Dois papas e o cura: tão próximos, tão distantes

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08 Agosto 2019

"Mais distante nos dois pontífices é a maneira de ilustrar a relação entre o padre e o povo de Deus é: Bento XVI fala de 'colaboração' com os leigos. Para Francisco há uma equivalência entre o vínculo constitutivo da identidade sacerdotal com Jesus e aquele com o povo", escreve Lorenzo Prezzi, teólogo italiano e padre dehoniano, em artigo publicado por Settimana News, 07-08-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

Os papas são Bento XVI e Francisco, o cura é João Maria Vianney, patrono de todos os párocos do mundo. A carta do Papa Francisco aos sacerdotes para o 160º aniversário da morte do Santo Cura d'Ars (4 de agosto de 2019) pode ser lida em paralelo à de Bento XVI dez anos antes, por ocasião da instauração do ano sacerdotal (2009-2010). Com surpreendentes afinidades e não menos evidentes distâncias: um testemunho de como as memórias espirituais atravessem e mudem nos diferentes momentos históricos.

A recente carta de Francisco é um ato de estima e afeto para os presbíteros que trabalham nas trincheiras e que "colocam a cara". É estruturada com base em alguns sentimentos e orientações espirituais, privilegiando a vivência do padre: dor, gratidão, coragem e louvor. A intenção geral é estimular a fidelidade criativa dentro do caminho da reforma eclesial.

A carta de Bento XVI tem o mesmo desejo de consolação, mas cresce em torno da confirmação de uma identidade teológica e institucional: ofício e sacramento, santidade subjetiva e objetiva. Vianney se torna um modelo de imediata praticabilidade, enquanto para Francisco permanece uma fonte exemplar, mas no pano de fundo.

Vianney: modelo ou inspiração

Comum é o reconhecimento dos sacerdotes para trazer uma representação eclesial ao cotidiano caminho do povo de Deus, para constituir um "imenso dom ... não só para a Igreja, mas também para a própria humanidade" (Bento XVI), colocados à prova pelos sofrimentos que cruzam, pelos mal-entendidos e, às vezes, pelas perseguições. Francisco acrescenta: "eles se sentem ridicularizados e culpabilizados por crimes que não cometeram".

A referência é à longa história dos abusos que Bento XVI enfatiza não tanto na carta de instauração, mas na homilia no final do ano sacerdotal. "Era de se esperar que ao ‘inimigo’ esse novo brilho do sacerdócio não teria agradado; ele teria preferido vê-lo desaparecer, para que afinal Deus fosse empurrado para fora do mundo. E assim aconteceu que, precisamente neste ano de alegria pelo sacramento do sacerdócio, tenham vindo à luz os pecados de sacerdotes - principalmente os abusos contra os pequenos - nos quais o sacerdócio como função da preocupação de Deus para o benefício do homem é transformado em seu contrário". Uma década conturbada, mas para Francisco "os tempos de purificação eclesial que estamos vivendo nos tornarão mais alegres e simples e, num futuro não muito distante, serão muito frutíferos".

Para ambos os pontífices, o padre é uma figura inevitável da experiência eclesial. Bento insiste muito sobre sua identidade teológica e institucional, em "sua total identificação com o próprio ministério", na "extraordinária fecundidade entre a santidade objetiva do ministério e aquela subjetiva do ministro". Ele assume, com uma imperceptível distância, a absoluta centralidade do padre expressa nos escritos de Vianney: "Depois de Deus, o sacerdote é tudo!"

Para Francisco, o sacerdote está dentro, diante e atrás de seu povo, ligado a ele pelo serviço e pela gratidão: "Agradecemos também pela santidade do povo fiel de Deus que somos convidados a pastorear e através do qual o Senhor pastoreia e cuida também de nós, com o dom de poder contemplar este povo”.

Tristeza adocicada

Muitos próximos os textos dos dois papas sobre a centralidade da oração na vida do presbítero, no vínculo entre o sacramento eucarístico e o sacramento da penitência, na afirmação de uma vocação que é "para sempre". "Essa identificação pessoal com o sacrifício da cruz levava (o cura de Ars) - com um único movimento interior - do altar para o confessionário. Os sacerdotes nunca deveriam se resignar a ver seus confessionários desertos ou limitando-se a ver o desapreço dos fiéis em relação a este sacramento” (Bento XVI). "Obrigado, porque vocês celebram diariamente a Eucaristia e pastoreiam com misericórdia no sacramento da reconciliação, sem rigorismo ou laxismos, assumindo a responsabilidade pelas pessoas e acompanhando-as no caminho da conversão" (Francisco).

Também pode ser sobreposto o apelo à ascese, a ponto de reconhecer a extrema tentação da angústia. "Pode até haver momentos em que deveríamos mergulhar ‘na oração do Getsêmani, a mais humana e dramática das orações de Jesus’" (Francisco). O vale escuro da morte recorda os "vales sombrios da tentação, do desânimo, da provação, que cada pessoa humana deve atravessar. Também nestes vales escuros da vida Ele está lá" (Bento: homilia no final do ano sacerdotal).

Mais distante nos dois pontífices é a maneira de ilustrar a relação entre o padre e o povo de Deus é: Bento XVI fala de "colaboração" com os leigos. Para Francisco há uma equivalência entre o vínculo constitutivo da identidade sacerdotal com Jesus e aquele com o povo: "Não se isolem de seu povo e dos presbíteros ou da comunidade. Menos ainda não se encerrem em grupos fechados e elitistas”. Diferente também o acento nos vínculos com outros padres dentro do presbitério: "tentem fortalecer os laços de fraternidade e amizade no presbitério e com o vosso bispo, apoiando-vos mutuamente, cuidando de quem está doente, procurando os que estão isolados, incentivando e aprendendo a sabedoria do ancião, compartilhando os bens, sabendo rir e chorar juntos" (Francisco).

Para Francisco, há dois sinais que medem a qualidade do serviço ministerial: por um lado, a capacidade de acompanhar a pobreza e a dor, sem fugir no intelectualismo e no fatalismo, pelo outro, a resistência à acídia. "Desapontados pela realidade, pela Igreja ou por nós mesmos, podemos viver a tentação de nos agarrar a uma tristeza adocicada, que os padres do Oriente chamavam de acídia", aquela tristeza que paralisa a coragem de continuar no trabalho, na oração, na cordialidade dos relacionamentos, "o pior inimigo da vida espiritual".

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