poder e a influência, se não vão ligados à uma humildade, podem produzir muita corrupção”, assegura. E agrega: “Um dos fatores mais importantes da crise da Igreja chilena foi a deformação feita por Sodano na época de Karadima e Pinochet, isso é inquestionável”.

A entrevista é de Juan Pablo Iglesias, publicado por La Tercera, 10-08-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis a entrevista.

Você aborda em seu livro a oposição que enfrenta o Papa Francisco na Igreja. Esse movimento de resistência tem crescido?

Em termos de número não sei se cresceu, mas segue sendo muito vociferante e potente no sentido que envolve vários cardeais e organismo muito ricos e potentes nos Estados Unidos. Eles viram a crise do ano passado como uma oportunidade. No Chile viram que o Papa estava fraco, então se aproveitaram disso com uma ferocidade insólita. Porém, os que o atacaram, liderados por Carlo Maria Viganò são os memso que rechaçaram a exortação apostólica Amoris laetitia. O que dizem algumas pessoas próximas ao Papa é que esse grupo está muito bem organizado e decidido a lançar cada mês um míssil, algo que trate de desacreditá-lo. Essas táticas são muito típicas dos Estados Unidos, das técnicas que usaram os conservadores contra Obama.

O cardeal Gerhard L. Müller, ex-prefeito para a Doutrina da Fé, foi uma voz muito crítica ao Papa. Que papel exerce nesse grupo?

O cardeal Müller se tornou no líder, a figura principal da oposição. A tática dele é fazer acreditar que existe confusão na Igreja e que somente ele pode resolver. Está tratando de recuperar o papel que acreditava ter sob Francisco, mas que Francisco não lhe permitiu exercer. Agora que está livre, pretende ser o cão de guarda da doutrina. Mas é, ao fim e ao cabo, um oficial emérito da Cúria, isso é, não tem posição nenhuma na Igreja.

Esse clima de enfrentamento é inédito na Igreja Católica?

Acusações de heresia nunca faltaram, o que sim é inédito é que um ex-oficial da Cúria ataque tão abertamente um Papa. Eu acredito que a ferocidade das críticas e a forma descarada em que fazem são novidades. Parece que alguns católicos conservadores esqueceram que o católico tradicional respeita o magistério papal.

Por que acredita que isso está acontecendo?

A oposição feroz começa com o sínodo (de 2014). Através do sínodo, o Papa criou um espaço e deu a possibilidade de uma mudança. O que se criou foi um mecanismo de discernimento que estabelecia que se ao final houvesse um consenso, o Papa o respeitaria. Isso causou fúria a alguns que acreditavam serem donos da doutrina da Igreja. Desde então se sentem impotentes e furiosos.

Viram certos privilégios ficar em risco?

Mais que isso, a religião te dá certo privilégios ou poder, a ideia que tem a verdade. E quando te tiram isso, te enfurece.

Alguns falam de uma divisão entre o papa Francisco e o Papa Emérito. Existe essa divisão?

Eu vejo um Papa emérito sempre muito leal a Francisco. São muito mais próximos do que a gente acredita. No entanto, vejo também uma corte em torno ao Papa emérito muito ligada à resistência ao Papa, e que está fazendo muito dano, porque estão manipulando a figura do Papa emérito. É preciso encontrar uma forma de controlar a sua corte, que é nesse momento fonte de escândalo e de divisão.

Como um grande historiador de Francisco, o que significou a viagem ao Chile para esse papado?

O Papa teve que aprender muito nesse caminho e o Chile foi sem dúvidas chaves. Eu descrevo assim no livro, antes do Chile viu a questão em termos de uma série de políticas que eram necessárias. Porém eu creio que Chile ensinou que onde há uma corrupção muito grande, essas políticas são insuficientes e a única forma de tirar uma instituição disso é um choque muito grande. No caso dele, foi o choque de Iquique e a tempestade de críticas que recebeu, e sobretudo o relatório de Scicluna, que fez aparecer tudo.

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