“Não nos chamem de vagabundos. O evangelho entre os pobres". Encontro com os invisíveis que vivem sob a cúpula de São Pedro

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12 Agosto 2019

A uma irmã da caridade missionária certa vez foram confiadas algumas famílias pobres, entre as quais um jovem casal com alguns problemas mentais e três filhos. Entrando na casa deles, a freira encontrou a mãe lavando as roupas das crianças em uma bacia, colocando-as na água como estavam, excrementos incluídos. Nauseada, relatou a cena a um vizinho que prometeu dar-lhe de presente um par de luvas de cozinha. Para aceitá-los, porém, a freira precisava da autorização da superiora, uma autorização que lhe foi negada: Madre Teresa, naqueles dias em Roma, explicou-lhe que todos são capazes de amar até a porta da casa, mas que o verdadeiro amor começa depois, quando se chega perto da bacia e, com as mãos nuas se lavam as roupas, mesmo cheias de sujeira.

O comentário é de Silvia Gusmano, publicado por L'Osservatore Romano, 10 e 11-08-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Reprodução da capa do livro de Angelo Romeo.

O episódio é lembrado pelo cardeal Francesco Montenegro, arcebispo de Agrigento, no prefácio do livro de Angelo Romeo, Non chiamateci barboni. Il vangelo tra i poveri (Não nos chamem de vagabundos. O evangelho entre os pobres, em tradução livre, Bolonha, Edb, 2019, p.150, 10 euros): é justamente "amor sem luvas - escreve o cardeal - aquele que Romeo me recordou em seu livro".

O episódio é extremamente apropriado para apresentar a crônica dos encontros diários de Romeo - sociólogo que há anos está engajado no trabalho social - com aqueles que vivem à sombra da cúpula de São Pedro, nas calçadas da Estação Termini e sob as pontes do Tibre, povoando a vida cotidiana de uma cidade grande como Roma.

Mulheres e homens invisíveis, transparentes para a sociedade ("Estou feliz que você esteja aqui comigo, as pessoas pensam que somos [...] quase endemoninhados, loucos"); meros corpos que se movem de uma calçada para outra, simples elementos de estatísticas que, no máximo, viram notícia nos momentos mais frios do ano. Romeo, ao contrário, os vê, ouve, fala com eles. E assim consegue apresentá-los para nós, para nos contar sobre a raiva, medos, derrotas, decepções e traições que vivem, mas também sobre a esperança, o calor das lembranças, os sonhos e a solidariedade que os acompanham. Assinando um retrato que é ao mesmo tempo aquele de indivíduos, de uma comunidade e de uma cidade inteira.

“Certa noite - escreve Romeo - caminhando como costumo fazer na área de São Pedro, ouço um homem gritando a plenos pulmões com um grito de desespero: ‘Não somos apenas vagabundos, somos seres humanos’”. E é precisamente a sua humanidade que Romeo redescobre em sua proximidade e amizade ("Um homem em Borgo Pio me fala: ‘Mas por que você vem me ver todos os dias? Eu cheiro mal, te trato mal, as pessoas fogem quando me veem ... você me traz comida, fica falando comigo, sei lá, você é muito esquisito!’ ‘Porque quero ser teu amigo’"). Tudo na certeza de que os últimos não são apenas estômagos a serem enchidos ou corpos a serem vestidos, mas mulheres e homens famintos de escuta e de amor. "O pobre não procura simplesmente um sanduíche ou um prato de massa, o pobre também quer compartilhar as experiências que vive na rua com uma pessoa que não o julgue, que não o faça se sentir desconfortável".

Porque não há apenas desconforto físico e material: em muitas situações, quem mora na rua acaba por se convencer de que é diferente porque não tem mais casa, não tem mais emprego, não pode se permitir nada além de "ocupar um espaço com um pedaço de papelão no chão público". Um conjunto de condições que levam ao isolamento, à dureza e ao desespero.

Em seus anos pelas ruas de Roma, Romeo se encontrou com cristãos, muçulmanos, hindus, ateus, pessoas a quem a rua tirou o desejo de acreditar, em alguém e em algo. "Homens e mulheres que vivem o seu Getsêmani cotidiano", sofrendo aquela dor generalizada, a dor da solidão.

Romeo caminha pelas ruas de Roma, mas poderia ser qualquer outra grande cidade entre transeuntes distraídos pelo celular, pela pressa, pelo desejo de não olhar para não ser forçado a ver. No entanto, em seu relato, há também a especificidade de um lugar como nenhum outro. Por exemplo, porque o barulho do Tibre reaparece muitas vezes, às vezes ameaçador, mas mais frequentemente como um companheiro de viagem na longa noite atravessada pelos desabrigados. Ou ainda porque Roma consegue ser tão inóspita quando - no papel - deveria ser exatamente o oposto. "Onde está este deus de quem você fala, onde está este Deus aqui na rua? Há tantas igrejas em Roma, mas às vezes sinto sua ausência, sinto frio não só por causa do clima, mas porque me sinto sozinho e abandonado. Onde está este Deus quando nós últimos sofremos tão amargamente?”.

Angelo Romeo fecha o livro contando sobre sua permanência na Índia junto às irmãs de Madre Teresa, mas, independentemente dos continentes, a mensagem continua a mesma: o desejo é que, depois de conhecer esse livro, o leitor possa parar para olhar as pessoas que estão nas calçadas e nos ônibus com um olhar diferente.

Todos nós somos realmente convidados a olhar para ver: Dom Primo Mazzolari - citado por Romeo - dizia que aqueles com pouca caridade veem poucos pobres; quem tem muita caridade, vê muitos pobres; quem não tem nenhuma caridade, não vê nenhum.

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